Dos dedos à sobrevivência

Com tinta, óleo, verniz, azulejo e as próprias mãos, morador une trabalho e lazer em atividade artística

Texto KARINE KLEIN

Pelo estreito corredor que separa a peça nos fundos do armazém da frente, ele vem caminhando. De camiseta e bermuda, empurra uma bicicleta branca. Está de saída. Aquela será mais uma manhã de trabalho. O suor no rosto não nega, está sempre em busca do seu sustento. As mãos, apesar de estarem limpas, guardam nas unhas resquícios de tinta de tempos atrás.

Paulo Roberto Humbert Martins, 46 anos, é um artista de rua que faz pintura a dedo em azulejos. Na verdade, ele explica que pode utilizar qualquer superfície em que a tinta consiga aderir, como PvC, MdF, vidro e em partes lisas, onde possa “cortar” a tinta com a mão.

Morador do bairro Vicentina há cerca de três anos, Paulo é natural de Porto Alegre, mas assim como muitos dos artistas de rua, não cria raízes. Já esteve na Bahia, em Pernambuco, no rio de Janeiro, em Santa Catarina, São Paulo, e em várias outras cidades, levando seu estilo livre de ganhar a vida.

Ele está inserido em um contexto divulgado em 2012 pela SPTuris, empresa de turismo e eventos de São Paulo, que diz que do total de manifestações artísticas na rua, 7% são relacionadas às artes plásticas, com destaque para pintura em azulejo.

Seu material de trabalho é basicamente tinta a óleo e verniz para fixação. tão simples como a matéria prima, é seu método. Ali mesmo, entre as irregularidades da calçada, ele senta-se no chão, abre sua mochila e comprova de onde vem seu sustento. “É arte popular mesmo. A riqueza está na simplicidade”, confirma o artista. Para lá e para cá, seus dedos coloridos dançam sobre o azulejo, numa precisão de surpreender. Vai surgindo uma paisagem.

De dentro do armazém aparece Eroci Severo Pereira, 66 anos, exibindo com orgulho um quadro de 40x40cm com outra paisagem — que dificilmente alguém diria que foi feita à beira do meio fio, sem pincéis e sem desenho, apenas com dedos e tintas — e com a inscrição de um nome: “Tunico”. Há dois anos Paulo Humbert mora nos fundos, em uma peça que Eroci aluga atrás do armazém e da lojinha de roupas, na rua Maria Fidélis, 192. “Este foi presente para o meu marido, nós guardamos com muito carinho”, conta a locatária.

Eroci vive há 34 anos no bairro e conta que tem confiança em Paulo. “Pra nós é uma pessoa boa, paga o aluguel direitinho. Às vezes peço pra ele pagar alguma conta pra mim e ele vai”.

Sobre a arte que o inquilino faz, ela fala com admiração: “acho muito fantástico ter um dom desses, eu nem com a caneta consigo fazer… assim ele ganha os troquinhos dele pra se alimentar”, diz a senhora.

Cada vez que não vende uma peça, quando a tinta ainda está fresca, o artista desmancha a obra e reaproveita o material. “Porque se levar uma peça pronta e dizer: — ‘olha o que eu faço com as mãos’, o pessoal não acredita”.

A pintura foi uma saída que Paulo encontrou para sobreviver, e sobre o preço de seu trabalho ele afirma, “depende do tamanho da peça e da necessidade do artista. Se o artista tá com fome e não tem dinheiro, ele troca por um prato de comida. ele não vende.” E reforça: “independente de crise, o trabalho vende porque o povo gosta”.

A arte popular entrou na vida de Paulo através de uma necessidade. Ele começou a trabalhar aos 14 anos, passou por vários empregos formais e, durante alguns anos, trabalhou como representante de material didático e apostilas para concurso público. Foi quando começou a colocar outras pessoas para trabalhar com ele. Porém, algumas delas, venderam e nunca lhe pagaram pelo material comercializado. “Eu entrei num desespero, não tinha o que fazer. Fiquei dentro do hotel em Pelotas. Comia um pastel e uma taça de café às 10h da manhã e um pastel e uma taça de café às cinco da tarde. Durante uns três meses da minha vida eu fiquei assim, comendo fiado porque eu não tinha grana e o cara do hotel disse pra eu não me preocupar que ele não ia me botar pra rua, porque ele sabia da minha capacidade”, lembra.

Enquanto driblava as adversidades, passou a vender produtos de camelô que comprava e colocava porcentagem em cima. Foi quando chegou a Chapecó, Santa Catarina, e conheceu aquele que lhe levaria para o caminho das artes, Frank Júnior.

Paulo conheceu Frank quando se hospedou na pensão dele na cidade catarinense. Foi ele que lhe disse para tentar a pintura em azulejo. Numa tarde de domingo, em que a família de Frank estava reunida, ele mostrou a Paulo como havia visto um homem fazer as pinturas. Então o artista pegou duas tintas e um pedaço de azulejo e fez sua primeira obra. A partir daí, não parou mais.

“Eu tinha uns 30 anos. Aí, na primeira atividade que eu desenvolvi, o pessoal me perguntou se eu já fazia o trabalho, e então eu disse: ‘Não, é a primeira vez’. ‘ Tá, mas já fez melhor que o Frank’, responderam. O Frank brincava de fazer aquilo, e me motivou, me incentivou. Eu continuei andando pela cidade, vendendo o material”, explica.

Às vezes não vendia nenhuma peça, apenas mostrava seu trabalho. “Então eu trocava por alimentação, por uma peça de roupa pra sobreviver, pra me manter”, lembra.

Paulo conta que quando completou 40 anos conheceu sua neta. “Daí eu disse, ‘eu tenho que largar essa vida de rua’, porque na rua a gente é muito discriminado, a gente sofre, a gente é taxado como vagabundo porque tu tá na informalidade”. Então, voltou a estudar.

Como já tinha ensino médio concluído, foi fazer cursos do Pronatec — Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego. Formou-se instalador eletricista predial de baixa tensão, também concluiu os cursos de Nr-10, que é a norma regulamentadora emitida pelo Ministério do Trabalho para garantir a segurança dos trabalhadores em serviços de instalações elétricas; Nr-35, que garante a segurança de trabalhos que envolvem altura, aplicação de revestimento de Placa de Cerâmica, e, em seguida, aperfeiçoamento dessa aplicação para trabalhar com fino acabamento e alto padrão de qualidade. Paulo também cursou Competências transversais em Legislação trabalhista, e o último curso que fez foi de técnico em Segurança do trabalho, no Complexo Cetemp, em São Leopoldo. Porém, mesmo depois de tantas qualificações, o artista não consegue um estágio na área. “Tô precisando pra eu poder pegar meu certificado”. e confessa, olhando alguns metros à frente para sua vizinha de rua, “meu sonho é trabalhar na Gedore”.

Mesmo tendo uma vida marcada por trabalho e pela busca por qualificação, com diversos cursos concluídos e um histórico de empregos formais, Paulo Humbert sobrevive da informalidade. Mais um entre tantos que, com criatividade, tira seu sustento das beiras das calçadas, explorando o destino que lhe fora dado: a arte como forma de ganhar a vida.