Análise Crítica II: Um pouco mais de conceitos

Explorar as classificações/divisões do poder segundo os critérios de Karl Deutsch é o próximo passo para uma análise aprofundada. Para mensurar o peso do poder russo consideram-se como parâmetros o tamanho de seu território — o mais extenso do planeta -, os recursos naturais que este concentra — maior reserva de gás natural, além de uma das maiores reservas de carvão mineral e petróleo -, o arsenal bélico detido pela nação, que é, por sinal, presente em elevado número e grau tecnológico, o nível de interações comerciais -maior exportador de gás natural do mundo e um dos maiores de petróleo, além de relações próximas com a União Europeia e potências asiáticas — e por seu posicionamento na sociedade internacional, que no caso é de grande realce, tendo em vista que compõe de forma permanente o Conselho de Segurança das Nações Unidas, participa do G8 — o grupo dos mais influentes países do globo — e dos BRICS. Evidencia-se então que em todos os critérios a Rússia assume posição de destaque e muita notoriedade, apresentando, por conseguinte, um poder de elevado peso. O domínio deste também se mantém em altos patamares, uma vez que seu poder é legitimado em toda sua extensão territorial (bons níveis de aceitação do governo central, 73% de acordo com o último levantamento realizado pelo Centro Levada no primeiro semestre de 2016) e para além de suas fronteiras, adentrando-se assim na questão do alcance de seu poder, que se prolonga sobre as ex-províncias soviéticas (Geórgia, Moldávia, Cazaquistão, Belarus, Bulgária e muitas outras), a região da Chechênia, a União Europeia (no campo energético, como aqui estudado), entre outros. Por ser uma nação com inúmeras responsabilidades estatais e detentora de uma economia emergente, a finalidade do poderio russo também é elevada.

A questão da expectativa ocupa papel central na relação de interdependência analisada, sendo responsável por tomadas de decisões embasadas em comportamentos esperados, mas não concretizados pelas partes. A expectativa de sofrer, a qualquer momento, corte no fornecimento do gás russo faz os países membros da EU organizarem-se em busca de nações substitutas e novas fontes de energia para suprir suas necessidades. A energia eólica torna-se uma opção, assim como o xisto e a importação de suprimentos energéticos do Catar e da Argélia (apesar de configurar um processo complexo e repleto de empecilhos). Do mesmo modo, a Rússia inicia alianças e fecha acordos com outras nações, como a China e a Índia, visando conquistar novos mercados consumidores e reduzir o grau de interdependência. Trata-se, então, de uma clássica situação em que os atores em ambos os lados buscam se precaver com o intuito de reduzir a vulnerabilidade perante a intensa interdependência envolvendo um recurso vital.

Jogadas estratégicas, meios persuasivos, políticas de controle de agendas e adequação de expectativas evidenciam uma base racional-estratégica que serve de fundação para as ações dos atores centrais analisados. Rússia e EU estão sempre em busca de maximizar suas escolhas e expandir seu escopo de atuação, empenhando-se em defender seus interesses. No caso russo, o “esquematismo racional” — que Raymond Aron expõe em sua obra — é bastante nítido nas tomadas de decisão protagonizadas pelo governo de Vladimir Putin, que logo em seu início, em 2000, retomou o controle do setor energético nacional (vide caso Yukos) — ação que se traduziu no nacionalismo de recursos –, adotando novas estratégias de inserção internacional e buscando elevar seu poder geoestratégico e resgatar a posição de grande potência que tinha no período da Guerra Fria. Trata-se, como bem resume Hughes, de um “processo de instrumentalização de energia, como forma de atingir interesses políticos, econômicos e sociais” (Hughes, 2006), processo esse validado nas palavras do próprio Ministro da Energia russo, Igor Yussufov, em 2003, durante os primeiros anos do governo Putin: “Russia possesses great energy resources — its territory contains 1/3 of the world natural gas reserves, 1/10 of oil reserves, 1/5 of coal reserves and 14% of uranium reserves — and a powerful fuel and energy complex, which is the basis of economic development and the instrument of carrying the internal and external policy. ”(Ministry of Energy of the Russian Federation, 2003) e pelo próprio Presidente Vladimir Putin: “Russia enjoys vast energy and mineral resources which serve as a basis to develop its economy as an instrument to implement domestic and foreign policy. The role of the country on international energy markets determines, in many ways, its geopolitical influence”.

Parece necessário acrescentar, para além dos conceitos de Deutsch, Nye e Aron, as teses de Halford Mackinder e Michael Klare.

Halford Mackinder, em sua obra “O poder terrestre”, apresenta o heartland geográfico, tema central de sua teoria (posteriormente alterada). Este configura, em especial o heartland russo, uma área invulnerável, constituída por grandes reservas de recursos energéticos. Encontradas em meio à Eurásia, as planícies russas representam uma área pivô de elevada importância e relevância, de destaque mundial. Segundo Mackinder, o poder mundial consiste na capacidade de controlar grandezas energéticas, essencialmente o que heartland russo simboliza/constitui.

Michael Klare, por sua vez, divide o mundo em “nações superavitárias” ou “energy surplus nations” (ESN’s) e “nações deficitárias”, “energy deficit nations” (EDN’s). Nações superavitárias correspondem ao conjunto de países com acesso privilegiado a combustíveis fósseis, cuja produção voltada ao exterior, sendo assim, a Rússia um grande símbolo de nação superavitária que procura converter sua vantagem energética em poder global. Nações deficitárias, ao contrário, consistem no grande grupo de países dependentes da importação de energia, que dispendem de recursos diversos (políticos, econômicos, militares ou diplomáticos) para obtê-la. Têm-se então que ESN’s utilizam seus suprimentos energéticos para maximizar poder e EDN’s usam seus recursos de poder para acessar as fontes de energia. A Rússia, nesse cenário de Klare, é um símbolo de nação superavitária, potência energética que utiliza de seu excedente energético como instrumento de política externa, de barganha política.

Por Luísa Locatelli

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARON, Raymond. Paz e guerra entre as nações. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1986.

DEUTSCH, Karl. Poder e Estado-Nação. In: Pensamento Político. Editora UNB.

HUGHES, James, (2006), EU relations with Russia: partnership or assymmetric interdependency? disponível emhttp://eprints.lse.ac.uk/651/1/Hughes.EURussia.2006.pdf Consultado a 20 de Maio de 2010.

KLARE, Michael. Rising powers, shrinking planet: the new geopolitics of energy.Nova York: Holt Paperbacks, 2008.

MELLO, Leonel Itaussu Almeida. Quem tem medo da geopolítica? São Paulo: Hucitec/Edusp, 1999. (Resenha-http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n14/a11n14.pdf).

Ministry of Energy of the Russian Federation, (2003), The Summary of the Energy Strategy of Russia for the Period of Up to 2020, Moscovo, disponível em http://ec.europa.eu/energy/russia/events/doc/2003_strategy_2020_en.pdf.

PUTIN, Vladimir, (2007), “Vive la dialogue Europe — Russie!” Le Monde.

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