O relacionamento abusivo que sou incapaz de sair

Eu gostaria que esse fosse um texto que tivesse um final feliz e que mostrasse soluções pra um problema que me atormenta. Que falasse que tudo vai ficar bem e que eu posso quebrar algumas regras sociais e conseguir ser feliz. Mas não é. Esse texto é um desabafo de um tormento que eu não acho que vou conseguir sair nunca. E, mesmo se conseguir, vai me seguir pelo resto da vida.

Eu, feminista há alguns anos, sei reconhecer de longe um relacionamento abusivo. Sei tanto, mas demorei 20 anos pra perceber que estava em um. Sim, 20 anos. 20 anos sendo oprimida por quem diz tanto que me ama e que só se importa com o meu bem. 20 anos não sendo respeitada, dentro da minha própria casa. 20 anos sendo controlada. 20 anos mentindo sobre coisas pra não sofrer quando chegar em casa, mesmo estando em paz comigo mesma em tudo que fazia. Em tudo que faço. 20 anos em um relacionamento abusivo. 20 anos em um relacionamento abusivo com a minha mãe.

Talvez dizer 20 anos seja um exagero. Eu não me lembro da minha infância ter sido ruim. Foi muito boa. Eu morava com a minha avó e via minha mãe poucas vezes na semana. Ficava triste por ter pais separados e não ter uma “família normal”. Mas tudo bem. Eu lidava com isso de uma forma muito madura, embora às vezes chorasse sozinha no quarto. Na minha infância, nunca problematizei os gritos que minha mãe dava comigo. Afinal, ela é minha mãe e com certeza vários foram merecidos.

Sempre fui boa aluna, entrei numa boa escola, estou na faculdade… tudo que uma família sempre sonhou pra alguém da periferia. Tudo que minha mãe sempre sonhou pra mim, já que ela não pôde ter nada disso, já que tinha que cuidar dos filhos. E não me entendam mal. Eu agradeço todos os dias por isso.

No ensino médio, precisando esconder minha bissexualidade, já que minha mãe é homofóbica (comigo, mas não com a minha irmã), passei por uma depressão que achei que não conseguiria sair. E quase não saí. Ela nem percebeu, mesmo eu voltando pra casa todos os dias com cheiro de álcool e machucados no corpo. Mas melhorei, afinal, eu tinha meus amigos.

Na faculdade, envolvida no movimento estudantil, me tornei uma pessoa muito melhor. Desenvolvi princípios que me fazem ter orgulho de mim mesma (e isso é bem difícil pra mim). Se tem uma coisa que me orgulho, essa coisa é a minha luta (embora, ultimamente eu não tenha energias pra lutar muito). Mas isso não é motivo de orgulho pra todos. Principalmente pra minha mãe. Pra ela, não adianta eu lutar por um mundo melhor. E isso só faz eu me afastar dos meus objetivos: estudar e receber meu diploma. Graças à uma graduação opressora e uma reprovação, isso só piorou.

Tenho questionado muito sobre o que é o amor. O que é querer a felicidade do outro. De acordo com a psicanálise, só nos relacionamos com outras pessoas pra responder uma demanda que é nossa, uma demanda de amor. Não existe nenhum ato altruísta, não existe amor sem querer algo em troca. E concordo muito com isso. Pensando na minha relação com a minha mãe, problematizei essa questão. Nunca fui criada por ela livre para ser o que eu quisesse. Fui criada para responder as demandas que ela quis, pra fazer as coisas do jeito que ela não fez. E essa relação é justificada pelo amor. Mas, pra mim, além do amor, essa relação é baseada no medo. Sim, além do amor, porque eu amo a minha mãe. E talvez esse amor é que não me deixa me livrar de uma relação que só me desgasta.

Uma relação em que eu não posso fazer nada do que gostaria sem pensar na repercussão que isso trará na vida dela. Uma relação onde não posso postar uma foto no facebook sem pensar na reação que ela terá. E, se eu desafiar e postar, posso ser chamada de lixo, desgosto, filha da puta, desgraçada. Uma relação que não posso sair com meus amigos, porque ela tem ciúmes deles, porque eu “os valorizo demais, mas no final eu ficarei sem ninguém se não valorizar a família”. Uma relação onde eu não posso conversar com pessoas no whatsapp enquanto estou na presença dela, pois ela quer saber do que eu estou falando. Uma relação que não tenho domínio sobre o meu próprio corpo, porque ela se sente no direito de me espancar, já que é minha mãe e me pariu. Uma relação em que tenho que ligar todos os dias pra ela e contar como foi meu dia. Não por prazer de compartilhar isso com alguém que se ama, mas por obrigação, porque se eu não ligar, eu não me importo. Uma relação onde eu entrei em desespero ao perceber que eu não via nenhuma saída a não ser tomar todos os comprimidos do armário e precisei ter o maior alto controle da minha vida pra tentar não entrar de novo no buraco que estava no ensino médio. Uma relação em que não posso ser eu mesma. Uma relação que, quando eu tento ser livre, tento ser racional e sensata, ela ameaça se matar.

Por muito tempo eu achei que essa relação era uma relação normal entre mãe e filha. Sempre achei que essa relação era justa, já que ela me pariu, já que ela me criou, já que ela enviava dinheiro para minha vó cuidar de mim e me via nos finais de semana. Já que ela sofreu muito por ter engravidado com 16 anos e ter se tornado “mãe solteira” 6 anos depois, com uma filha de 6 anos e um recém-nascido de 8 meses (fato que eu respeito muito, do fundo do meu coração).

No dia que eu me dei conta que essa relação não era normal. Quando eu me dei conta que estava em um relacionamento abusivo com a minha própria mãe, eu chorei como nunca chorei antes. Chorei porque a gente não espera estar em um relacionamento abusivo quando se é feminista. Pior ainda, estar em um relacionamento abusivo com sua própria mãe. Estar um relacionamento em que você precisa equilibrar a sororidade e a sua sanidade mental.

A pressão psicológica envolvida nessa situação é o que me faz não conseguir me mover. Me sentir impossibilitada. Não saber o que fazer. E tudo isso me faz, literalmente, ficar imóvel. Teoria e prática totalmente dissociadas, quando eu percebo o contexto que me inseri, sei tudo o que preciso fazer, mas continuo sem agir.

E assim eu vou levando. Por hoje tá tudo bem. Por hoje ela não gritou. Por hoje ela não ameaçou se matar. Por hoje ela está bem. Eu? Não estou. Mas, por hoje, ela está bem. Então eu tô melhor do que nos dias que não são hoje. Por hoje, eu tô bem.

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