parte 1: “é como arrumar o quarto de um filho que já morreu”

Me desculpa se lembrar de você é uma rotina. Parece que tenho estudado a tristeza, aquele vazio de se sentir sozinho, aquele momento que ficamos tristes com um copo, e sentimos que naquele lugar só tem você e o copo. E aí vem alguém com o teu cheiro, ah, me desculpa, vai. Que cheiro gostoso! Parece de baunilha: tenho certeza que todas as mulheres copiaram o teu cheiro só para me fazer sentir triste, com inveja de não te ver mais. Até o Sol plagiou o seu sorriso, até o céu plagiou a tua imensidão, até a lua plagiou o teu mistério. E eu aqui, sempre te observando para onde eu for.
Eu sei que preciso deixar de lado, mas só não consigo. Eu sei que você estará sempre aqui, junto a mim. Acordo de segunda-feira e lembro da valsa que fazia a tua voz, fazendo a gente dançar e, se você olhar direitinho para as nossas fotos, que dança era aquela! Acordo na terça-feira e algumas fotos nossas não merecem nunca ser apagadas e coloco chiquinho, e ele me diz, “a saudade é como arrumar o quarto de um filho que já morreu”. É mesmo, Chico. E vem Rubel, dizendo “quando bate aquela saudade”. E eu não sei como fazer, só sei que quero pedir desculpas por estar assim. Acordo atrasado na quarta-feira e, ainda assim, me lembro que o teu sorriso espantava até o sol, de tão bonito que é. Próximo de sexta, na quinta eu já estou muito cansado, mas se eu não lembrar de você, quem vai? quem vai lembrar das nossas histórias? das nuvens que choraram na gente (porque agora não estamos mais juntos), nas rosas e girassóis que demos um a outro, nas escadas que descemos mais rápido, pra ver o outro por mais 30 trinta segundos. E quase caímos nela, porque ver o outro era a coisa mais preciosa do mundo. E naqueles momentos que subíamos a Paulista todos os sábados e a paulista queria que subíssemos todos os sábados às 18:45, para 19:15, e você me acompanhava. Às vezes, quando tinha dor nas pernas, me acompanhava. E por quê? Só pra passar mais uns minutinhos… E na hora de se despedir é como agora: duro, difícil, cortante. Beijávamos muito, mas não beijávamos tudo o que podíamos. E dizíamos: volte com cuidado. Oh, meu bem. Agora pra se despedir de você exige muita coragem, espero que eu consiga. Acordo sexta, e sei que acaba a semana. Mas sei que não acaba essa saudade, essa vontade louca de te ver mais algum dia, mesmo que eu saiba que tudo acabou, assim como essa sexta-feira. Talvez eu só sinta esperança de te conquistar de novo, de recomeçar de novo, ou de esbarrar de novo. Talvez não seja você, mas sinto que estarei desatento, pensando em te esquecer, ao encontrar uma nova pessoa que mudará a minha vida. Talvez sozinho, em SP, eu consiga me desculpar. Talvez, você escute as minhas desculpas e converse comigo, como quem sente saudade também. Talvez, só talvez, eu acredito que do outro lado da cidade, você sente saudade e eu sei que essa saudade nunca vai terminar. Me desculpa, meu bem. Eu te amarei para sempre, porque você é só minha aqui dentro, fique bem. Vai, me desculpa. Me desculpa se lembrar de você é uma rotina.
