Introdução

São muitos os estudiosos que dissertam sobre a importância da energia para a civilização e nas relações internacionais em específico, a exemplo de Michael Klare que “observa que a competição e o conflito em torno do acesso às fontes principais de materiais valiosos e/ou essenciais acompanham a trajetória da humanidade desde os tempos pré-históricos” e acredita que o crescente valor dos recursos energéticos faz com que estes sejam considerados bens de interesse vital por muitos Estados; e Hans Morghentau, que inclui as matérias-primas — juntamente com os fatores geográficos e a autonomia na obtenção de alimentos — entre os componentes estáveis do poder das nações. “O poder nacional torna-se cada vez mais dependente do controle das matérias-primas, tanto na paz quanto na guerra”, escreve. Instigados pela constante e perene relevância da questão energética ao longo da História e estimulados pelo grau de politização no qual esta está envolvida nos tempos vigentes, o grupo viu-se fadado a estudá-la, medindo esforços para melhor compreender a utilização de recursos energéticos como instrumento de poder, por parte da Rússia sobre a União Europeia em particular, tema com inúmeros fatores geopolíticos envolvidos e de grande relevância à conjuntura internacional.

Condicionados por indagações como as de o quão profunda é a relação de interdependência entre o Estado russo e o bloco europeu (entendendo desde o princípio a existência de uma relação interdependente e não de uma dependência unilateral), qual dos atores é mais vulnerável e por que, as vantagens e desvantagens desta interdependência para cada um deles e as tentativas tomadas por ambas as partes para minimizá-la, debruçamo-nos na busca por informações mais detalhadas, conhecimento de conceitos acadêmicos e levantamento de dados variados para construir uma base concreta para esta obra.

Além de embasarmo-nos nos atores principais da interdependência (Rússia e União Europeia), buscamos incluir componentes que também se destacam nesse debate, sendo eles a Alemanha, as empresas nacionais russas Gazprom e Rosneft, o Presidente Russo Vladimir Putin e a Chanceler alemã Angela Merkel. A partir da teoria de Mickael Klare sobre as “nações superavitárias” (ESN’s) e “nações deficitárias” (EDN’s), dos conceitos de interdependência, hard power e soft power — entre outros — de Joseph Nye, a teoria de heartland de Halford Mackinder, os conceitos de mensuração do poder de Karl Deutsch e de esquematismo racional de Raymond Aron, traçamos uma base de pensamento crítico e pretendemos examinar a relação Rússia-União Europeia de forma criteriosa a ponto de clarificar as particularidades da interdependência.

As nações que “têm o que os outros querem ou precisam estão em uma posição favorável” e são “mais independentes se tiverem acesso viável a recursos importantes, se tiverem alternativas possíveis, se tiverem a capacidade de passar sem os outros e se tiverem influência para usar sobre os outros ”. Esta é uma afirmação feita por Kenneth Waltz (1979) que norteia a percepção que se tem da atuação e dos comportamentos do Estado russo. Partindo do ponto de que a Rússia é um território riquíssimo em suprimentos energéticos e apresenta controle sobre significativas reservas — não só de gás natural como também de petróleo e carvão mineral -, afirmação essa comprovada por números abertamente disponibilizados tanto em trabalhos acadêmicos quanto no meio virtual, comprova-se sua habilidade em usufruir dessa vantagem como meio de maximizar seu poder, impor concessões políticas a países importadores de sua energia e impulsionar sua posição na política internacional. Importa lembrar, no entanto, que apesar de dominar o mercado energético, o país se encontra dependente não só da renda que obtém da União Europeia proveniente da venda de gás natural, mas também das nações por onde circulam os inúmeros gasodutos que possibilitam o fornecimento efetivo de seu recurso energético, situação bem descrita pelo investigador Robert Larsson do FOI (agência de investigação do Ministério da Defesa sueco):

“By being transit states for much of the gas to Europe, states such as Ukraine, Belarus and Poland have enjoyed some counter-leverage on Russia as they have been able to control the flow of gas for further exports to other end customers. Leverage and counter-leverage have created an interdependent and balanced situation that has put some limitations on Russia’s ability to cut supplies.”

O bloco europeu, por sua vez, com sua segurança energética comprometida, é obrigado a lidar com a insegurança e as chantagens políticas russas, o que o impulsiona a buscar formas de diversificar suas importações. Neste aspecto, mostraremos a tentativa de construção do Projeto Nabucco, empreendimento que teria auxiliado na redução da dependência caso não estivesse envolvido em tantas problemáticas que impossibilitaram seu desenvolvimento. Ressaltaremos também a falta de integração entre os Estados-membros da União Europeia que, sem uma política energética unificada e interesses divergentes, dificulta a atuação do bloco. O Comissário Europeu para a Energia em 2010, Gunther Oettinger, afirmou a respeito da situação europeia na relação de interdependência:

This close interdependence will remain also in future. European domestic gas resources are depleting, and we expect therefore an increase of gas imports until 2030. There is no alternative to further strengthen our relations and to start thinking about our joint priorities for the next decades.

O objetivo é ser capaz de, ao final deste trabalho, desenvolver uma visão mais crítica a respeito da interdependência entre Rússia e União Europeia -a ponto de responder os questionamentos que influenciaram inicialmente a escolha deste tema - e compreender a aplicação dos conceitos de estudiosos de relações internacionais em situações vivenciadas.

(Especialistas europeus discutem uma “energy union” como meio de minimizar a influência russa)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KLARE, Michael. Rising powers, shrinking planet: the new geopolitics of energy.Nova York: Holt Paperbacks, 2008.

LARSSON, Robert, Security Implications of the Nord Stream Project, FOI, 12 de fevereiro de 2008, p.5.

MORGHENTHAU, Hans J. A política entre as nações: a luta pela guerra e pela paz. Brasília: Editora Universidade de Brasília/Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2003.

OETTINGER, Gunther, (2011), “Speech of Commissioner Oettinger at the South Stream event”, Brussels.

WALTZ, Kenneth Neal, 1924. Teory of International Relations/New York : McGraw-Hill, c1979.

https://www.youtube.com/watch?v=Ew7oc2xXZ-k

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