a memória é a parte onde todo o resto está — a primeira vez

Enzo Fuji
Enzo Fuji
Nov 8 · 9 min read

parte dois: ode ao sofrimento

advertência: antes de ler, gostaria de dizer que esse texto não é o meu mais organizado texto, é o meu mais confuso texto, cheio de fluxo de consciência, irresponsabilidades e vergonhas. paradoxalmente, salpicado em partes distintas, mas conectadas.

a primeira vez que nos vimos foi numa terça-feira. na verdade, víamos quase todos os dias. quase sempre eu estava perto dela e ela também. nós nos conhecemos na escola.

a primeira vez que ela me notou foi antes. numa segunda-feira ou numa quarta-feira. não foi um dia antes. ela se apaixonou por mim, porque estávamos a conversar. eu oferecia atenção a ela e ela, toda delicada e ferozmente sensível, também me esmagava de atenção. os dois brincando de coisas que eram tão bobas. eu me apaixonei numa terça-feira, quando eu não a via mais sem ela. foi o início.

eu era tímido, ela extravagante. eu era acanhado, com medo do mundo, ela não tinha pudor e lutava com força. eu era calmo, ela era toda avoada, como se o mundo não pudesse esperar para as suas artimanhas. a primeira vez que eu emprestei um livro a ela foi quando ela pediu o ensaio sobre a cegueira, do saramago. estávamos conversando e, a partir de uma aula na escola, perguntou-me se eu tinha e se eu poderia emprestar-lhe. disse que sim. lembro-me até hoje que ela estava lendo, sentada perto às escadas, agasalhada pelo o coração do livro e acolchoada pelo o gorro rosa com pompom. ela amava pompom. até hoje, sei que saramago nos uniu. há uma gentileza em cada livro que a gente tem. cada livro que a gente lê. eu agradeço por isso.

eu agradeço por ser ela e por ela amar saramago junto comigo.

Esse livro elegante tem história para contar

a primeira vez que nos beijamos foi na sala da escola, quando todos já sabiam que ela gostava de mim. e eu, dela. ela era do terceiro ano do ensino médio, e eu do segundo. foi justamente numa quinta-feira, às 10:27 da manhã. quando todos sabiam que havia um sentimento que poderia engrandecer, a ficar como a imensidão do céu. fiquei bonito. aprendi que o céu dela se juntou ao meu aos poucos. fomos, mesmo que por pouco tempo, infinitos.

a primeira vez que nos vimos, de fato, os dois pegaram chuva. foi num sábado. eu fui de ônibus. ela foi com o pai dela, que a deixou num habib´s próximo ao cinema. logo depois, começou a chover e ela estava linda, chegando com chuva. eu lembro da roupa que eu estava. eu lembro da roupa que ela estava, como se fosse hoje. parecia que algum deus ou qualquer divindade estava se prostrando a chorar pela gente, torcendo pela gente, ficando feliz por nós. eu juro que eu fiquei também.

assistimos it: a coisa. nos beijamos pela a segunda vez, foi como se fosse a primeira. depois, todas as outras que eu a beijei, foi sempre sendo a primeira vez. nunca houve nenhum momento que eu gostaria para que o tempo passasse com ela. eu desejava que, cada segundo, fosse eterno. e foi. todas as vezes que eu descia à paulista e subia-lhe, todas as vezes que eu cuidei dela quando estava doente, e ela cuidou de mim quando eu estava com dor nas costas. todas as vezes que ela me acompanhava com a joana, sua cadela. todas as vezes que ela sorria e cada sorriso dizia, eu te amo. todas as vezes que eu levei flores a ela e ela floresceu felicidade. todas as vezes que eu olhava para os olhos dela e via aqueles olhos gordos e pensava que eles combinariam perfeitamente com um vestido branco. e ela me dizia, azul royal. ficaria linda com um vestido azul royal. todas as vezes que eu torci para ela e ela também torcia para mim. tudo o que ela fez por mim e eu por ela. tudo o que ela se dedicou por mim e eu por ela. tudo o que ela leu do que eu escrevi e ela dizia sempre, não entendo nada.

