Contexto Histórico — Rússia

Exploração do Petróleo Russo

· Origens

“O petróleo é 10% economia e 90% política” (2003, Daniel Yergin, presidente da CERA, Cambridge Energy Research Associates). Tal conceito aplica-se muito bem à Federação Russa, que, ao longo da história foi capaz de usar sua abundância em petróleo como instrumento político.

As indústrias do petróleo russo têm suas origens no século XIX, com a descoberta de grandes porções do recurso no Canato de Baku, Mar Cáspio. A partir do empreendedorismo dos irmãos suecos Ludwig, Alfred e Robert Nobel a cidade de Azeri tornou-se a maior produtora deste hidrocarboneto no mundo. Eles foram responsáveis pela criação das primeiras refinarias privadas, pelo assentamento do primeiro oleoduto e pela distribuição através de navios petroleiros. A região de Baku chegou até a superar os níveis de produção dos Estados Unidos (até então líderes mundiais na produção de petróleo).

Com a queda czarista, em 1917, e fundação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1922, todas as refinarias, oleodutos e outros empreendimentos dos irmãos Nobel passaram por estatização no governo soviético de Yosef Lenin. Apesar da implementação de um sistema diferente do capitalismo, o petróleo continuou sendo um dos pilares de sustentação da economia russa.

Entre 1929 a 1933, há um grande aumento nas exportações do petróleo russo, atingindo 17% do petróleo importado pela Europa Ocidental, sendo a Itália o cliente mais importante. Vale ressaltar citar que a ajuda estrangeira (perfuração, extração, refinação) foi essencial à indústria petrolífera russa, tanto antes da Revolução de 1917, como antes da Segunda Guerra Mundial. Em 1940, após Pacto Nazi-Soviético, a Alemanha absorve 75% das exportações de petróleo da União Soviética (inclusive uma das grandes prioridades de Hitler, ao invadir a URSS, era tomar as jazidas de Baku).

Após 1973, com a Guerra do Yon Kippur e o embargo petrolífero árabe dela resultante, os russos passam a usar o petróleo como poderosa arma diplomática e de política externa. Países como os africanos, asiáticos e latino americanos, que desejavam se desligar de suas antigas potências coloniais, vêem com bons olhos os preços mais baixos e os empréstimos concedidos pela União Soviética. Os soviéticos, a partir de seu potencial energético, aumentam seu poder de influência política e também o conteúdo de seus cofres.

O embargo que os países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) impuseram aos Estados Unidos e a outros países do Ocidente proporcionou à URSS a chance de aumentar suas exportações. Após 1973, os consumidores mundiais começam a perceber que o abastecimento proveniente do Oriente Médio envolvia muitos riscos e desejavam reduzir sua dependência dessa região incerta e conflituosa. Isso fez com que a energia importada da URSS se tornasse mais atraente aos olhos desses países. Um exemplo disso foram os países da Europa, que passam ver as vantagens de comprar petróleo e gás natural da União Soviética, uma vez que estes poderiam ser distribuídos por oleodutos e gasodutos, significando viagens mais curtas e menor vulnerabilidade em relação os conflitos do Oriente Médio, às demandas da OPEP e embargos políticos.

Em 1985, ficam prontos os oleodutos e gasodutos e a Europa Ocidental, mais satisfeita. Alguns observadores logo alertam para a futura dependência energética e política europeia em relação à União Soviética. Uma alternativa seria usar o gás natural liquefeito (LNG), porém, seria oneroso demais e incomportável a criação de locais para liquefazer o petróleo.

Com a queda da União Soviética, em 1991, a recém-formada Federação Russa não podia mais contar com importantes centros produtores de petróleo e gás natural, como Cazaquistão, Azerbaijão, Turcomenistão e bacias no Mar Cáspio. Tudo parecia estar perdido, porém, graças à riqueza energética e a liderança de Vladimir Putin, a partir de 2000, o país consegue se estabilizar, pagar suas dívidas e se tornar o maior produtor mundial de petróleo. A procura global de energia, a partir de 1999, começa a ultrapassar a capacidade de produção dos produtores mundiais, e a Federação Russa logo absorve essa demanda mundial, sendo que cerca de 40% do aumento do consumo mundial entre 2000 e 2004 é proveniente da Rússia. Esta se transformou então, em uma nova superpotência, não mais militar, mas energética, expandindo seus “tentáculos” a diversas regiões do globo, sobretudo na Europa e tendo em suas mãos o poder de cessar o fornecimento a qualquer momento.

· Empresas do Petróleo

As corporações de petróleo da Rússia apresentam extrema importância na economia e política do país, sendo utilizadas na busca de interesses nacionais e estando fortemente presentes no cenário internacional ao longo do tempo.

A Yukos surgiu em 1993, a partir de uma resolução emitida pelo governo russo objetivando a extração e refino de petróleo da Sibéria Ocidental. Após escândalos envolvendo um dos então candidatos à presidência russa em 2005, ela é vendida e incorporada à estatal Rosneft, também fundada em 1993 e que é hoje referência em excelência no setor petrolífero do país, devido ao seu rápido e constante crescimento e também ao capital adicionado com a incorporação da Yukos.

Atualmente, a Rosneft vem atraindo investimentos de empresas britânicas, como a British Petroleum e malaias, como a Malaysian Petronas, além do grupo estatal chinês do mesmo setor, CNPC. Hoje em dia está entre as três maiores empresas de petróleo da Rússia, sendo o governo do país seu maior acionista, com 75% das ações. Sua importância para a economia russa é vital.

A Lukoil, empresa de capital aberto fundada em 1991, também é extremamente importante, sendo a segunda maior empresa petrolífera privada do mundo em reservas comprovadas do hidrocarboneto, possuindo 1,3% de toda a reserva mundial de petróleo e 2,3% da produção da commoditie.

