Mulheres Marcadas

A agressão doméstica é uma realidade no bairro Vicentina

Texto SABRINA STIELER / Foto CAROLINA TEIXEIRA LIMA

Conte até 15. Esse é o tempo que leva para uma mulher sofrer violência no Brasil. Em São Leopoldo, a cada dia, aproximadamente, cinco mulheres são agredidas pelo seu parceiro. Os números são maiores, porém o medo e a insegurança, muitas vezes, não deixam o pedido de ajuda sair da garganta.

Esses dados que podem ser confirmados no Observatório da realidade e das Políticas Públicas do Vale do Rio dos Sinos — ObservaSinos não são diferentes no bairro Vicentina. Basta alguns minutos de conversa para que as moradoras comecem a contar sobre os casos de agressão que presenciam na vizinhança. “O que mais tem aqui é mulher que apanha de marido”, revela uma das residentes da área, com pouca esperança de que essa situação mude. As histórias assustam pelo nível de agressividade. São casos de mulheres e, às vezes, até de meninas menores de idade, que recebem de seus companheiros, no lugar de carinho e afeto,tapas, socos e pontapés.

FEMINICÍDIO

Infelizmente, alguns casos de violência contra à mulher chegam ao extremo, e muitas perdem a vida nas mãos de seus companheiros. No Brasil, a cada duas horas uma mulher é morta, a maioria assassinada dentro de casa, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). Em São Leopoldo, ano passado, foram registrados três feminicídos, é como são chamados os homicídios de pessoas do sexo feminino.Em 2012, o Vicentina foi cenário de um desses crimes brutais. João, de 35 anos (usamos aqui nomes falsos para expor o problema, e não vidas), já tinha no seu histórico casos de agressão contra a esposa Maria. Em uma das surras, ela garantiu uma medida protetiva, prevista na Lei Maria da Penha, que garante distância do agressor. O casal ainda se separou e se reconciliou várias vezes, até que um dia, João, movido pelo ciúmes, atingiu Maria com duas facadas, depois de ter a espancado. A filha do casal, Ana, na época com 9 anos, presenciou a briga e tentou buscar ajuda, em vão. Maria, que tinha 32 anos, não resistiu e morreu no hospital. O caso foi julgado e João foi condenado, mas a mãe de Ana não voltou mais para casa.

CULTURA MACHISTA

“Ela gosta de apanhar”. Muitas pessoas utilizam essa frase para justificar a permanência das mulheres nas situações de agressão doméstica. Para a professora, doutora em psicologia social da Unisinos, Marília Verrissimo Veronese, essa postura é resultado dos costumes que vivemos. “Não existe mulher que gosta de apanhar. Isso é fruto da cultura machista e patriarcal que ainda predomina na sociedade. A mulher acaba absorvendo e reproduzindo essa postura”, explica a professora sobre a cultura onde o homem é colocado em uma posição de dominação e superioridade sobre a mulher. Marília esclarece que são vários os motivos que levam as vítimas a continuarem em relações violentas. “Há dependências psicossociais, onde a mulher ameaçada tem medo de sair de casa e ser morta pelo companheiro; dependência econômica, onde ela não tem opção de moradia e de sustento e a cultural, onde ela usa a negação como mecanismo de defesa”. Além disso, Marília adverte que em muitos casos a vítima acredita nas promessas do agressor. “O homem faz juras, pede desculpas e diz que não vai mais acontecer, a mulher acredita e perdoa. Esse jogo vira um ciclo, onde passam um tempo em ‘luade-mel’, mas as agressões voltam”. A solução segundo a profissional é o empoderamento das mulheres, através de redes de proteção, grupos e coletivos.

Maria Claudete Souza Coelho, 47 anos, mediadora de conflitos e integrante da ONG Casa da Rose, que atua no bairro desde 2011, confirma que na maioria dos casos o pedido de apoio vem daquelas que sofrem com a pressão psicológica. “A mulher não chega aqui roxa, depois de apanhar, mas com o sofrimento da violência do dia a dia”. Claudete explica que a instituição realiza trabalhos com crianças e, com isso, a mãe também se aproxima e acaba expondo seus problemas. “Como a gente é da comunidade, as pessoas se sentem mais à vontade, encorajadas para tentar uma fala. Nós fazemos um primeiro acolhimento e tentamos ajudar”. A instituição ainda realiza cursos em parcerias com outras entidades para as mães das crianças. “Elas se sentem valorizadas, dá uma guinada na vida delas. A maioria é dona de casa e busca algum trabalho ou atividade depois de participar dos cursos”, afirma Claudete sobre as mudanças depois da aproximação das mulheres com as atividades da ONG.

VIDA NOVA

Com voz confiante, batom nos lábios e sorriso no rosto Lídia apareceu animada no portão de sua casa. Atrás de toda confiança, demostrada em sua fala e em sua postura, está uma história de violência, drogas e resistência.

Ela tem 42 anos, mas aparenta ter bem menos idade.Mãe de três filhos e desempregada,sofreu nas mãos de seu ex-namorado. Ela não nega o gosto que tinha pela bebida e pela noite. “Sempre bebi, tomei minha cerveja, e como estava na noite, conheci um rapaz que usava drogas e eu comecei a usar junto”. Não demorou muito para ela perceber que o namorado ficava agressivo quando se negava aacompanhá-lo no uso dos entorpecentes. Depois de três meses de namoro, já trocando o dia pela noite, veio a má surpresa. “Para mim foi um susto, ele nunca havia me agredido, nem verbalmente, mas naquele dia ele me deu três socos na cabeça. Era lutador de jiu-jitsu e sabia bater onde não ficava marca”, lamenta Lídia sobre sua primeira surra e pelo fato de ter perdoado a atitude.

As agressões e saídas noturnas continuaram. Até que a jovem percebeu seu distanciamento da família e resolveu parar de se drogar, entretanto, sem evitar que seu namorado continuasse a usar drogas, até mesmo escondido dentro de sua casa. Ela resolveu dar um basta quando foi espancada por ele dentro de um motel. “Da última vez que ele me bateu deixou marca, deu um soco na minha boca. Eu não estava mais usando drogas. Estávamos em um motel e chamei a polícia”. Desta vez, Lídia teve coragem de pedir ajuda, mas as marcas ficaram. “Ele me judiou muito. A gente fica moralmente abalada, perde a autoestima, pois é teu parceiro. Nem meu pai me batia.”

Hoje Lídia está limpa das drogas e tem um novo companheiro. Ela fala com carinho dos que lhe estenderam a mão quando precisou, como a sua família, a Casa da Rose e o Centro Jacobina,que atende mulheres que sofrem violência, no centro de São Leopoldo. Uma medida preventiva lhe dá a segurança que o homem que a agrediu não lhe encostará mais. Porém, o receio permanece. “Ele ainda passa na frente da minha casa. Tenho medo, não saio à noite sozinha”. Com esperança e sentimento de superação, a moradora do Vicentina acredita que a mudança deve começar por nós mesmos. “Se a gente não se cuidar, ninguém vai. Primeiro a gente tem que querer o nosso bem”.