Relação Rússia-Alemanha

A interdependência entre a potência europeia alemã e a Rússia mostra-se ainda existente no cenário internacional. A Alemanha, a maior economia do bloco europeu, apresenta considerável dependência com relação ao gás e ao petróleo que importa do território russo. O país conta com participação russa nas importações dessas fontes energéticas na faixa de 25 a 50%. Em 2014, por exemplo, do total de importações alemãs de gás natural, cerca de 39% era de origem russa. A Rússia, por sua vez, articula seus interesses energéticos e securitários em cooperação com a Alemanha, almejando reforçar sua posição junto dos demais atores políticos do quadro euro-atlântico, uma vez que é através de Berlim que ela exerce influência na União Europeia. Dessa forma, ela utiliza seus recursos energéticos como uma fonte de poder e como meio para projetar sua influência política no bloco europeu.

Nesse contexto, o fluxo de gás natural sendo intencionalmente cortado por Moscou parecia ser um cenário improvável no século XX. Mesmo nos dias ‘’mais frios’’ da Guerra Fria, a União Soviética provava ser uma fornecedora confiável de gás natural. Nos anos anteriores à queda do Muro de Berlim, a Alemanha Ocidental recebia metade de seu gás natural da Rússia, por gasodutos chamados de “Irmandade” e “União”. A Alemanha, por sua posição geográfica, atualmente depende menos do gás russo em comparação aos países mais a leste da União Europeia, uma vez que está mais distante da Rússia e apresenta uma rede de gasodutos que lhe permite comprar o gás de outros países, como da Holanda e da Noruega.

O Projeto “Nord-Stream”

Em 2005, objetivando a construção de uma nova rota de exportação de gás para a Europa, foi criado o projeto do gasoduto “Nord Stream”, que ligaria a Rússia à Alemanha. O acordo de construção foi assinado em 2005 pelo presidente russo, Vladimir Putin, e pelo chanceler alemão, Gerhard Schroeder. O gasoduto, que passa através do território da Rússia, Finlândia, Suécia, Dinamarca e Alemanha, é a rota mais curta ligando as maiores reservas de gás da Rússia aos mercados de energia da União Europeia.

Consiste em um projeto de dois gasodutos que objetiva transportar gás natural da Rússia até à Alemanha pelo Mar Báltico, buscando evitar os territórios terrestres do leste europeu, bem como as zonas econômicas exclusivas marítimas da Polônia e dos Estados Bálticos. O primeiro gasoduto já está concluído e operacional desde novembro de 2011.

Embora domine o mercado do gás natural no continente europeu, a Rússia ainda sofre grande dependência com relação à Ucrânia e à Bielorrúsia no que se refere ao transporte desse gás desde o território russo até a região central da Europa. Dessa forma, o Nord Stream apresenta-se como uma estratégia para o país, reduzindo de forma significativa sua dependência em relação a estes países de trânsito. Com ele, o território russo passa a contar muito mais com a Alemanha para a distribuição do seu gás natural até os países europeus.

Pelo fato de a Alemanha apresentar uma boa relação com a Rússia, e devido à sua pujança econômica, ela dificilmente falhará no cumprimento dos contratos, pondo em causa o abastecimento ao restante da União Europeia. Por outro lado, a Alemanha pode ver a sua procura de gás natural aumentar significativamente nos próximos anos, uma vez que existe uma forte contestação antinuclear em sua sociedade, o que inclusive intensificou-se na sequência do desastre nuclear de Fukushima ( Japão), em 2011.

Com ou sem uma queda acentuada na produção da Gazprom, é unânime entre os analistas que o Nord Stream oferece à Rússia maior poder de negociação e mais “hard power” em relação ao leste europeu. Com esse gasoduto, o gás natural russo torna-se uma ferramenta de política externa ainda mais poderosa para a Rússia. Independentemente do fato de ela usar ou não o gás natural para objetivos políticos e não apenas comerciais, o Nord Stream lhe oferece essa possibilidade.

Entretanto, a Alemanha somente irá aprovar a construção de um novo gasoduto russo pra a Europa se a Rússia garantir o fornecimento ao Leste Europeu, segundo o que afirmou o vice-chanceler alemão. A Alemanha acredita que o gasoduto “Nord Stream 2” irá atenuar a produção de gás europeia e a possível interrupção do fornecimento por causa do conflito ucraniano, segundo reporta a agência Reuters. Desde que foi firmado,o acordo vem dividindo opiniões no Leste da Europa. A Polônia, por exemplo, vem sendo hostil com relação ao gasoduto, o que provocou tensões com Berlim, pois o país acredita que o projeto para a execução do gasoduto é ditado por fatores políticos, não por questões econômicas.

A visão de Angela Merkel

No que concerne ainda à interdependência entre Alemanha e Rússia, as principais companhias de energia da Alemanha, a E.ON e a RWE, recebem a maior parte do gás que utilizam da estatal russa Gazprom. A chanceler alemã, Angela Merkel, afirma que por enquanto há boas razões para manter a parceria energética da União Europeia com a Rússia, mas isso pode mudar se Moscou continuar a violar os princípios básicos, como interromper o fluxo de gás à Europa. “Não é a nossa meta cortar completamente a nossa dependência; no entanto, temos naturalmente que pensar sobre o que pode ter que mudar de médio a longo prazo na medida em que as políticas energéticas continuarem a ser violadas por parte da Rússia”, disse Merkel, afirmando que a cooperação no setor energético era do interesse mútuo por parte tanto da Rússia quanto da União Europeia. Contudo, frente a essa dependência energética, o primeiro ministro polonês, Donald Tusk, afirmou em 2014 que isso poderia ser um perigo à soberania europeia.

Em 2011, Merkel afastou a Alemanha da energia nuclear e acelerou o desenvolvimento de fontes de energia renováveis, em uma política conhecida como “Energiewende”. Agora, fatores geopolíticos se tornaram repentinamente fundamentais no debate sobre o futuro da oferta de energia do país e há o seguinte questionamento: Berlim deveria aumentar seu foco na exploração de fontes domésticas de energia visando reduzir a dependência energética da Rússia?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HOETZSCH, Otto. L’evolution de la Russie. 1969, Editora Flammarion.

FORBES. Disponível em:

< http://www.forbes.com/sites/jeremymaxie/2016/03/27/mounting-political-risks-threaten-russias-new-european-gas-pipeline/#64e1a1585d85 >. Acesso em 15 de agosto

SPUTNIK NEWS BRASIL. Disponível em:

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< http://codinomeinformante.blogspot.com.br/2014/05/como-alemanha-poderia-acabar-com.html >. Acesso em 15 de agosto.

REUTERS. Disponível em: < http://www.reuters.com/article/us-ukraine-crisis-germany-russia-idUSKCN0HO1L920140929 ; http://www.reuters.com/article/poland-germany-ukraine-idUSL6N0M71JA20140310 >. Acesso em 15 de agosto.

THE WALL STREET JOURNAL. Disponível em:

< http://www.wsj.com/articles/germanys-merkel-defends-russian-gas-pipeline-plan-1450447499 >. Acesso em 15 de agosto.

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