Clube da Luta e como podemos mudar de opinião

“Naquela época a minha vida parecia completa demais, e talvez tenhamos que quebrar tudo para construir algo melhor em nós mesmos.”

Sempre acreditei que o tempo pode sempre transformar nossos pontos de vista. Novas situações, novos conhecimentos, entre tantas outras variáveis, são capazes de mudar nossas opiniões e posturas. O meu maior exemplo disso é o Clube da Luta.

Li o livro no começo deste mês, mas já conhecia a história por ter visto o filme há cerca de oito anos atrás. Meu noivo, o Pedro, é um cinéfilo assumido e, no começo do nosso namoro, fez uma lista com os filmes que eu não poderia deixar de assistir. Clube da Luta, dirigido pelo incrível David Fincher, estava nesta lista entre tantos outros clássicos. Para sua decepção, eu não gostei do filme. Lembro que estava com sono naquele dia e sem muita disposição e tenho certeza que isso afetou diretamente a minha percepção sobre o filme, que tem um ritmo frenético e é cheio de detalhes importantes para a compreensão do todo. Além disso, hoje, oito anos e muitos filmes assistidos juntos depois, aprendi a apreciar certos aspectos sobre o cinema que, antes do Pedro, eu não seria capaz de observar. Obrigada por isso, amor.

Estava na casa dele quando terminei de ler um livro e não tinha comigo o outro que estava planejando começar a ler. Foi então que olhei para os livros dele na estante e dei de cara com o Clube da Luta. Hesitei, pensei, ponderei, pensei mais um pouco e, depois de me libertar de todos as minhas amarras, resolvei pegá-lo para ler. Tinha na minha cabeça que um diretor tão fantástico como o Fincher não poderia ter escolhido uma história ruim para transformar em filme e que deveria dar mais uma chance. Mas, dessa vez, começaria pelo livro. Depois, veria o filme novamente.

Clube da Luta, de Chuck Palahniuk

Clube da Luta, escrito por Chuck Palahniuk, nos apresenta um cara completamente frustrado com seu trabalho em uma empresa de seguros e com a vida que leva, focada na aquisição descontrolada de bens materiais que tentam, a todo custo, suprir o vazio de sua existência medíocre.

“Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou precisar na vida. Você compra o sofá e fica satisfeito durante uns dois anos porque, aconteça o que acontecer, ao menos a parte de ter um sofá já foi resolvida. Depois precisa do aparelho de jantar certo. Depois da cama perfeita. De cortinas. E do tapete. Então você fica preso em seu belo ninho e as coisas que costumavam ser suas agora mandam em você.”

Atormentado pela insônia, o personagem (sim, ele não possui nome e, ao final, compreendemos o motivo) passa a frequentar grupos de apoio à pessoas com doenças terminais e degenerativas como uma forma de conviver com situações piores que a sua e que o façam se sentir melhor. No ombro dessas pessoas, ele consegue chorar, preencher o vazio que sente e relaxar.

“Esta era minha parte favorita, ser abraçado e chorar sem esperança junto com o Grande Bob. Todo mundo trabalha duro o tempo todo. Este é o único lugar onde eu realmente relaxo e me entrego. Isto aqui são minhas férias.”

As reuniões diárias com esses grupos de apoio atuam nele como um potente sonífero e se tornam uma fuga diária, até o momento em que conhece Marla, uma mulher que frequenta os mesmos grupos sem também possuir nenhuma doença. Com a sua presença, ele se vê confrontado com toda a mentira que criou para si mesmo perante estas pessoas e volta a sofrer com a insônia.

É neste novo momento de desespero que ele conhece Tyler Durden, um indivíduo excêntrico e com ideias revolucionárias e anárquicas. Tyler surge na vida dele como uma nova fuga, uma nova maneira de enxergar e lidar com o mundo desgastante e superficial no qual ele vive. Ou melhor, sobrevive.

Após se encontrarem em um bar, Tyler pede ao personagem que lhe dê um soco o mais forte que puder. Esse soco, dado no corpo e em sua alma, mudará sua vida para sempre. E é também esse primeiro soco que dá início ao clube da luta, um lugar onde outros homens se encontram para lutarem e se libertarem de tudo aquilo que carregam nos ombros: o fardo de suas vidas completas de bens materiais e aquisições bestas, porém vazias, medíocres e frustrantes.

“Você não se sente vivo em nenhum outro lugar do jeito que se sente no clube da luta. Quando é você e outro cara sob aquela única luz no meio e todos os outros assistindo. O clube da luta não tem nada a ver com ganhar ou perder lutas. E não tem nada a ver com palavras.”

Liderado por Tyler, a filosofia do clube da luta se expande e outros clubes começam a surgir, cheios de homens buscando a mesma liberdade através de socos, pontapés e dentes quebrados. Tyler é tudo aquilo que o narrador da história gostaria de ser: livre, corajoso e desprendido de tudo. A relação dos dois, porém, que inclui a presença constante de Marla, toma rumos crescentes e cada vez mais megalomaníacos e descontrolados que vão além do clube da luta e nos fazem pensar, a cada página, sobre o rumo que nós mesmos damos a nossas vidas.

Não vou negar que a leitura foi complicada e arrastada no começo. Cheguei a pensar que não conseguiria seguir em frente. O texto não é linear e, em certos momentos, não há uma cronologia definida, porém devemos ter em mente que a narrativa, feita em primeira pessoa, é uma representação de tudo o que se passa de mais confuso e conturbado na mente do personagem principal. Ao absorver esta condição, a leitura torna-se mais fluída e a mensagem que se deseja passar, mais nítida e surpreendentemente verdadeira.

E é toda a mensagem passada que faz deste livro um clássico tão fantástico. Clube da luta é um verdadeiro soco no estômago de todos nós. Sua leitura incomoda por tanta verdade que passa. É inevitável não se identificar com os questionamentos levantados pelo narrador. Somos verdadeiramente felizes? Temos tudo o que precisamos ou precisamos de tudo o que temos? Até que ponto possuir uma boa condição financeira, um ótimo apartamento e um emprego estável nos torna pessoas satisfeitas e completas?

Lembro que, após algumas páginas e já muito admirada pelo livro, enviei uma mensagem para o Pedro dizendo o quanto ele era incrível e que tinha certeza que minha opinião sobre o filme seria diferente quando o revesse. E foi justamente o que aconteceu. Hoje, só consigo me questionar como pude não gostar dele na primeira vez que o vi.

Clube da luta é um dos melhores livros que já li. E o filme é um dos melhores que já vi. E, às vezes, mudar de opinião também pode ser uma das melhores coisas que podemos fazer.