Qual o lugar da psicanálise?

Escrevi, há bastante tempo, algumas linhas em minha página “Psicanalista Arthur Engel” sobre como a psicanálise se diferenciava das diversas áreas de conhecimento. Escrevi inspirado numa citação de Lacan, onde, falando sobre seu ensino, ele nos diz que a psicanálise se tornou um assunto fechado, ponto pacífico, algo definido e etiquetado, colocado numa caixinha, numa gaveta. Para todos, menos para os psicanalistas.

Os psicanalistas sabem que a psicanálise não se encaixa nesse lugar. Não é uma área de conhecimento como as outras, que podem ser definidas num artigo da wikipedia, e pronto: assunto resolvido. “Próximo!”

A psicanálise vai muito além disso. E, embora muita gente de fora do meio tenha tentado (e ainda tentam) definir o que é a psicanálise, colocá-la numa gaveta… ela não encaixa. E isso deixa algumas pessoas (ou alguns setores da sociedade) bastante incomodados. Talvez os que tenham chegado mais próximo são os que disseram que ela tenta desvelar algo.

Ela não tenta entender o que se passa. Talvez Freud tenha tentado, antes de tropeçar na psicanálise. Escrevi “tropeçar” ao invés de “criar” ou “descobrir” porque, ao lermos os textos freudianos, vemos que Freud não parece um autor de uma história, alguém criando um conto. Ele parece mais alguém que, tentando chegar a algum lugar, vai encontrando coisas surpreendentes, como se fossem pistas… mas, seu mapa está em código: cheio de caracteres estranhos, e ele está tentando entender pra onde ir. Às vezes ele acha que deve seguir uma certa pista, mas não dá em nada. Então volta, e tenta outro caminho. Talvez revele algo, talvez não. Mas na medida em que ia conseguindo alguma espécie de confirmação em suas tentativas, em suas hipóteses, ele teve capacidade de, bem aos poucos, ir sedimentando aquilo que se tornaria a psicanálise. Ou seja, na medida em que já estava voando, foi construindo o avião.

Mas, voltando: eu dizia que, no início, antes de 1900 e “A interpretação dos sonhos”, Freud queria entender, ou explicar o que estava acontecendo. O que havia com aquelas histéricas, cuja voz era ignorada pela sociedade, incluindo ainda a sociedade médica? Da onde vinha aquele sofrimento? Freud tentava descobrir, como médico e cientista que era, o que era aquilo, e como melhorar aquela situação, acabar com aquele sofrimento. Aliás, durante boa parte da vida Freud sonhou com o dia em que a psicanálise seria reconhecida como ciência. Ainda durante sua vida percebeu que aquilo que ele acabou “tropeçando”, acabou construindo em pleno voo, era muito mais rico do que isso. E tocava muito mais no cerne, na ferida, do que a ciência, cada vez mais asséptica.

Esse distanciamento da psicanálise das outras áreas (psicologia, filosofia, antropologia, ciência, etc.) ficou ainda mais claro com Lacan (cuja briga com a IPA também passou por essa “padronização” e assepsia da psicanálise praticada na época pela associação). Embora o mesmo se servisse bastante dessas áreas de conhecimento — e Lacan não tinha preconceitos intelectuais, lia de tudo — ele sempre marcava o limite entre essas áreas e a psicanálise, e nunca deixou que ela fosse posta nesse lugar de “conhecimento adquirido, pronto. Próximo!”.

Aliás, os seminários de Lacan são um ótimo exemplo de como a psicanálise não se enquadra nas formas usuais de conhecimento: são diferentes de qualquer forma de ensino tradicional, muitas vezes gera revolta, frustração… aquela estranha forma de se colocar as coisas… mas é justamente isso: não há uma “forma de se colocar as coisas”, que seja didática, siga os padrões de ensino… sem perder a essência disso que não tem nome, não tem forma de descrever, que é do se que trata na psicanálise. E apesar disso, apesar da revolta e frustração, voltamos sempre aos seminários…

A psicanálise trabalha com tudo o que se tornou o “dejeto”, tudo aquilo que a sociedade quer jogar para debaixo do tapete:

- a fala do paciente: cada vez mais sendo substituída por pílulas, que embotam o sujeito, calando seu sintoma, ao invés de fazê-lo falar. Lembremos sempre da frase: “Ao persistirem os médicos, consulte seu sintoma”. Como mencionei acima, a psicanálise surge justamente da fala das histéricas, que era considerada bobagem, coisa sem sentido, invenções, coisa de quem não tem o que fazer, etc.

- o desejo: posto em segundo plano, considerado devaneio, arriscado, “deixa isso pra lá, toma esse remédio que você se sente melhor, a culpa é do seu material genético, isso tem cura”.

- o inconsciente e suas manifestações: considerado bobagens, erros, enganos, sonhos que nada querem dizer, etc.

Tudo o que nos define, o que nos diferencia, o que é mais peculiar e intrínseco, nossas vicissitudes… o que nos faz sujeitos. Sujeitos do desejo. Desejo. É disso que se trata na psicanálise, e ela se tornou, infelizmente, o seu último refúgio. Aliás, pra ser justo, ainda se encontra um pouco disso na arte (mas tem que se procurar, pois a arte também foi contaminada, e despida de desejo em muitos casos).

Talvez por isso a psicanálise dialogue tão bem com ela. Psicanálise e arte, nossos oásis nesse universo cada vez mais asséptico e distópico.