A multiplicação da sopa

Grupo de trabalhadores da comunidade põem em funcionamento projeto social há mais de 20 anos

Texto JÚNIOR MELO DA LUZ e VITÓRIA BRITO SANTOS / Foto RENATA CARDOSO

Localizada na Avenida João Corrêa, no bairro Vicentina, em São Leopoldo, a Turma do Sopão prepara comida para cerca de 80 crianças diariamente. Das 7h30 às 17h, enquanto os pais vão trabalhar, elas percorrem os ambientes da instituição. São quatro turmas de Educação Infantil orientadas por 16 professores pagos pela rede municipal de ensino. Com idades que variam entre 2 e 5 anos e 11 meses, os alunos permanecem no espaço em turno integral, recebendo ali educação, entretenimento e refeições. Depois que saem da Turma do Sopão, as crianças atendidas ali já vão direto para a escola, com a bagagem de solidariedade aprendida na convivência com a ONG.“É muito gratificante trabalhar nesse projeto. Para mim, é um desafio muito gostoso, tudo tem mais valor. As crianças tornam o que é simples em algo mágico. Aqui, a educação e o carinho fazem milagre”, diz Andréa Corrêa, 32 anos, professora no projeto.

O terreno que hoje abriga os prédios foi conquistado em 2005. Pelos próximos 20 anos, segundo uma concordata feita entre o grupo e a gestão municipal, a área é de posse da Associação. A perspectiva de futuro mais esperançoso para as crianças foi o que encantou Marla Geovana Miranda de Almeida, 48 anos, diretora pedagógica da instituição. “Sempre tinha trabalhado em escolas particulares. A ideologia daqui mudou minha percepção de educação. No Sopão, a proposta pedagógica é tão eficiente quanto em outras escolas. Além disso, o envolvimento com a comunidade é bastante intenso e os familiares recebem apoio também”, explica a pedagoga.

Ao entrar na sede da Turma do Sopão, observa-se um grande salão. Ao lado direito, enxergam-se três salas: o consultório da pediatra que cuida da saúde dos pequenos, a despensa ou sala de “gostosuras”, onde todos os alimentos guardados recebem uma etiqueta após conferência de uma nutricionista, e a sala da presidente da associação, Eliane Lopes Pereira, 42 anos. Ela relata que “o Sopão é mais visto como uma comunidade do que um lugar de trabalho, porque existe um vínculo e um apego entre todos. Aqui estou com minha família, é meu segundo lar desde 1994”, diz a presidente. O local acolhe ainda alguns moradores de rua. Cerca de 10 pessoas sem casa recebem café da manhã e almoço na sede da ONG.

O projeto que surgiu na Vila Duque foi deslocado para o Vicentina em função das obras do trem Primeiro, por auxílio de uma instituição de trabalhadores voluntários, as sopas começaram a ser feitas de 15 em 15 dias para a população carente. Depois, para que o trabalho em prol das crianças tivesse continuidade, buscaram novas formas de conseguir recursos materiais e financeiros. Mas não apenas a infância é valorizada no trabalho do grupo, agora chamado oficialmente de Associação Turma do Sopão. Em função da burocracia para conseguir financiamento para as atividades, o vínculo com uma casa Espírita foi desfeito. Assim, conseguiram registrar a ONG e manter os trabalhos, que contam também coma recicladora ACEL, um brechó e a Escola de Educação Infantil “Segundo Lar”.

RECICLANDO MATERIAIS PARA NOVOS INVESTIMENTOS

Na Turma do Sopão, tudo vira fonte de renda para ajudar as crianças. Nesses 22 anos de existência, a Associação se mantém, além das doações de grandes empresários, de uma reciclagem que funciona no pavilhão ao lado do prédio principal. À primeira vista, o local parece uma bagunça. Uma mistura de móveis usados, eletrodomésticos, garrafas, papéis e tudo que atualmente é possível reciclar. Já na entrada do depósito, temos um mosaico de tábuas e janelas coloridas oriundas do início da construção do prédio com material doado pela antiga Companhia de Energia Elétrica (CEE). Ao adentrar no segundo pavilhão, onde estão as prensas e os fardos de material reciclado já prontos para a entrega, as pessoas se deparam com um container lotado de sucata, doado por grandes indústrias, e pilhas de equipamentos eletrônicos, uma diversidade de “quinquilharias” que ajudam a dar vida ao projeto.

Seis pessoas são responsáveis por este trabalho. A ONG produz, em média, cinco toneladas de material reciclado por semana. Segundo Elio Pereira, 43 anos, coordenador do projeto, “é um volume pequeno se comparado com grandes recicladoras. Por este motivo, vendemos o que produzimos para outras empresas”, explica. Uma recicladora de médio porte produz cerca de 20 toneladas de material no mesmo período. O valor dos fardos depende muito já que alguns produtos são muito baratos. Mesmo produzindo pouca quantidade, ela foi suficiente para comprar dois caminhões, que são utilizados no recolhimento das doações de materiais. O valor proveniente da reciclagem também é utilizado para o pagamento dos funcionários e do motorista.

A ONG também possui um lugar destinado ao recebimento de roupas doadas às crianças e seus familiares. As peças são “restauradas” por uma funcionária contratada pela Associação, que cuida do que eles chamam de “rouparia”. O que não é destinado às crianças, é comercializado. “Vendemos as peças por um valor simbólico, que pode ser de 10 a 50 centavos”, conta o coordenador do projeto. O objetivo, além de arrecadar fundos, é fazer com que as pessoas deem valor para as roupas. “Até um tempo atrás, fazíamos doação, mas as pessoas vinham e levavam sacos com muitos itens, que encontrávamos no dia seguinte atiradas na beira da estrada”, lembra responsável.

Crianças precisam de roupas, alimento, carinho e diversão. Os brinquedos da Turma do Sopão vêm de doações. Um dos colaboradores é a Receita Federal, que destina uma parte das mercadorias apreendidas para a Instituição. “A ONG fez o cadastro com a Receita para receber os brinquedos que podem ser aproveitados pelas crianças. As mercadorias que, de alguma forma, são consideradas prejudiciais para a saúde dos pequenos já são enviadas destruídas, então utilizamos na reciclagem”, conta Elio.

Entidades sem fins lucrativos podem fazer a solicitação de doação através do preenchimento de formulário disponível no site da Receita Federal (www.receita.fazenda.gov. br). É possível solicitar bens que possam ser utilizados ou consumidos pela entidade, em quantidades e tipos compatíveis com a sua necessidade ou com o público alvo ao qual se propõe a prestar assistência.

UM CARA SOLIDÁRIO

Trabalhando no projeto desde que teve início, Elio Pereira lembra da trajetória do Sopão. “Fazemos tudo com muito carinho e dedicação”, diz ele. Mas nem só de carinho sobrevive uma ONG. Uma das razões para o projeto dar certo é o desprendimento de quem trabalha no local. Eletricista de profissão, Elio começou o trabalho na instituição ainda antes dos 25 anos de idade. Hoje, aos 43, tem consciência de que muitas coisas foram colocadas de lado em prol do bem comum. Casado e pai de quatro filhos, mora no pátio da instituição para cuidar do local e divide o seu tempo entre os compromissos familiares e a coordenação da Associação e da reciclagem. “Sou o mais velho do grupo, em termos de tempo de serviço”, revela.