Trecho do livro Entre Ontem e Amanhã

Capítulo 1

Carla e Rodolfinho

Leo vai acordar daqui a pouco. Queria saber com o que ele sonha, ainda mais reconhecendo que outros trabalhos estão se desenrolando na mesma cabeça enquanto isso acontece. Na maioria das vezes ele dorme de forma tranquila, sem interrupções repentinas. O que me dá tempo para descrever um pouco seu quarto. É… um quarto. Não é tão diferente dos outros que vi, apesar do enorme esforço da grande maioria das pessoas em personalizar seus quartos, destacando-os como extensões diretas de si mesmas. Sob tal perspectiva, realmente o quarto de Leo combina com ele. É simples, com quatro paredes azuis. Há uma pequena e velha escrivaninha com uma cadeira de rodinhas encostada contra uma das paredes, mesma parede com uma porta que dá para o restante da casa. A base de um antigo espelho grande permanece colocada sobre a cama de viúvo onde dorme, sem o espelho em si que antes ali ficava para dar aquela sensação de que aquele quarto tem mais espaço do que possui. Por que a necessidade de se simular que um cômodo seja maior do que de fato ele é? Uma outra parede possui um armário onde roupas são guardadas e uma porta para um pequeno banheiro, com chuveiro, privada e bidê. A última delas tem apenas uma janela. Leo dorme sob cobertas azuis, entre dois criados-mudos. Em um deles há um abajur e uma fotografia sua com Vivian, senhora que entrará no quarto daqui alguns minutos. Eles estão abraçados, sorrindo e de frente a essa mesma casa onde vivem. A fotografia tem dois anos. No outro, uma pilha de cadernos contendo anotações e duas canetas. Leo vai acordar daqui a pouco. Eu gosto dele. Acho que só dele.

Devagar, ele abre seus olhos, confuso como todos os dias. Muito mais confuso do que qualquer outra pessoa quando acorda, pelo menos rotineiramente falando. Imediatamente se senta encarando uma das paredes, assustado, sem ideia de onde está. Depois encara uma outra, em seguida uma outra, volta para a anterior, depois vai para a que faltava, mais uma vez à anterior. Sua respiração vai se acelerando em sincronia com seu olhar e este vai transbordando em lágrimas. Toda manhã Leo é uma criança que se perdeu de seus pais em um enorme shopping center naquelas lojas de departamento. Ao notar que uma das portas começa a se abrir, salta imediatamente para fora da cama, completamente aterrorizado e se empurrando com uma força desesperadora contra a parede. Seus pés eventualmente se dão conta de que não iam conseguir fazer seu corpo atravessá-la no momento em que a figura de Vivian é reconhecida. As pernas então cedem. De joelhos, em um choro calmo, soluçando aliviado, Leo só estende os braços enquanto ela corre com pressa até eles:

Está tudo bem, Leo! Está tudo bem! A vovó está aqui.

Os dois ficam abraçados por algum tempo, Leo com a cabeça enfiada na barriga dela, sem se mexer nem um milímetro, até Vivian fazer força para que se sentem na cama. Ela vai enxugando aquele rosto inchado e a respiração de Leo vai finalmente se acalmando. Sem tirar os olhos dela, sua boca fica inquieta, não parecendo saber direito como se começa a falar.

– Você lembra de mim, querido? Lembra da sua avó? — Vivian pergunta.

A boca de Leo até se esforça, independentemente do restante do rapaz, mas nenhuma palavra parece estar muito a fim de sair naquele instante. Balançando a cabeça e olhando de novo para as paredes de seu quarto, única coisa que até aqui sabia fazer, e ainda buscando qualquer referência que pudesse servir, ele sente as mãos de Vivian apertarem a sua com força.

- Você se lembra do meu rosto mas não sabe quem eu sou. É isso, não é?

Finalmente alguma coisa parecia ter encontrado algum significado do lado de dentro e sua cabeça decide acenar que sim. Tanto que agora conseguiu participar da conversa.

- Quem… quem eu sou?

- O seu nome é Leonardo, mas todo mundo conhece você como Leo. Eu sou a sua vó e você é o meu neto. Há quatro anos você sofreu um acidente sério de carro que quase te matou. Me dá aqui a sua mão. Você sente isso aqui?

As mãos não demoram muito até encontrar um enorme calo na parte de trás da própria cabeça. Leo paralisa-se ao tocá-lo, enquanto ela segue declamando:

- Você já estava doente quando bateu a cabeça, querido. Você bateu ela tão forte que liberou um tipo de infecção rara que dormia em você. Os médicos fizeram tudo para te salvar, para recuperar sua cabeça, seu rosto, você… Tudo ficou como novo, graças a Deus! Depois vieram nos falar da possibilidade de sequelas, do trauma… — Vivian para por um instante e aperta a mão de Leo ainda mais forte.

