Abismo

Areia, terra e pequenas pedras grudavam nas solas dos meus pés, descalços. Pequenos arbustos e cactos formavam a paisagem coroada por imensas formações rochosas avermelhadas. O sol ferozmente rachava o chão seco, e o céu azul empalidecia com o calor. Sim, eu estava no deserto, e nada nunca fez tanto sentido na minha vida como os passos em que eu dava em direção ao infinito. Meu cérebro já estava cansado de funcionar sobreaquecido há tantos dias, e talvez por isso todos os meus pensamentos pareciam se estender por planícies compridas, fragmentando-se em alucinações vertiginosas e psicodélicas. Ao longe eu ouvia o choro dos coiotes, que penetrava em meus ouvidos com uma sonoridade antiga, ancestral. Eu não olhei pra trás, mas imaginei uma pequena trilha de poeira levantada pelos meus passos a subir e ser levada pelo vento. No horizonte eu podia ver uma cadeia de montanhas. Andei até o sol se pôr, e, quando isso aconteceu, as montanhas permaneciam exatamente onde estavam. Com um pouco de mato seco eu fiz uma fogueira, que acendi com meu isqueiro. Tomei um pouco da minha água e fiquei sem jantar. Deitei no colchonete olhando as estrelas. Dormi e sonhei com rios e cachoeiras. Acordei com chuva. Chuva no deserto. Rá. Tudo o que eu não esperava aquela hora era estar molhado. Montei um aparato pra colher a água que caía dos céus e me concentrei em admirar aquele lugar naquelas condições, o que deve realmente ser raro. Não lembro de quando a chuva parou, mas eu sei que estava caminhando. Não havia escolha. Lá, no meio do deserto, eu era um homem, apenas, milhas distante de qualquer aparato social de sobrevivência, da grande espécie humana que dominou todos os lugares do mundo menos aqui. Algum dia aquela semana eu cheguei no cânion. Os arbustos convergiam com o vento em direção ao abismo. Os menores sons ecoavam e se tornavam monumentos aos ouvidos. A altura do buraco era fenomenal. Todo o meu sangue gelava ao chegar perto da beira. Seja o que for que tenha me levado até lá, havia cumprido sua grande missão. O rio lá embaixo parecia de mentira. Era algo distante demais do mundo onde eu estava. E emanava tanta energia, ainda assim. Dava pra sentir. Eu caminhei pelo percurso da beirada do precipício até onde pude. Em algum momento minhas pernas teriam que cansar. Meus pés teriam que doer. Próximo assim da morte, porém, todas essas coisas pareciam demorar mais que o infinito para chegar. Aquela noite eu caminhei sob o luar a dialogar com fantasmas. Ouvi contos e folclore. Mitologias mais reais que as repetitivas rotinas das pessoas cinza das cidades. No fim da noite me falou a morte. A morte gentil, a morte compreensiva. A morte que é de todos. Que não segrega. Que não esquece ninguém. E uma coisa apenas ela me disse; “sê imortal enquanto vive.” O sol expulsou todas as ilusões da noite e me restou apenas o sádico mundo real. Eu caminhava e o abismo me olhava caminhar. Seus olhos vigentes sobre mim. Antigos olhos, velhos como a própria morte. Meu erro foi ousar olhar de volta, e o permiti enxergar através de mim. Todos os meu erros foram expostos, todos os sentimentos foram espremidos afora meu corpo suado, os arrependimentos sendo os que mais doeram pra sair. O abismo lentamente se alimentava de tudo o que havia de ruim dentro de mim. Palavra por palavra ele esvaziou meu dicionário. Meus pensamentos eram todos do abismo. Faltava só o meu corpo. E o buraco me puxava firmemente. Não lembro porque eu tentei resistir, nem se achei que conseguiria. Certa hora, a luta para sobreviver perde o sentido. O mundo é bonito, sim, as paisagens. O pôr-do-sol. Mas é tão triste. A melancolia do homem na eterna busca de um sentido não vai chegar a lugar algum. Já a opressão da sociedade que destrói pouco a pouco cada um de nós, sim. Vai nos levar ao fim do caminho. Mas eu não iria me deixar levar pela sociedade, não. Ela não ia ter o gosto de me ver partir. Que toda a natureza seja plateia do meu fim, sim, e ninguém mais. E eu levantei meus dois pés do chão, num passo em direção aos céus, e o vento me fez planador quilômetros acima do leito do estreito rio que cavou a pedra por milênios. E eu me tornei águia, e em um mergulho eu desci até o pequeno rio, e ao chegar no rio me tornei peixe, e com a corrente eu segui tortuoso pelo cânion, depois pela planície, pela floresta, e enfim cheguei à praia, onde confortavelmente achei uma concha e me tornei caranguejo, e lá eu vivi, sobrevivente do abismo, exilado, e enfim, livre.

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