Uma vida de trás pra frente

“Você já foi alguém importante”.

Inebriado pela afirmação, entrei pela pequena porta em busca de respostas sobre aquela frase composta por letras retas e mal dispostas em uma placa de metal.

Ao me dirigir para dentro, sentia na pele o frio que acompanhava o corredor escuro e sombro. Ao fundo, uma cortina alertava para a sala final e, talvez, para o encontro da chave da misteriosa placa.

As paredes eram adornadas por panos coloridos, místicos e diversos. A cada lugar que eu olhava via algo diferente e desconhecido, mas que quando percebido em conjunto formava um emblema único e agradável. Meu olhar andou por todos os cantos buscando uma segurança no que conhecia. Sentado em sua pose característica, percebi um Buda concentrado e um Jesus risonho ao seu lado. De tantas cores, pessoas e seres que vi e que fugiam do meu conhecimento, quase não percebi o pequeno homem que se misturava nas pinturas sentado sobre almofadas vermelhas de veludo. Ao primeiro olhar, o susto tomou meu corpo. O homem era pequeno e possuía olhos grandes e bem abertos, fixados diretamente em mim. Atrás do homem havia uma sala escondida pelos panos onde várias pessoas estavam deitadas adormecidas ou meditando, o que deixava o ar mais misterioso.

- Atreva-te.

- O que?

- Atreva-te. Pergunta-te.

O tom mítico daquela frase e a falta de conhecimento do que estava acontecendo me instigavam. Demorei alguns segundos para conseguir abrir a boca e proverir umas palavras que sairam partidas:

- O que quer dizer aquela pla…

- A placa nada mais é do que a verdade real escrita. Todos fizemos parte de um passado. E esse passado encanta o presente. A questão é, você está pronto para saber quem você foi no seu passado?

- Pronto? Porque essa pergunta?

Minhas palavras saíram gaguejadas, separadas pela falta de compreensão e pelo medo do desconhecido que dominava minhas ideias.

- Há pessoas que escolhem acreditar em certas mentiras por não estarem prontos para saberem a verdade - disse o homem, em tom intimidador.

- E essa verdade está ligada com o meu passado?

O homem deu uma pausa, aproximando a mão em formato de concha do meu ouvido.

- Atreva-te.

- Como assim?

Perguntei assustado.

- Atreva-te.

Naquele momento meu coração começou a acelerar. Confuso e curioso não sabia o que dizer, só lembrava da placa que indicava a entrada do lugar.

- Eu já fui importante? Quem eu era? Quem eu sou?

Respondi em tom ansioso, olhando diretamente para o homem e esperando uma resposta que sanasse as minhas dúvidas.

- Atreva-te. Você é o que você já foi, o que você já viveu. Cada resposta tem uma verdade que renasce de tempo em tempo e cria outras novas verdades. O que eu ofereço é o meio para você perceber o que realmente está dentro de você.

Enquanto falava o homem colocou suas mãos para trás e voltou com um pequeno frasco, mirando o vidro em meu rosto e falando em tom intimidador.

- E então? Atreva-te?

Tomei o frasco para mim imaginando o que aquele líquido escuro poderia ser. Os poucos segundos que olhei para o frasco não me trouxeram respostas, mas uma sensação de encorajamento.

- Deite-te. Isso pode e vai ser forte.

- Mas como? O que?

Perguntei sem entender a fala do pequeno homem que pousava a mão sobre o meu ombro.

- Despreocupe-te, vem comigo - dizia o homem, apontando para a sala onde as outras pessoas estavam deitadas.

Não sei exatamente como me senti naquele momento, nem como me deixei ser levado por um ser estranho e curioso de voz mansa para um local desconhecido. A verdade é que eu estava em sinestesia pela curiosidade.

O homem me guiou a um sofá confortável, indicando onde deveria apoiar minha cabeça e pernas. O local era povoado por umas dez pessoas deitadas e dormindo. A maioria tinha no semblante um ar de tranquilidade e satisfação. Isso me tranquilizava um pouco. Mas nem tanto assim.

- O que eu vou sentir? Eu vou lembrar de alguma coisa?

- Deita-te e beba-te — ordenou o homem aproximando o frasco da minha boca.

Lembro bem da temperatura do pequeno vidro e do gosto amargo daquele líquido descendo pela minha garganta. Depois que bebi senti meus olhos virarem, minhas mãos tremerem e apaguei em pé mesmo.

Mas não estava dormindo um sono profundo. Era como se eu estivesse sendo transportado para um lugar diferente. E foi exatamente isso que aconteceu.