A Transneft também apresenta grande importância. Foi criada em 1992 através de um decreto governamental, e é hoje a maior rede de oleoduto estatal do mundo, com cerca de 70 mil quilômetros de extensão, responsável pelo controle de todos os dutos existentes na Rússia. Sua localização inicia-se no Leste Europeu, percorrendo diversas localidades até a Ásia. É a espinha dorsal do sistema de escoamento da commoditie russa a outros mercados.

Anteriormente a exportação da Rússia era feita via países bálticos. Hoje, com a construção do grande porto exportador na cidade de Primorsk, ao norte de São Petersburgo, a Transneft já vem mostrando grande interesse em alijar os estados bálticos no mercado exportador de petróleo russo, tanto é que desde 2002 foi cessado o suprimento de petróleo para exportação em Ventspils, na Letônia.

Indústrias do Gás Natural: Origens

A Gazprom, atualmente maior empresa de gás natural do mundo, é responsável pela exploração geológica, produção, transmissão, armazenamento, processamento e marketing do gás. Surgiu em 1943, criada pelo governo soviético. A partir das descobertas de gás na Sibéria, nos montes Urais e na região do Volga nos anos 70 e 80, a empresa passa a ser a grande fornecedora do recurso ao país. Em 1989 ela surge oficialmente, renomeada pelo ministro de gás e desenvolvimento Mikhail Gorbachev.

Com o fim da Guerra Fria e a dissolução da União Soviética em 1991, a empresa passa por um processo de privatização. Mas quando Vladmir Putin assume a presidência em 2000, o seu destino é alterado, graças à política reformista do então nomeado CEO Alexei Miller em 2001, voltando então a ser controlada em grande parte pela máquina pública estatal, mas sem abrir mão do capital privado. O governo russo atualmente é o seu principal acionista, detendo 50,02% das ações ordinárias.

A Gazprom, a partir dos anos 2000, também passou a exercer “Soft Power”, estando sempre presente na mídia russa e realizando uma série de investimentos em turismo, agricultura e até no esporte, o que tem aumentado sua visibilidade principalmente em relação aos países da Europa Ocidental.

História: a Rússia como potência militar e suas estratégias na política externa

A Rússia é um país de forte tradição militar, fato que se fez evidente durante o período da Guerra Fria, quando a então União Soviética fazia-se valer do seu consagrado exército vermelho para exercer sua política externa imperialista. O poderio militar era desempenhado na sua forma mais pura, quando as forças armadas se utilizavam de seu poder para lograr êxitos militares, ou mesmo como instrumento de coerção. A essas práticas, dá-se o nome de “Hard Power”.

Com o fim da Guerra Fria e a dissolução do bloco soviético em 1991, a Rússia passou, aos poucos, a adotar uma economia de mercado. Em primeira instância o país passou por um processo de liberalizações e privatizações dos seus principais setores estratégicos, o que fez com que sua indústria e economia começassem a ser lideradas por grupos privados. Já em uma segunda fase, marcada pela posse do presidente Vladmir Putin em 2000, o Estado retomou o controle do setor de energia, ampliando sua participação sobre a gestão das gigantescas empresas mistas/híbridas de petróleo e gás. O governo de Putin calca-se sob um conjunto de fatores, como a repressão e cooptação da elite, suborno da população com benevolências estatais, utilização do lucro na venda de commodities energéticas como elemento político de coerção, além da grande presença do estado na economia e na política, angariando assim ampla aprovação popular.

Atualmente, a pujança energética russa fornece condições para que uma nova forma de poder possa surgir no cenário político do país: o “Soft Power”. Como exemplo destas práticas temos a condução russa da União Europeia em determinadas ações por meio da persuasão proveniente da posse de recursos energéticos “Ontem eram os tanques. Hoje, o petróleo”, define Zbigniew Siemiatkowski, ex- chefe do serviço de segurança polonês, quando trata da utilização russa de suas grandes remessas de petróleo e gás natural para a Europa como forma de amplificar sua posição em relação ao continente, comparando-a com o uso em peso de seus recursos bélicos do país durante a Guerra Fria.

Ainda que a utilização do “Soft Power” tenha aumentado significativamente nas ações da política externa da Rússia, ainda há muitos resquícios da utilização do “Hard Power”, evidente em um caso ocorrido em junho de 2014 quando, após fracasso das negociações sobre o preço do gás com a Ucrânia, a Rússia simplesmente cortou o fornecimento de gás a esse país, o que inclusive ameaçou o fornecimento dos países da União Europeia. O vídeo abaixo ilustra esta e outras ações da Rússia ao utilizar o gás natural como instrumento de coerção.

Por Geovanna Cocenza da Silva.

REFERÊNCIAS

Livro de Pós-Graduação: AUGUSTO, Alexandre Alberto Rodrigues de Camargo: Segurança energética: impactos geopolíticos na Rússia e União Europeia e alternativas ao uso de combustíveis fósseis- São Paulo, 2009

Livro: OLIVEIRA, Amaury Porto de. O gás natural: uma energia civilizante?∕ Amaury Porto de Oliveira-. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 1988

Energy Empire: oil, gas and Russia’s Revival. Disponível em:

<https://www.brookings.edu/articles/energy-empire-oil-gas-and-russias-revival/> Acesso em 20 ago 2016

Index Mundi. Disponível em:

<http://www.indexmundi.com/g/r.aspx?t=10&v=138&l=en> Acesso em 20 ago 2016

Resource Rents and the Russian economy. Disponível em:

<https://www.brookings.edu/articles/resource-rents-and-the-russian-economy/> Acesso em 20 ago 2016

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