“Boa aula de história! Lembra que eu te amo ♥ !”
Hoje eu só fui olhar o meu caderno de História, como quem não quer nada. Ia revisando alguns conceitos, vendo outros, lembrando das aulas que tive no Ensino Médio, surtando, à época, com Enem e vestibulares em geral. Minha professora escrevia tudo o que queria dizer, e falava muito, engasgando palavras, por não saber quais viriam primeiro e quais seriam as suas últimas. Ninguém sabia, por isso era uma aula extensa. Lembro-me das suas aulas até hoje. Fui pegando as memórias com os meus amigos e amigas, do tempo empenhado, dos textos lidos e do conteúdo fixado. Lembro-me do meu amigo cabeludo e do meu outro amigo, mais franzino, pequeno de corpo, grande de altura, como se faltasse comida na sua alimentação diária, mas não lhe faltasse limite para chegar ao céu. Rimos várias vezes nas aulas de História. Rimos da quantidade de coisa que precisávamos ler. Rimos de mim. Rimos do cabeludo. Rimos do menino franzino. Bebíamos muita água. Trocávamos tapas enquanto a professora proferia uma aula maçante sobre temas que nunca vamos viver. Rimos de muitas coisas que só só tiveram nossas risadas, porque naqueles momentos aquelas coisas faziam sentido ou nem tanto. Ensinei Grécia para a minha irmã quando ela me perguntou a diferença e semelhança entre Atenas e Esparta. Ainda lembrava, pensei. Fiquei feliz. A gente só se lembra das coisas que nos marcaram, coisas ruins ou boas, mas as medíocres nunca. Fiquei feliz. Era uma coisa feliz.
No ínterim do conteúdo de Absolutismo, quando eu tropeçava para ler o meu caderno de História rapidamente, olhando o meu caderno, e ele olhando de volta para mim, anotei que o rei centralizava tudo, e também notei uma frase: “Boa aula de História! Lembra que te amo ♥” Um coração meio torto, típico da mão esquerda dela, venho acompanhando o te amo. E veio tudo à tona: a minha tristeza veio vindo, as minhas histórias vieram também, fui pensando, “Como será que ela está?”, saí de todas as redes sociais e não sabia mais de nada. E daí lembrei de tudo de volta. Chorei tudo de volta. Me senti triste porque eu sabia que foi um amor de verdade. Sim. Uma frase me pegou desapercebido e fiquei feliz porque pegou. Mas me senti triste. Queria que ela estivesse comigo.

Lembrei que na aula eu sorria feito bobo, porque eu tinha visto aquela frase. Não mostrei para ninguém, mas devia ter mostrado. Eu fiquei tão feliz, mas tão feliz, que queria que aquela mensagem ficasse só pra mim, só pra mim, pensei. Guardei ela. Guardei o bilhete,“Te amo”. A minha matéria favorita, junto à gramática e literatura, também me amavam. Estar, sentir, ver, que aquele grande amor que eu tive se foi, mas que ainda sim eu sinto um sentimento bonito, uma beleza incomum, foi como se ela soubesse que eu voltaria algum dia pra cá, foi como se ela quisesse que voltasse nesse bilhete e relembrasse tudo de novo. Mesmo que eu escreva esse texto chorando, sei que ela nunca vai lê-lo. Só por besteira, só por bobeira, ainda gostaria que esse texto chegasse a ela.
Eu só preciso que essas coisas aconteçam ao acaso, que essas lembranças brilhem, me tornem melhor.
Hoje eu só fui olhar o meu caderno de História, e percebi que eu sentia um vazio grande por ela não estar mais comigo, nem um pouco perto. Me senti angustiado: ela seria uma ótima mãe. Ela sonhava com quatro a cinco filhos. Seria um arsenal de cotoquinhos andando pela nossa casa não construída. Eu, empacotado no desespero, já advertia: dois no máximo. Quero um casal. Mas ela sabia que eu daria todos os filhos que quiséssemos, que seríamos felizes todos juntos, do que sozinhos. Riríamos com os nossos filhos, sempre um sorriso gordo, obeso. E quase a explodir, riríamos sem parar. E dormiríamos todos juntos, empacotados de felicidade e também de muito amor.
É, mas hoje ela não está mais aqui. E não vai ler esse texto. E não vai ver o meu desabafo, não vai sentir o que eu sinto, nem duvidar mais do meu amor por bobeira. Ela seria uma ótima mãe, pensei de novo. Eu também te amo, queria eu dizer. Quero sempre dizer às pessoas que me fizeram bem ou me fazem, eu te amo.
É, eu sei que vou te amar para sempre. Tivemos tantas histórias bonitas, tão bonitas que merecem estar aqui para sempre. É, eu sei que você estará para sempre comigo. Por isso, fiz esse texto.
É, já sei, não me falta nada. Nem nossos filhos e nem outras lembranças. Talvez eu me sinta angustiado, talvez eu me sinta triste de vez em quando, mas não me falta nada. Você sempre será a minha história e isso eu só tenho de agradecer. Hoje eu só fui olhar o meu caderno de História e acabei pensando na minha.
