Das bonecas às fraldas: os desafios da gravidez precoce

Adolescentes do bairro Vicentina contam suas histórias de vida e expectativas para o futuro

Gabriela se diz muito feliz com a chegada de Vinícius, apesar do medo em não conseguir cuidar do recém-nascido sozinha . Texto MICHELLE OLIVEIRA / Fotos ELLEN RENNER

Era uma vez uma bela princesa que vivia em um reino distante. A vida dela e de sua família, porém, nunca foi das mais fáceis. Eles sempre tiveram que driblar dificuldades financeiras em busca de um futuro melhor. O nome dela é Luana Daniele Santos de Souza, tem 14 anos e é moradora do bairro Vicentina.

Filha mais velha da família, a princesa divide seu lar com mais quatro irmãos pequenos, o que sempre impediu sua mãe de trabalhar fora. Mas sua vida mudou realmente quando ela descobriu que estava à espera de seu primeiro filho.

Grávida de 7 meses, Luana conta que planejava engravidar, mas que sabia que ainda não era o momento certo. Assim que soube da gestação, Lucas, 25 anos, seu namorado desde 2014, coincidentemente, perdeu seu emprego em um ferro velho do bairro.

Luana e o namorado decidiram morar juntos após a descoberta da gravidez e a menina comenta que suas dificuldades financeiras os deixam receosos. “Antes da gravidez, a gente até tinha um dinheirinho, mas parece que quando engravidei tudo ficou ruim do nada”, explica ela.

“Agora, meu namorado precisa catar lixo com o meu avô e como tô grávida não consigo trabalhar. O lixo é nossa única renda. Minha família nos ajuda, mas é difícil para eles também”, lamenta.

Alexandra Souza Santos, 32 anos, mãe de Luana, se mostra muito desapontada com a gravidez da filha. “Achei que, com ela vendo as dificuldades que nós passamos aqui, entenderia que deveria se prevenir. Eu tenho muito medo pelo futuro desse bebê”, desabafa.

Ela acrescenta, ainda, que costumava levar a menina no posto de saúde para tomar injeção contraceptiva. “No início ela ia tranquilamente, mas desde que começou a namorar este rapaz, começou a enrolar para ir. E, desde então, não tomou mais nada”, explica a futura avó.

A mãe de Luana também lembra que a filha já queria ser mãe desde muito cedo. “Desde os 12 anos ela já inventava gravidez psicológica e falava para todo mundo. Fui até chamada na escola por conta disso”, diz Alexandra.

Após a descoberta da gravidez, Luana e o namorado decidiram morar juntos em uma pacata casinha próxima à família dela. Quando questionada sobre o enxoval do bebê, Luana responde triste. “Eu não ganhei quase nada. Não tenho berço e quase nada de roupinhas. Também ainda não sei o sexo do bebê. Ele está de costas”, revela.

Apesar de não ter usado nenhum tipo de prevenção contra a gravidez, Luana tem feito o pré-natal corretamente. Quando questionada sobre o futuro, se perde na resposta.

“Eu não sei dizer como vai ser daqui pra frente e quando o neném nascer. Eu e meu namorado não terminamos o Ensino Fundamental, ele tem mais um filho que mora conosco e nós sabemos que não é e não vai ser fácil conseguir emprego. O que precisamos agora é fazer o nosso melhor todo dia para criarmos nosso filho do melhor jeito possível”, encerra ela.

As precárias condições financeiras da família dão à Luana e sua mãe muito receio sobre o futuro do bebê.

MATERNIDADE SURPRESA

No Bairro Vicentina também moram outras jovens princesas, mas com uma realidade mais dura do que a dos contos de fada. Gabriela Matos da Trindade, de 15 anos, está grávida de quatro meses. A menina está à espera de Vinícius Cauã.

Nossa segunda princesa namorava há dois meses quando descobriu a gestação. Apesar da surpresa, Gabriela diz estar muito feliz com a espera. “Posso dizer que estou bem. Eu e meu namorado viemos morar juntos, já tenho muitas roupinhas pro meu bebê, ganhei até berço”, conta ela.

Porém, assim como Luana, Gabriela também passa por grandes dificuldades financeiras. “Quando engravidei, meu namorado perdeu o emprego. Ele trabalhava em um posto de reciclagem e agora nossa única renda é o seguro desemprego”, explica.

Gabriela torce para que o companheiro consiga um novo emprego logo. A menina revela, também, que nunca usou nenhum método contraceptivo e que tem muito medo do que o futuro lhe reserva.

“Eu não tenho certeza de que vou saber cuidar desse bebê sozinha. Minha mãe mora na Vila Duque e minha irmã de 14 anos logo vai ganhar neném também. Ela não vai poder me ajudar como eu gostaria”, afirma.

SER MÃE JOVEM NO BRASIL

Os anseios são comuns entre as jovens futuras mães, princesas que já carregam sobre as costas o peso da responsabilidade por um novo ser. No Brasil, os números são expressivos.

Segundo levantamento do Movimento Todos Pela Educação, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, mais de 309 mil mães adolescentes estão fora da escola. A Pnad mostrou que o Brasil tinha 5,2 milhões de meninas de 15 a 17 anos. Dessas, 414.105 tinham pelo menos um filho.

Neste grupo, apenas 104.731 estudam. As outras 309.374 estão fora da escola. O índice de gravidez na adolescência diminuiu ao longo dos anos no Brasil e, em contradição, subiu 14 posições, em 20 anos, na lista de 213 países com fecundidade precoce.

Hoje, o país está na 49º colocação: são 70 a cada mil meninas entre 15 e 19 anos que deram à luz em 2013, de acordo com a última pesquisa do Banco Mundial. Acima do Brasil, encontram-se, principalmente, países africanos que têm uma cultura permissível ao casamento infantil.

O Níger, por exemplo, adota essa tradição e 71% das mulheres se casam antes dos 18 anos. Ele se encontra no topo da lista, com 205 meninas a cada mil de 15 a 19 anos que são mães.

MAS E A PREVENÇÃO?

Não se pode ignorar que a experiência de engravidar, ser mãe e criar filhos é única. O não uso de métodos contraceptivos nem sempre significa que as adolescentes não têm conhecimento de sua existência. Conhecê-los e ter habilidades no seu uso são duas coisas distintas.

Na maioria das vezes, as meninas têm um pensamento mágico de que a gravidez não acontece com ela, de que transar sem camisinha é prova de amor, de confiança no parceiro e de que o uso de pílulas implicaria no conhecimento dos pais sobre sua vida sexual ativa. Mas nem toda gravidez é um conto de fadas.

Atualmente, há diversos métodos contraceptivos à disposição: pílula anticoncepcional, dispositivo intrauterino, contracepção hormonal injetável e camisinha masculina e feminina são apenas alguns. Por isso, é importante se informar e, se necessário, buscar orientação adicional em qualquer posto de saúde sobre métodos preventivos.