Interdependência Rússia-UE

O fato da União Europeia ser dependente das fontes energéticas russas, confere a esta uma maior vantagem estratégica, podendo utilizar seu gás como um instrumento de política externa e até com uma abordagem Soft e Hard Power.

Segundo os dados de 2014 da Comissão Europeia, a UE importa cerca de 35% do gás natural e 30% do petróleo utilizado da Rússia. A dificuldade de diversificar seus fornecedores de gás faz com que a União Europeia seja altamente dependente do gás russo e esta detenha o monopólio energético da Europa. Essa dificuldade vem do fato da Rússia deter não só grande quantidade de bens energéticos em seu território, mas também ter o controle dos gasodutos que alcançam quase todos os Estados europeus. O único país que consegue rivalizar com a Rússia é a Noruega, porém mesmo crescendo na exportação de gás, a Rússia ainda é a maior exportadora para a UE, principalmente para os países do leste europeu.

Figura 1- Quotas de exportação de gás natural para os países europeus da OCDE

Fonte: East European Gas Analysis

O gráfico acima mostra como a Rússia continua a maior exportadora de gás para a Europa, porém a Noruega também vem ganhando mercado. Para amenizar essa concorrência, a Gazprom pretende adquirir empresas de gás externas e tem projetos de construção de novos gasodutos, controlando assim a maior parte de gasodutos europeus.

Figura 2 — Mapa de gasodutos europeus e quantidade de gás importado da Rússia (% do total, 2012)

Fonte: Eurogas

A Rússia é a principal fonte energética de muitos países europeus (como podemos observar na Figura 2). Muitos países dependem exclusivamente do gás russo para abastecimento energético, o que causa grandes problemas caso haja uma falha de distribuição, podendo ser causadas por divergências com a Rússia, ou até mesmo catástrofes naturais, falhas técnicas ou ataques terroristas. Como a União Europeia enfrenta grandes dificuldades em achar outro exportador de gás, a Rússia aproveita da situação para impor seu poder, cortando e ameaçando cortar o envio de gás caso haja alguma discordância política ou comercial entre ela e o bloco ou a Ucrânia - por onde passam a maioria dos gasodutos. Isso faz com que a segurança energética em alguns países europeus seja muito frágil devido essa grande dependência e esses países precisam encontrar soluções para esse problema.

Dentre os países altamente dependentes das fontes energéticas russas, encontram-se os países do bloco leste em sua grande maioria, muitos dependentes quase 100% da energia da Rússia. Podemos perceber isso analisando a Figura 2, em que países como Estônia, Letônia e Lituânia possuem uma alta dependência energética. Esses países do bloco leste se encontram nessa situação, pois no fim do bloco socialista eles privatizaram suas indústrias energéticas para se desvincular de vez com a imagem comunista, e a grande maioria foi comprada por companhias russas.

A Rússia e a União Europeia estabelecem uma alta relação de interdependência. Ao mesmo tempo que a Rússia é a maior exportadora de gás para os países que integram o bloco europeu, estes países são grandes compradores do gás russo. Apesar dessa relação interdependente, a situação da UE acaba sendo mais frágil, pois a Rússia consegue outros parceiros comerciais, como a China. Mas, por agora, a ascensão da Rússia está extremamente dependente da exportação dessas fontes de energia para a UE e é urgente diversificar a sua economia e garantir um desenvolvimento endógeno e sustentável através de uma diversificação de exportações, já que a Europa importa 69% do gás e 70% do petróleo exportado da Rússia e isso corresponde a 54% da receita russa.

O principal exportador de petróleo para a União Europeia também é a Rússia. Em 2014, cerca de 30% das importações de petróleo da EU era proveniente da Rússia. Porém, diferentemente do gás que se encontra em estado gasoso e precisa ser transportado por gasodutos, o petróleo pode ser transportado de varias outras formas, sendo possível diversificar a origem das importações.

Figura 3 — Taxa de dependência energética, UE-28, 2003–2013
 (% de importações líquidas no consumo interno bruto de energia e nas bunkers, com base em toneladas equivalentes de petróleo)

Fonte: Eurostat

Essa dependência energética (que pode ser observada na Figura 3) é muito estratégica para a Rússia e para a Gazprom terem um domínio comercial. Assim, a União Europeia tenta procurar saídas para esse problema enquanto a Rússia procura manter a situação como está. O presidente estadunidense, Barack Obama, já declarou em uma cúpula em 2014 que os países da UE precisam tomar medidas para terem uma maior independência energética. Ele pressionou os líderes europeus a explorarem outras formas de energia, propondo até um acordo para os Estados Unidos fornecerem gás de xisto para o bloco europeu, substituindo assim o gás natural .

A União Europeia, apesar de ser um bloco com grandes potências econômicas, não possui uma coesão institucional, o que impede os países de elaborarem estratégias. Isso atrapalha esses países para achar uma alternativa à energia russa e diminuir sua dependência.

Para a UE ter uma política energética eficaz é necessário a participação da França, da Alemanha e da Itália. A França e a Alemanha têm uma posição geográfica estratégica e como estão mais longe da Rússia possuem uma rede de gasodutos que lhes permitem comprar gás de outros países, como a Noruega. Já a Itália é importante também devido sua localização geográfica, sendo uma forma de entrada do gás natural no norte da África na Europa.

1- Disponível em: <http://www.eegas.com/rus-norw-2010-09.htm> Acesso em: 07 jun. 2016

2- Disponível em: <http://www.eegas.com/rus-norw-2010-09.htm> Acesso em: 07 jun. 2016

3- Disponível em: <http://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php/File:Energy_dependency_rate,_EU28,_2003%E2%80%9313_(%25_of_net_imports_in_gross_inland_consumption_and_bunkers,_based_on_tonnes_of_oil_equivalent)_YB15.png > Acesso em: 18 ago. 2016

Referências Bibliográficas

UE precisa depender menos da energia russa, alerta Obama. Disponível em: <http://www.dw.com/pt/ue-precisa-depender-menos-da-energia-russa-alerta-obama/a-17522401>. Acesso em: 20 abr. 2016.

RAFAEL, João Miguel Chaves. Estratégia energética da Rússia: O caso do gás natural nas relações com a Europa. 2012. 142 f. Dissertação (Mestrado) — Curso de Relações Internacionais, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Universidade Técnica de Lisboa Estratégia, Lisboa, 2012.

Produção e importação de energia. Disponível em: <http://ec.europa.eu/eurostat/statistics-explained/index.php/Energy_production_and_imports/pt>. Acesso em: 23 abr. 2016.

A Europa conseguiria viver sem o gás russo? 2014. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/03/140328_alternativas_europa_gas_rb>. Acesso em: 03 ago. 2016.

HENDLER, Bruno. A Segurança Energética entre Rússia e União Europeia: Interdependência Complexa e Cenários Possíveis. Conjuntura Austral, Porto Alegre, v. 6, n. 30, p.12–32, jun/jul 2015. Disponível em: <http://seer.ufrgs.br/ConjunturaAustral>. Acesso em: 23 maio 2016.

Carla Paiva

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