é, meu bem. eu também não entendo nada da vida. não entendo o porquê.

a primeira vez que eu senti um frio na barriga, foi quando dissemos, eu te amo. ela disse primeiro. lembro-me da data, e do horário. ela sempre teve mais coragem que eu. entretanto nunca vou me esquecer como e onde foi. no momento exato. o momento exato que os olhos dela brilharam para me dizer que me amava. sei que, como terminamos, eu preciso de lembrar as melhores memórias que tivemos. eu preciso disso. brilho eterno de uma mente com lembranças, meus amigos e amigas.

a primeira vez que brigamos foi como se não pudéssemos brigar. foi como se houvesse uma conciliação através da briga. foi como se a capacidade de brigar nunca estivesse em nós. mas brigamos. discutíamos. eu, sempre rindo, e ela brigando comigo por estar rindo de algo tão sério.

eu não sei como eu iniciei esse texto, contudo sei que eu não gostaria de terminá-lo nunca. ele também não gostaria de ser terminado nunca porque fala de uma pessoa muito especial.

sinto, às vezes, que essa tristeza nunca vai passar. faz quase cinco meses que terminamos. é pouco tempo. o meu tempo de dentro é um tempo que precisa de cuidado. se eu não tomar cuidado, quem vai? o meu tempo de dentro machuca-me todos os dias quando não recebo, eu te amo ou quando ela dizia, boa noite, meu amor, se cuida, durma bem, eu te amo infinito, coisa linda. e eu dizia, eu também te amo muito, amor. se cuida, coisa linda. vai dormir, bobinha. e terminava dizendo, eu te amo, pequena.

sinto, às vezes, uma tristeza sobrenatural. a sobrenaturalidade da angústia, em paralelo ao mundo real, me domina. estou triste por dentro e por fora. estou com rosto duro e insensível. estou sendo arrastado pelo as coisas que são mecânicas, que a sociedade exige. se eu pudesse, eu parava de fazer muitas das coisas que faço apenas para me cuidar. para me restabelecer. a memória é sempre a parte onde todo o resto está. eu estou no resto. eu vivo, hoje em dia, no resto.

a primeira vez que eu lancei um livro foi quando eu soube que ela estava comigo. eu escrevi sobre a perda do meu tio. eu escrevi sobre ela. eu escrevi sobre as pessoas perto de mim. o livro se chama, depois que seja tarde, antes que seja nunca. parece que, na minha boca, sempre haverá um sentimento lindo quando ela estiver perto de mim. mas, um sentimento tímido, com medo novamente. ela leu todos os poemas do livro antes de eu os publicar. comentou todos em todas as noites que antecederam o lançamento. foi no dia 15 de dezembro. ninguém soube disso. eu ria muitas vezes quando sabia que ela se esforçava e não conseguia entender nada. o brilho de um poema não é sua explicação. é a capacidade de sentimento que existe no poeta ou na poeta e que você soube sentir, talvez não o mesmo sentimento, mas sentiu. o brilho está no sentimento, meu bem. se você ainda não sentiu, tente novamente. e se está com raiva, por não conseguir sentir nada, um dia tente novamente. no dia 16, tínhamos unesp, segunda fase. eu consegui passar em algumas universidades, mas quando saiu o resultado da unesp. ela passou e eu não. ela passou em outras universidades, como a ufsc. eu passei em outras universidades e ela não passou por muito pouco. senti que estaríamos distantes. eu senti que alguém pudesse estar querendo me passar um recado. ficaríamos longes. senti que ficaríamos longes um do outro, mas que conseguiríamos sobreviver. senti que, após as aprovações, teríamos de decidir. ou seria mais de 800km de sp a santa catarina ou seriam 328km de sp para bauru, onde fica a unesp. eu me dividi aqui, sei que me dividi. foi a primeira vez que eu não sabia o que realmente dizer a ela. na verdade, foi a segunda ou a terceira. não me lembro. minha memória falha aqui.

