Tudo tem que ter um começo

#opiniaoentreprosas

Por: @NicodemosDantas

Como parte da minha rotina, vou todo dia antes do café da tarde no mercado do japonês para comprar pão e também aproveito para ver o preço das frutas e verduras, por geralmente serem mais baratas por ali. Na última semana que fui lá, comprei meus pães e fui para a área do hortifrúti. Em geral, tudo estava o mesmo preço, até que vi aquela etiqueta vermelha na parte das laranjas. Vinte centavos mais barato que nos outros mercados. Resolvi colocar junto dos pães na minha cesta.

No caixa, a jovem mocinha que sonha estar em qualquer lugar menos naquele, atendendo aposentados como eu o dia todo, passou minha sacola de laranjas, mas não estava com o mesmo preço da etiqueta vermelha. Não falei nada para ela, até porque se falasse ela não ouviria por estar ocupada sonhando acordada olhando para o rapaz que estava organizando a seção onde fica os chocolates no mercadinho do japonês. Paguei a conta equivocada e saí em busca do gerente. Achei-o na saída do mercado conversando com uns amigos que temos em comum, dos tempos em que minha tia entregava leite na charrete com o velho cavalo chamado Jipe e dos tempos que nossos pais passavam a cavalo pela rua em que, hoje em dia, só passa carros e mais carros.

Esperei o gerente, aquele senhor japonês de humor irreverente e sotaque puxado mesmo sendo brasileiro, terminar a conversa e me aproximei. Bocudo como sou não resisti e falei da diferença de vinte centavos. “Mesmo eu sendo um pouco pobre, para mim não faz tanta diferença, mas para quem é mais pobre que eu pode fazer. Às vezes, ele nem compraria aquilo nas condições normais, mas pela promoção se aperta um pouquinho para comprar e então não presta atenção no preço quando paga e depois fica no prejuízo.”

Sei que o japonês não foi tocado pelo que disse, só mudou o preço para que outros não reclamassem ou chamassem alguém de cargo importante resolver isto, mas eu fiz a minha parte. Pode parecer utópico, porém eu acredito que temos que nos movimentar, temos que ter um começo. Injustiças acontecem o tempo todo e temos que começar em algum lugar, minha pequena contribuição é essa. O paladino da vizinhança que regula o preço da laranja, pode parecer bobo, mas é o meu começo, é o que posso fazer para ajudar.

Sou velho, cansado, já tentei mudar o mundo sozinho, mas eu sou pequeno demais. Logo, minha ajuda é proporcional a mim, uma pequena contribuição para um pequeno peão. Mas mais importante que só fazer, é fazer isso não ser invisível. O meu começo pode ser o que faz o outro começar, sei que parece que isto é um sermão da montanha, mas na verdade é só eu contando o meu dia a dia e colocando alguma moral nisso. Poderia fazer um esforço para lembrar dos épicos gregos que lecionavam, ou falar de máximas latinas, mas não sei se é o momento para isso. Limito-me, hoje, a falar da simplicidade de uma vida no seu ponto final. Da mesma maneira que eu tive meu começo contra pequenas injustiças, talvez a mocinha do caixa deveria tentar um começo com o rapaz que organiza os produtos do mercadinho. Começos são os movimentos mais difíceis, mas são as raízes amargas que sustentam a árvore com os mais doces frutos. Sobremesa da minha vida simples.

Vida simples e plena na terceira idade, como um bom epicurista que aprendi a ser com meu pai quando era muito pequeno. Simples como a atitude que fiz, simples… Pois tudo tem que ter um começo. E você? O quer quer começar?