Dos vários volumes de pensamentos noturnos

09/09/18

É quase como se fosse culpa católica: como se meus sonhos, vontades, desejos fossem algum tipo de pecado que só me levariam à ruína.

Mas eu não precisaria morrer para ser punida. O inferno seria aqui: o fracasso, a frustração, a desilusão, a perda do respeito de quem me importa.

É como se qualquer possibilidade de felicidade tivesse que ser combatida, porque toda alegria será punida. Toda vitória será acompanhada de uma queda maior, sempre. A vida não foi feita para ser fácil, para ser boa.

A sensação física é de, literalmente, aperto. Generalizado. Como se tudo dentro de mim estivesse apertado, massacrado pela culpa do que eu ainda nem fiz, do que eu talvez nunca venha a fazer.

É um tipo perigoso de controle, porque, quando surge nele uma brecha, é explosivo. E quando eu me arrisco a fazer algo, sai num rompante. Machuca a mim e a quem estiver na frente.

E aí eu sou imediatista, insistente e o que preciso for para não correr o risco de não deixar de fazer o que quer que escape.

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Uma das coisas que eu gosto sobre o meu quarto é que, sentada na minha cama, eu tenho uma vista da cidade e de onde ela acaba.

Talvez, na verdade, ela não acabe, mas a serra se encarrega de dar essa impressão.

Por mais que eu ame esse lugar que escolhi morar, eu preciso saber que em algum ponto ele acaba; e que existe outra coisa depois.

Por isso, eu odeio lugares planos.

Eles parecem que nunca vão acabar.

Essa cidade que me trouxe realização e conflito: eu gosto da vista noturna dela.

Várias luzes em tons de laranja que minha câmera não consegue captar da mesma forma que meus olhos que se adaptam a essa clara escuridão de cidade grande, que quase nunca nos deixa na sensação de breu completo, como um quarto escuro na fazenda.

Sozinha, acordada à noite, eu me sinto uma testemunha. Da beleza da cidade que dorme. Do som dos latidos dos cachorros e dos poucos carros que passam na rua. Meus cúmplices acordados rondando essa terra meio fantasma.

Eu tenho o sonho de dirigir a noite por uma grande avenida iluminada, um vento frio entrando pela janela.

Naquele momento, eu seria o que eu sinto: sozinha andando com algo que não são minhas pernas por um lugar que não me pertence, mas me acolhe de maneira fria e desconfiada; feliz por ser testemunha do que poucos verão, uma noite excepcionalmente comum; igual a tantas outras, porém única. Um carro desimportante, uma jovem mulher banal.

Liberdade, solidão, tristeza e felicidade.