- Querido, você perdeu toda a sua memória e toda a capacidade de fazer novas memórias. Você consegue guardar as coisas por mais ou menos um dia, mas depois esquece de tudo mais uma vez quando acorda. Todos os dias.

A mão não desgrudou do calo enquanto tudo ia sendo explicado. Pelo menos ficar esfregando aquilo trazia algum sentido ao que escutava. O que esperar ao ouvir algo como isso? Há algum tipo correto de reação? Leo ficou estático olhando para sua janela. Seu olhar estava absolutamente vago, os olhos completamente ocos. Seus pensamentos, entretanto, ficaram bastante inquietos, movendo-se inutilmente e totalmente sem rumo atrás de qualquer tipo de referência, evidência, o que pudesse encontrar para contradizer, ou pelo menos confirmar, a primeira informação que recebia em seu dia. A primeira informação que recebia. Ponto.

A respiração voltou a ficar forte como antes, seus olhos voltaram a se mexer inquietos, tudo no piloto automático, e seu corpo começou a lhe dar sinais de que queria fazer alguma coisa. Gritar, chorar, sair correndo, pular, tremer, se mover? Qualquer coisa, já que sua cabeça era incapaz de produzir algo útil. Os dois acabaram não fazendo nada. Toda sua ansiedade, se é que esse é o nome certo para isso, só foi interrompida quando sentiu um peso caindo no seu colo e ouviu:

- Esse aqui é você, Leo.

Era uma pasta enorme, gorda, cheia de coisas que Vivian trazia consigo e lhe atirou. Dentro deu de cara com uma coleção de montagens, fotos e anotações. Diplomas, fichas médicas, ainda mais fotos, e muitas delas com aquelas datas impressas para que saibamos precisamente quando foram tiradas, cartas, bilhetes, alguns objetos pequenos que conseguem ser mantidos dentro de uma pasta como anéis, chaveiros e o broche de uma faculdade. Tudo que poderia constituir uma pessoa antes desta descarregar sua vida inteira no Facebook. No meio de todas essas coisas bem separadas e organizadas, também havia dois cadernos. Um com uma foto do rosto de Vivian na capa, além de seu nome escrito em letras garrafais bem acima da sua face. E o outro com uma foto de um rapaz que Leo obviamente não tinha ideia de quem era, apenas entendia que se chamava Daniel pela clara lógica dos cadernos. Era, para dizer o mínimo, bizarro ser confrontado com recortes de um total estranho — tudo parecia pertencer a um mural de colagens pregado em algum quarto de adolescente, e tudo, ao mesmo tempo, confirmando que, sim, você esteve vivo aqui durante todo esse tempo, apesar de sua memória lhe faltar. O primeiro dia de uma típica amnésia. E mesmo sem se ver naquilo tudo, como já esperado, havia ainda assim algum estranho entendimento de quem lhe era apresentado, ou, ao menos, de quem aquela pasta tentava apresentar. Ter uma noção o acalmava, ainda que fugisse de sua compreensão. Ao menos, confortava mais do que as paredes do seu quarto.

Percebendo que ele estava cada vez mais calmo, Vivian chamou sua atenção para o banheiro. Leo entendeu que devia ir até lá sem de fato entender, apenas obedecendo, como se algumas coisas começassem a fazer sentido em si mesmas e não precisassem de toda uma compreensão formal. Para sua surpresa, seu rosto é a primeira coisa que o encarou de volta no exato momento em que parou de frente ao espelho de sua pia. Olhou seu reflexo no fundo dos olhos por vários minutos, mexendo as mãos e as colocando sobre sua cara, curioso, virando-se de perfil, depois virando-se para o outro perfil e inevitavelmente procurando alguma referência daquilo que enxergava. Mesmo não encontrando nenhuma, era maravilhoso ser apresentado para si próprio pela primeira vez, aproveitando o tempo para ir conhecendo cada pequeno detalhe, vendo minuciosamente cada orifício, marca e minúcia. Ele foi ficando mais calmo na medida que se encontrava.

