Não é fácil ser bissexual.

Hoje, dia 28 de junho, é o dia do orgulho LGBT e eu já estava querendo há um bom tempo escrever um texto sobre esse assunto. Na verdade esse texto poderia pra ter sido escrito em 2015, que foi quando eu me descobri bissexual, mas muitas coisas mudaram desde então. É muito necessário falar sobre bissexualidade quando se trata de uma sexualidade que talvez seja a mais incompreendida entre todas. Muitos falam que “deve ser ótimo ser bissexual”, “bissexuais são os mais felizes”, “como eu queria ser bi”, quando na verdade há muitos problemas e muitas camadas a serem analisadas por trás disso tudo. Nunca se foi falado sobre como é de fato a vida de um bissexual, e eu, Enrico, posso falar um pouco sobre tudo o que vivi durante esses anos desde que me descobri assim. Primeiramente é válido ressaltar que eu –assim como muitos outros- não me descobri bi logo de cara. De início me classifiquei hétero, pra depois me considerar gay, até enfim, chegar à conclusão de que sim, sou bissexual. A sociedade nunca foi preparada para discutir sobre a bissexualidade, por isso minha descoberta demorou bastante para ser compreendida. Mas como esse assunto não é debatido, resolvi entrar em alguns tópicos baseados em textos que li e em algumas experiências vividas por mim. Não vou entrar em assuntos que já são bem discutidos de forma geral, como “bissexuais não são indecisos”, “há vários níveis de bissexualidade”, entre outros.

- “A sociedade me aceitaria muito mais se eu me assumisse como bi do que como gay/lésbica, pois eu ainda teria chance de namorar uma pessoa do sexo oposto”. Será mesmo? Será que se você tivesse algum tipo de relação com alguém do sexo oposto, sua família, ou outras pessoas ao seu redor (incluindo até mesmo o meio LGBT), não estariam falando por todos os cantos que você “deixou de ser gay/lésbica”, e que “Deus te curou”? E ainda assim, você provavelmente já teria se relacionado com alguém do mesmo sexo, e as pessoas não iriam se esquecer disso. E não, a sociedade não é mais tolerante com bissexuais. Assim como as outras orientações sexuais, a bissexualidade ainda é vista como uma escolha não só entre o ambiente familiar, mas entre outros tipos de meios sociais.

- “Os bissexuais são muito felizes, né? Devem ter uma vida sexual bem ativa, e devem ficar com várias pessoas”. Bem, essa eu já posso desmentir por experiência própria. A última vez que eu tive algum contato físico-amoroso com alguém foi aproximadamente entre 3 e 4 meses. Sem contar que eu possuo uma timidez extrema de puxar papo, seja com um menino ou com uma menina. Acho que isso já diz muito, não é mesmo?

- “Bissexuais têm muito espaço, e são bem representados na cultura pop. Isso de pedir maior representatividade é tudo mimimi”. Ok, eu queria que você citasse algum personagem de algum filme ou seriado que tem uma bissexualidade assumida, e que está diretamente relacionado ao orgulho bi. Não há algum bissexual assumido. Só personagens “homossexuais” que se descobrem assim depois de sair de uma relação heterossexual (como é mostrado na série Please Like Me, por exemplo). Aliás, até pessoas famosas, como Freddie Mercury, David Bowie, Cazuza, Renato Russo, Ana Carolina, Frida Kahlo, Lady Gaga, Amy Winehouse, etc, não são vistas como bissexuais, e sim como gays/lésbicas/héteros. Porque a sociedade não aceita que uma pessoa possa estar em um meio termo, e não em um extremo da situação. Sempre tem que ter apenas um lado.

- “Assim, eu não tenho nada contra bissexuais, entendo eles e tal. Mas não sei se ficaria com um(a) menino(a) bi, sabe… Porque né, eu não me atraio por meninos afeminados/masculinizadas… Mas isso é só o meu gosto. Respeito muito as pessoas bis”. Essa talvez tenha sido a frase que eu mais escutei nos últimos tempos, e também já fiquei muito decepcionado todas as vezes em que escutei ela. Porque há várias coisas erradas e que devem ser analisadas aqui. Primeiramente, de onde surgiu essa ideia de que todo, repito, TODO(A) bissexual é afeminado/masculinizada?! Segundo, se a pessoa for afeminada ou masculinizada, você ainda acha que isso é um problema? Terceiro, isso não revela absolutamente nada sobre a orientação sexual de alguém. Já convivi com heterossexuais e bissexuais que são dessa forma, e todo esse argumento só reforça ainda mais um estereótipo horrível dentro da sociedade. E no mais, rejeitar alguém pela orientação sexual (característica que não é uma escolha da pessoa) revela uma atitude completamente preconceituosa.

Para finalizar, só queria deixar um recado. Se você já cometeu alguma dessas atitudes que eu citei, peço que, por favor, reveja muito seus conceitos. Comece a conviver mais com pessoas bis, e se coloque no lugar delas. E principalmente, analise se as pessoas ao seu redor –família, amigos, profissionais, políticos, etc reproduzem comentários desse tipo. Porque para mim, a bissexualidade é a orientação sexual com menos visibilidade, o que a torna a mais incompreendida. E não, não é nada fácil ser bissexual.