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Interessante pensar no quanto mudamos em somente uma única década. Estou apenas a 2 meses de completar 30 anos, e me vejo na esperança de me transformar no que sempre quis, mas que até então não tinha forças para construir, talvez por falta de experiência, de paciência, de amor próprio; coisas que aprendemos somente levando muita porrada da vida, caindo, caindo, caindo… caindo, e enfim levantando.

Há 10 anos atrás queria ser artista, queria escrever, queria pintar, queria compor, queria ser livre, mas na minha cabeça de adolescente, liberdade se traduzia em poder fazer o que eu bem quisesse. Era morar sozinha, não ter pai ou mãe regulando horários e saídas. Era ser adulta. Mas aos 20 anos nós só enxergamos o lado bom de ser adulto, não percebemos que a louça da pia, nossas roupas ou a casa não se limpam sozinha, que as contas uma hora chegam, que precisamos trabalhar duro pra morar, comer, se divertir.

Há uma década eu bebia com 10 reais, hoje já não consigo gastar menos de 80. Por que nossos gostos vão mudando, é… Ficamos mais exigentes, seja com cerveja, com vinho, com comidas ou até mesmo com gente. Aos 29 não queremos beber aquele vinho com gosto de alcool, aquela cerveja aguada, macarrão instantâneo. Queremos um bom vinho chileno, de uma boa safra, ir em um bom restaurante. Não queremos pessoas vazias, não queremos saber de fofocas, queremos conhecer aquelas pessoas que nos fazem pensar “nossaaaa, como não te conheci antes?!”. “Já assistiu o novo filme do Almodovar?”, “Não acredito que você é tão louca quanto eu e lê Foucault!”. Queremos pessoas que nos somem, que não tenham medo de nos chamar pra sair um dia depois de nos conhecer, pessoas que não tem medo de telefonar pra contar aquela piada que só a gente entende, por que só a gente viveu.

Aos 29 anos somos mais intensos, porém mais seletivos, mais observadores. Somos chatos, queremos a casa arrumada, a roupa limpa, a geladeira cheia e quem sabe um coração que transborde. Passamos da fase de dormir em qualquer lugar, morar em qualquer lugar, morar com 8 pessoas e dividir um quarto. Queremos ter o nosso quarto, a nossa casa, as nossas contas… E pagas! Queremos viajar, queremos ter amigos de verdade, mesmo que poucos. E queremos viver com eles as histórias que contaremos para nossos netos, quando falarmos os podres de cada um em uma festa de família.

Quando se ainda tem 20, não importa muito os 30, os 40, os 50. Muitas vezes nem ligamos se chegaremos lá, só queremos viver tudo de uma vez, abraçar o mundo. Mas aos 30… aos trinta queremos chegar aos 40, e com saúde, queremos envelhecer, queremos construir e percebemos que para isso muitas vezes precisamos nos sacrificar HOJE! Precisamos parar de beber tanto, de fumar, de comer carne, precisamos ir ao médico com mais frequência, ler mais, viver mais, mas com qualidade.

Percebemos que somos a mesma pessoa que éramos aos 20, mas com significado, com propósito, com anseios leais, com experiências reais. Não mudamos em essência, mas mudamos, de roupa, de cabelo, de estilo musical, de sabor, de manias, de namoradas, de cidade, de amigos. Nós mudamos, por que amadurecer é isso, é seguir sempre em frente, olhando pra trás de forma saudosa. É saber que não pode seguir sempre cometendo os mesmos erros, é saber deixar que pessoas saiam da sua vida, por que outras precisam entrar, que algumas não fazem questão, mas outras estão sempre ali mesmo que você não perceba, e uma hora você vai precisar enxergar.

Hoje eu não queria. Hoje eu sou. E sou mulher, sou artista. Hoje eu pinto, eu escrevo, eu componho. Hoje sou segura de mim, mesmo que ainda tenha muitos medos. E hoje eu não trocaria nada na minha vida, por que ela é como um livro aberto, cheio de páginas viradas. Alguns capítulos já foram escritos, mas ainda existem muitas páginas em branco esperando um novo verso, uma nova história.

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