NXT, onde está a sua divindade?
Talvez o texto a seguir seja uma das maiores polêmicas que escrevi em todo o quarto de século da minha vida (e acreditem, na minha vida pessoal eu escrevo muito porque o trabalho sempre exigiu ter uma boa narrativa). Nunca criei minhas opiniões com base no senso comum para simplesmente contrariar, quem quer remar contra a maré tem que remar muito mais forte e escolher o caminho mais tortuoso por mero prazer não faria nenhum sentido.
Para sustentar meu ponto, evoco aqui um universo tão fantasioso e fantástico quanto o wrestling, a mitologia grega. O cenário é o casamento de Tétis e Peleu, em que todos os deuses estavam reunidos com exceção de Éris, a deusa da discórdia, que sequer foi convidada. Discreta como sempre foi, ao invés de comparecer na festa e causar a ira com sua incômoda presença, resolveu lançar um pomo dourado com uma breve descrição: “À mais bela”. Três deusas reivindicaram ser a destinatária do referido fruto, Hera (esposa e irmã de Zeus e a deusa do casamento), Atena (filha de Zeus e a deusa da sabedoria) e Afrodite (também filha de Zeus, segundo alguns historiadores, e a deusa do amor). As três definiram então que Zeus decidisse quem de fato era a mais bela, todavia o rei dos deuses recusou a solicitação recebida sabendo que sua decisão acarretaria em criar duas grandes rivais, justamente as que não fossem escolhidas. Zeus ordenou então que o mortal Páris, conhecido por sua honestidade, tomasse a complicada decisão.
As três deusas partiram então para o alto do monte Ida, para que fossem julgadas pelo jovem pastor que lá morava. Encantado com as divindades nuas, cada uma delas com sua beleza única, as três perceberam que era necessário algo a mais para conquistarem o tal pomo que a essa altura significava tudo. Hera ofereceu a possibilidade dele ser o rei da Ásia e Europa. Por sua vez, Atena ofereceu sabedoria e habilidade para sair vitorioso em todas as guerras. Afrodite, no entanto, ofertou ao Páris a mulher mais linda do mundo, Helena, que na época era casada com Menelau, o rei de Esparta. Páris não teve dúvidas, escolheu Afrodite. Tem-se assim o estopim para um dos mais famosos conflitos (até hoje se discute sobre quais pontos a poesia grega debruçou sobre a realidade e voou pela fantasia), a Guerra de Troia, que decretou a vitória dos gregos graças ao Cavalo de Troia e a extinção da lendária cidade.
Todo o extenso contexto mitológico (que tentei resumir ao máximo possível) tem como finalidade traçar um paralelo com os três programas semanais da WWE. Após um insight no meio da madrugada percebi como as características de cada uma das três atuais marcas da maior companhia de wrestling do mundo se assemelha muito com as três deusas que cobiçaram o título de mais bela. Longe de mim querer me comparar a uma deusa (estou mais para Laocoonte, porém isso fica para um outro texto) mas, assim como Éris, jogo o pomo da discórdia.
Hera poderia muito bem ser representada por um manto vermelho, dada à sua personalidade e história. Defensora do tradicional, vê-se uma deusa convencional que não aceita qualquer tipo de traição e esteve disposta a enfrentar até mesmo o seu esposo e irmão Zeus por isso. A meu ver o RAW é exatamente isso aos olhos da WWE, o programa mais convencional, o que fielmente representa toda a tradição da empresa desde os anos 90 e que, se um dia a companhia acabasse (não vai), seria ela a dar o último suspiro. Das três marcas, ela é a menos invencionista e tem total razão de não ser, viveu sempre a longo prazo.
Atena provavelmente teria uma armadura azulada, por tudo o que construiu em torno de seu nome. Virgem, se destacou na mitologia não por quem se uniu e sim pelo o que fez por conta própria, praticamente imbatível na arte da guerra por conta de suas estratégias (chegou a superar por duas vezes Ares, o deus da guerra). SmackDown por diversas vezes demonstrou sua inteligência em conduzir o wrestling, seja nas sextas, terças ou até mesmo quintas-feiras.
Mas o foco do texto será em uma Afrodite que veste uma túnica amarela e um cinto dourado, aquela que para obter a conquista de ser a mais bela ocasionou um dos maiores, se não o maior, conflito da mitologia grega. Por conta dela que Páris deixou sua amada Oenone para ir atrás de Helena que já era casada com o rei de Esparta, Menelau, e assim ocasionar o princípio da derrocada de Troia. É sobre o encantamento de todos com a beleza do NXT sem perceber tamanha vaidade que eu faço a presente crítica.
Antes de mais nada, há que se considerar que a versão atual do NXT (esqueçam por um momento o período de reality show falso) já completou 7 anos, então se quiser refutar qualquer argumento adiante não use o fato de ser novidade, é mentira. O programa já criou sua identidade, tem um público fiel e finalmente resolveu almejar objetivos maiores devido à pressão da mera existência da AEW na TV norte-americana. Também não pense que a terceira maior marca atual da WWE é de todo ruim, concordo com alguns pontos porém neste instante pretendo discutir sobre os equívocos e não ficar glorificando os acertos, em sua maioria comuns.
