Murinho

Por Henrique Oliveira

Depois de tirar esta foto, encostei em um murinho para terminar de assistir ao pôr do sol, quando os tons de laranja já cediam espaço para tons de lilás. O anoitecer não espera um segundo! Ainda assim, tentei viver o momento de forma zen, mas falhei. Minha mente disparou a pensar que era bem possível que uma pessoa, nessa mesma hora em 1917, também estivesse assistindo ao pôr do sol encostada naquele mesmo murinho.

Não parei por aí. Passei a imaginar se essa pessoa, durante o espetáculo, estaria satisfeita ou angustiada? Estaria atenta à passagem do alaranjado para o lilás ou pensaria na guerra que destruía a Europa? Perceberia outros tons no céu que eu não percebi ou sofreria com uma relação amorosa pensando em poemas românticos? Ou, nada disso, teria virado de costas para a partida do sol, preocupada com uma carona de charrete?

Enquanto pensei nessas possibilidades, perdi quase tudo. O céu estava azul escuro e o pôr do sol já quase terminava, carregando um pedaço de tempo da minha vida que dediquei a imaginar hipóteses de passado em vez de me concentrar apenas no momento exato em que anoitecia.

Indo embora, ainda sem conseguir calar minha mente, pensei que em 2117, vários pores do sol como aquele já terão me levado completamente e, mesmo que um desconhecido tente me imaginar nesse murinho cem anos antes, eu já terei desaparecido na noite escura, como aconteceu ao meu misterioso amigo de 1917.

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