a primeira vez que eu chorei. é, eu nunca chorei com ela. eu tinha medo de chorar. mas, meu bem, a coisa mais bonita da gente era nossa alegria e nossa tristeza. eu, hoje, vejo que deveria ter chorado mais contigo. eu, hoje, me arrependo de nunca ter chorado uma única vez contigo. eu me emocionava contigo, com olhos encharcados, entretanto nunca me desmantelava. eu devia ter feito isso. eu tinha um ombro amigo.

todos os dias depois que terminamos eu chorei. queria que tivéssemos um ao outro. venho chorando, pelo menos uma vez ao dia, ou me emocionado uma vez ao dia, ou lembrando de você uma vez ao dia.

a primeira vez que terminamos foi como se os piores dias fossem acontecer. e aconteceram. e vêm acontecendo. todos eles sem ela. não está sendo fácil. as pessoas ainda me perguntam onde ela estão. e eu quero responder, sempre que posso: no meu coração. ela está aqui, comigo. parece que essa perda que eu tive estará sempre querendo me dizer alguma coisa.

e essa semana, nós faríamos dois anos e dois meses juntos. sei que não é possível voltar ao tempo das primeiras vezes, que tomamos chuva, do pai dela que a deixou no habib´s ou na primeira vez que eu amei aqueles olhos gordos de amor. mas eu gostaria de voltar ao primeiro instante, mesmo sabendo que nós terminaríamos de novo ou não. eu faria tudo diferente, eu pensaria tudo diferente, eu seria alguém diferente. pra pior ou pra melhor. às vezes, olho para as nossas fotos e vejo que fomos tudo. pra melhor. olhe também, se você estiver me lendo. olhe sempre. olhe para sempre.

fomos a parte mais bonita do mundo. como eu queria mostrar as fotos.

a primeira vez que eu amei de verdade foi como se fosse a melhor coisa do mundo. e eu respeito que a melhor coisa do mundo, às vezes, a coisa mais bonita do mundo precisa ir embora. acho que agora vou chorar tudo de novo. ainda não tem sido fácil. mas a coisa que mais me alegra é que tudo o que eu sinto são lembranças bonitas e que bom que eu as tive.

500 Days Of Summer (Wallpaper Cave)

às vezes me pergunto se o saramago está nos vendo. se alguma divindade está triste. existem tristes dias no céu, meu bem. dias melancólicos. saramago, meu querido, tu sentiste que uniu um casal? às vezes, queria perguntar para a pílar, sua grande esposa, o que ela sentiu quando saramago se foi. talvez esteja sendo difícil até agora para ela. sim, talvez. sei que está. é difícil de lidar quando uma pessoa que amamos vai embora. para a minha tia, que perdeu o meu tio há dois anos, ainda está sendo difícil de lidar. sinto que vou chorar.

a vida não está sendo boa para nenhum dos dois. muito menos agora, que estamos cada um para o seu lado, distantes, desconectados pela fisicidade, mas ligados pelo fio de memória. ela nunca teve uma vida fácil. ela sempre se cobrava muito. mas ela é forte, e tem capacidade de ganhar o mundo. eu sei disso.

me desculpa, meu bem. me desculpa por tudo de ruim que eu te disse, ou as expectativas que foram colocadas. me desculpa por cada dia que você não se sentiu bem comigo. me desculpa. me desculpa por ser assim. eu escrevo para nunca esquecer. estou fazendo certo. nunca esquecer é sempre guardar. está guardado.

quando me perguntarem de você, direi que sempre foi você.

um amor de verdade é sempre como se fosse a primeira vez de tudo. está guardado. obrigado, victoria.

agora o título do meu livro nunca fez tanto sentido. depois que seja tarde, antes que seja nunca, a flor da capa também faz sentido agora: significa forget me not. eu ainda espero te reencontrar, espera a gente se curar. espera a gente se curar. curar-se para amar.

a primeira vez que a gente se curou…

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