Pra começar, questiono se realmente deveríamos denominar o NXT como um território de desenvolvimento. Obviamente a WWE revela e aprimora nomes importantes para o futuro da companhia, Velveteen Dream pode ser o maior acerto da década, contudo, casos como o dele são exceções. Se considerar os últimos grandes nomes que tiveram passagem nos programas da quarta-feira, a maioria deles já tinha ampla reputação no meio e habilidade fora do padrão, evoluindo muito pouco ou nada enquanto estiveram no segundo escalão. Shinsuke Nakamura, Eric Young, Kevin Owens, Sami Zayn, Samoa Joe, Ricochet, EC3… enfim, poderia fazer uma extensa lista por aqui e incluir o retrocesso de Tyler Breeze, Fandango e Finn Bálor (31, 38 e 38 anos respectivamente) voltando um degrau. Com o olhar de hoje para o passado recente do wrestling denota-se que o objetivo sempre foi de acabar com o cenário independente pela raiz, limitando cada vez mais a possibilidade de empresas de fora criarem heróis locais. Quando minguaram as companhias americanas (ROH é a bola da vez, infelizmente) e o Reino Unido triunfava no pro wrestling, veio o NXT UK e dizimou a concorrência europeia. Das sobreviventes, boa parte delas vive de parcerias na esperança de trazer de volta quem os deixou para seguir o rumo de prosperar em breve no RAW ou SmackDown. Recentemente até fizeram uma investida com o “NXT Japão”, sem êxito (amém).
O segundo ponto é a falta de aproveitamento com o plantel estrelado que possui. Me intriga ver que tal crítica sempre é feita com Vince McMahon e sua atrapalhada equipe criativa do RAW e SmackDown (com total razão, que fique claro) porém nunca quando se trata do “quintal” de Paul Levesque. Assim como os últimos anos do elenco principal (você lembra o último PPV que o main event foi uma luta masculina sem envolver um ex-Shield ou Brock Lesnar?), os eventos mais importantes do lado amarelo, NXT TakeOver, sempre fecha com a mesma “meia dúzia de três ou quatro”. Parece até que os vícios de Vince invariavelmente afetam aos seus mais próximos.
Tendo em vista a menção feita ao mentor do projeto (não confundir com a persona Triple H, embora tenham suas semelhanças), não vejo termos o suficiente para descrever o quão bizarro considero essa adoração geral ao marido de Stephanie McMahon. Parafraseando um provérbio popular: “aos amigos tudo, aos inimigos o 205 Live”. Tenho diversos motivos para não concordar com tamanha exultação do seu trabalho, o principal deles é a dificuldade em dar espaço e destacar quem não seja seu semelhante. Por vezes o fator visual até ajuda a perceber quando estamos diante de um clone do The Game (Pete Dunne, Adam Cole, Rhea Ripley, etc), mas a análise vai além da estética. O programa de estimação virou um celeiro de wrestlers de sangue frio, cerebrais e impiedosos, assim como foi por boa parte da carreira do maior nome do D-Generation X. E quando se trata de wrestlers com outros estilos, que em condições normais teriam oportunidades em qualquer lugar do mundo? Saíram pela porta dos fundos. Austin Aries e Enzo Amore não entram na conta (o histórico de desavenças nos bastidores os desfavorecem), todavia temos nomes como Neville e Kenta que perceberam tarde demais o erro que estavam cometendo, Zack Sabre Jr e Kota Ibushi que mal entraram e já deixaram pra trás, o estranho caso da demissão de TJP (se os boatos sobre a tatuagem estiverem corretos chega a ser cômica a situação)… a divisão dos pesos-cruzados nasceu morta e a insistência em separar os wrestlers de peso e estatura inferior só demonstra como não aprenderam nada com as ruínas da WCW.
Por fim, alerto-os da bolha na qual o NXT sempre viveu. Ela estourou a partir do momento em que a programação migra para a televisão e encara um concorrente direto à altura. NXT é um peixe grande que saiu do aquário e agora está em alto mar, diferentemente de quem assina o WWE Network a transmissão não é mais voltada a um nicho específico. Não me aprofundarei no tópico porque este ponto sim é recente, encerro com um questionamento: quando veremos o “E” da WWE aplicado no “N_XT”?
Assim como Zeus alertou Afrodite ao saber que esta se pôs a perigo para salvar o filho Eneias, digo o mesmo para o NXT ao querer dar uma de herói e continuar criando uma expectativa vazia de ser o salvador:
Sua especialidade é o amor e não a guerra.
Mais uma vez obrigado pela oportunidade e liberdade dada pelo “Enfim Tag Team?”, até um próximo devaneio.
O Henrique Aquele
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