Uma fazenda no asfalto

Desde pequeno, Alemão gosta da lida com os bichos. A experiência é compartilhada de geração em geração

Texto JACSON DANTAS / Foto CASSIANO CARDOSO

“Ea-ea-ea-ea-ea-ea”, brada um senhor grisalho com barba por fazer, medindo aproximadamente 1,70m, enfática e repetidamente. Como que ao momento em que um filho ouve a voz de seu pai e olha rapidamente para encontrá-lo, um rebanho de ovinos levanta a cabeça para identificar a direção do sonido, fazendo jus ao ditado: “a ovelha conhece a voz do seu pastor”. Compreendendo o chamado, por sobre o pasto molhado, afinal há dois dias cai uma grande quantidade de chuva, o grupo de ovelhas da raça Santa Inês se dirige, organizadamente, em fila indiana, ao estábulo.

Sabendo exatamente onde se posicionar, ansiosas, aguardam o alimento, que é distribuído em seguida por quem as chamou, o senhor Régis Eliandro Machado, 50 anos. O som, que se ouvia ao longe, não precisa mais ser entoado. A comunicação entre o pastor e suas ovelhas já foi realizada com sucesso. Agora, além do mastigar do rebanho, só se ouve o cacarejar de cerca de 20 galinhas,o piu dos mais de 30 pintinhos, o cantar de dois galos, além do relinchar do Gato. Não, este não é o felino que algumas pessoas gostam de ter em casa. É o nome do cavalo crioulo, de 15 anos, que está solitário no campo.

O tempo está fechado e uma fina garoa começa a cair, sinal de que mais um dia de chuva se aproxima. A cena composta, além do clima úmido, por um céu cinzento e um vento frio, nos dá a impressão de estarmos na fazenda daquele tio do interior e a tarde de sábado será regada com muitos bolinhos de chuva, pão caseiro com melado, chimarrão e muitos causos (só quem nasceu “pra fora” ou tem parentes que moram longe da cidade grande, sabem disso).

Entretanto,não nos encontramos em uma pequena cidade do interior gaúcho.Estamos no bairro Vicentina, em São Leopoldo. Mais precisamente entre a Avenida Thomas Edson e a Rua Manuel dos Passos Figuerôa, a uma quadra da sede da empresa Ferramentas Gedore. Um terreno, medindo cerca de um hectare, se destaca entre as casas de alvenaria, as ruas de asfalto ou paralelepípedo, o movimento dos carros e a vida cotidiana da cidade grande. Na área, cedida por um tio, Régis, mais conhecido na comunidade por Alemão, cria animais há cerca de 20 anos. Para manter a criação, são gastos em torno de R$ 200 por mês em alimento (milho, quirela, alfafa e farelo de soja), fora o valor com vermicida. Filho do seu Enor e da Dona Maria, uma das primeiras famílias a chegar no Vicentina, ele cultiva este gosto desde muito cedo. Aos 10 anos ganhou seu primeiro cavalo do pai e, a partir de então, não parou mais.“Fui criado na lida. O pai tinha bicho também. Meu tio criava gado, tinha tambo de leite (estábulo para ordenha de vacas) aqui no bairro”, recorda.

Machado, que é motorista de caminhão tanque há aproximadamente três décadas, se divide entre o emprego e a lida do campo diariamente. Acorda por volta das 4h30 para trabalhar e retorna somente no final da tarde para casa. Mesmo assim, encontra tempo para cuidar da sua “fazenda”, da esposa Janete Machado, 51 anos, com quem está casado há 25 anos, e do filho Guilherme, 16 anos, que está seguindo os passos do pai. “Envolve muito tempo isso aqui. Você deixa de ficar em casa, de ficar com a família, de passear, mas quando gosta não adianta”, comenta.

Alemão não reside no mesmo espaço em que cria os animais. Por este motivo e pelo fato do tempo que o trabalho de motorista exige, conta com a ajuda de familiares para a lida diária no campo. Com a aposentadoria chegando, tanto para Machado como para Janete, o objetivo do casal é sossegar um pouco. Alemão quer comprar uma chácara, sua esposa, uma casa na praia. “A gente se aceitou assim, cada um fazendo o que gosta por isto que dá certo”, finaliza Janete com a receita para um casamento feliz e duradouro.

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