Enquanto Leo se divertia encarando seu rosto, algo que toma uns bons minutos da repetitiva rotina do protagonista, descrevo um pouco a imagem que o distrai. O rapaz tem já seus 30 e alguns anos. Não preciso ser tão exato aqui, até porque nem tenho como ser. Ele é daquelas pessoas que aparentam ser mais jovens do que realmente são, ou pelo menos é o que costumeiramente dizem as pessoas que veem pessoas combinando aparência e idade semelhantes às dele, para efeito de comparação. Para ele, muitos dizem que isso se dá graças à falta de estresse que uma vida livre de memórias pesadas e, por consequência, de preocupações, lhe proporcionava. O que é uma tremenda de uma bobagem, geralmente usada para puxar assuntos casuais com Vivian ou Daniel, quando presentes. Leo tem a pele bem branca e os cabelos bem escuros, curtos. Sua barba está rasa, denunciando que ele a faz todos os dias, e sua aparência é magra, com um pequeno pneu de gordura que não causaria grande insegurança nem mesmo em alguém com as inseguranças de pessoas durinhas. Seus olhos são castanhos escuros e seu maxilar é fino e pontudo. Apesar de ser extremamente curioso classificar pessoas através desse tipo de qualidade, Leo pode ser o que se considera “bonito” para uma grande parte delas.

Por diversos minutos ficou se observando, acompanhado de longe por Vivian, totalmente calmo e extremamente atento, fascinado consigo mesmo. Leo notou duas pequenas cicatrizes que possuía ao tirar sua camiseta, um pequeno corte de uns três centímetros acima do seu mamilo esquerdo e a típica marca de vacina em seu braço direito. Passou um tempo cutucando ambas, sendo que uma parte de si mantém claro entendimento de que aquilo funciona como registro do que já aconteceu, um recibo de vivência. Talvez graças ao calo, talvez fosse uma compreensão que sua cabeça conseguiu guardar. Nunca se soube ao certo o processo seletivo da peneira que sua mente fazia. Ficou sobre a ponta dos pés, olhando para o pedaço da sua imagem dentro do espelho e comparando-o com aquilo que conseguia enxergar sem precisar ver seu reflexo, como suas canelas, suas coxas e o que tinha dentro da cueca. Apoiando-se na pia, finalmente notou que alguns itens colocados ali tinham bilhetes plastificados postados ao seu lado. No copo que guardava sua escova de dentes, um desses bilhetes escritos à mão dizia: “para escovar os dentes”. Todo o banheiro estava repleto desses bilhetes. “Para fazer água sair”, “para passar entre os dentes”, “para passar antes de raspar a barba”, “para raspar a barba”, “para assoar o nariz e limpar a bunda ou o xixi”. Lia cada um desses bilhetes, quando Vivian falou:

- É cada vez mais raro, mas tem dias que você acorda bem pior do que hoje.

O banheiro e seu reflexo de repente perderam a graça. Todo o quarto, na verdade, quando se deu conta de que havia bilhetes grudados em quase tudo que tinha ali. Só faltava encontrar um no chão dizendo “para pisar e não flutuar”. Um pavor estranho começou a querer o dominar e automaticamente suas pernas o levaram de volta até sua cama. Um enorme vazio foi voltando.

- Você sempre foi, e vai ser, muito independente, querido. Os médicos disseram que seria normal, que em certos dias você poderia ter dificuldade em saber o que são algumas coisas — Vivian o consola e entrega-lhe a pasta mais uma vez.

- Olha, querido, aqui tem um pequeno resumo de quem você é. Todos os dias a gente coloca um pouco mais, deixando ainda mais claro e completo o que tem aqui, que é você!

Ela se levantou com calma, deixou-o sozinho com toda sua confusão alguns breves segundos e voltou com os cadernos que estavam no criado-mudo do quarto.

-Toda noite eu venho aqui, pego o que você guardou e anotou do seu dia e registro tudo para você. Tudo o que é importante para você vem sempre para a sua pasta. Esses cadernos têm as suas notas, o seu jeito de ver o mundo. Escreve o que você quiser do teu dia, o que quiser na tua vida.

Pausa. O ritual era seguido milimetricamente por Vivian, ela quase cronometrava o tempo em silêncio unicamente pela respiração de Leo. Foi.

- Querido, eu vou te deixar aqui olhando tudo isso, suas coisas. Você prefere ver elas no seu tempo, sem sua vó te explicando coisa por coisa sem parar. Eu vou ficar te esperando lá em baixo. Você pode descer, gritar, fazer o que quiser, eu te encontro quando você estiver pronto, ok?

Pronto, estava feito o que devia ser feito. E apesar do esforço, do olhar concentrado e das repetidas vezes que acenou em concordância com as longas frases que lhe foram ditas, as coisas só passaram a querer se organizar melhor na cabeça de Leo após Vivian lhe dar um beijo, dizer que o amava e sair de vez do quarto. Agora ele tinha um tempo para tentar entender alguma coisa que pudesse ser entendida no meio de tudo. A foto dos dois lhe trazia um certo conforto otimista.

*

Autor do romance, Entre Ontem e Amanhã. Medium e conteúdo dedicado exclusivamente ao livro.

Autor do romance, Entre Ontem e Amanhã. Medium e conteúdo dedicado exclusivamente ao livro.