Eu via toda a minha volta se movimentando rapidamente. Era como se estivesse rebobinando uma fita cassete, percebia as mudanças do lugar que eu estava. Era óbvio que estava voltando no tempo. Mas até onde?

De repente parei. Estava sentado na escada de um prédio gigante enquanto via guerreiros dançarem e baterem suas espadas. Vi mulheres postadas em círculo tendo crianças paradas à sua frente. Cada uma segurava o que parecia ser um filho pelo ombro com uma das mãos e com a outra portava uma adaga de pequeno porte. O enredo dessas duas cenas era de uma celebração e não conseguia imaginar que aquilo, na verdade, era um ritual de sacrifício. Ou vários.

Arregalei os olhos quando uma das mulheres apunhalou a criança que estava à sua frente, deixando que essa caísse morta enquanto a mulher chorava e enfiava a mesma adaga na sua própria barriga. As outras mulheres do círculo não esboçaram reação, apenas olharam as duas pessoas cairem enquanto o sangue escorria e misutrava-se com a areia.

Confesso que não consegui olhar a cena. Virei a cabeça para o lado e fechei os olhos. Ao abrir, vi no horizonte um homem correndo e se debatendo. Apontei para ele e chamei a atenção de todos sobre essa pessoa que vinha em nossa direção. Os guerreiros ficaram em prontidão com lanças apontadas para a rota que o estranho chegava.

Quando ele estava mais perto percebemos que suas roupas eram iguais às dos nossos combatentes, o que nos deu tranquilidade para recepcioná-lo. O homem continuava sua maratona em nossa direção enquanto eu descia do local que estava para ficar mais próximo.

Pouco antes de encontrar os guerreiros e próximo a mim o homem caiu. Corri em sua direção e o tomei em meus braços. O homem tremia e tinhas os lábios secos e rachados, seus pés estavam sangrando e seu corpo estava encharcado de suor. Ele se debatia e sua boca estava aberta, como se quisesse falar algo. Aproximei meu ouvido da sua boca e pude escutar a palavra que ele queria dizer.

- Vencemos.

Após dizer a palavra, a cabeça do homem caiu para o lado e senti que sua respiração não saia mais.

Minha visão ficou embaçada e os prédios foram envelhecendo em um ritmo acelerado, as imagens iam se alterando enquanto eu estava na mesma posição. De repente tudo ficou escuro e eu acordei em um quarto antigo, sem mobília e só com uma cama. A batida na porta mantinha um ritmo frenético e um grito de ordem vinha de fora do meu quarto.

- Acorda, preciso de você.

Abri a porta e vi um homem segurando um candelabro todo apressado.

- Rápido, o homem precisa de nós. Vista-se.

Coloquei a roupa rapidamente e sai atrás daquele que me acordou. Esse ia falando sobre o que deveríamos fazer enquanto caminhávamos por largos corredores de pedra.

- Ele acordou gritando “In hoc signo vinces” para todo mundo. Disse que teve uma uma visão, que tudo ia dar certo porque Jesus ia nos ajudar. Não sei, mas acho que os cristãos fizeram a cabeça do Imperador. Rápido, pegue essa tinta aqui e venha comigo.

Saimos do prédio que estávamos e encontramos os exércitos parados e prontos para o combate. O homem que me acordou jogou um balde aberto de uma tinta avermelhada em minhas mãos. Dentro do balde havia um pincel já usado.

- Vai, pega isso, faz assim — disse o homem enquanto pintava dois traços retos, um na vertical e outro na horizontal, formando uma cruz no escudo de um dos guerreiros.

- Mas senhor, eu não sou cristão, eu não posso fazer uma coisa…

- Só faz, estou mandando — disse o homem gritando.

Em uma piscada tudo já havia sumido. Em outra fechada de olho vi que meu corpo estava girando. As mesmas mudanças nos cenários aconteciam ao meu lado. Mas, dessa vez, meu corpo girava e não parava. Imaginei que talvez fosse para um lugar mais distante. Quando parei, estava no alto de um morro. Olhei para baixo e vi uma cidade plana com poucos prédios altos. Dois me chamaram a atenção pelo volume que ocupavam. O maior eu percebia que era uma catedral com uma cúpula emponente e redonda que deixava todos os outros prédios sem destaque algum. O som dos sinos soaram freneticamente e as pessoas que estavam ao meu lado começaram a se agitar. Alguns seguiram a estrada em passos rápidos. Percebi que algo estava acontecendo e segui o fluxo das pessoas. Logo estava atravessando uma ponte repleta de joalherias e ourivessarias sem parar para aprecidar as jóias.

Da mesma forma segui pelas estreitas ruas até encontrar uma catedral enorme com suas três portas abertas e cheias de gente. Pude perceber que todos olhavam na mesma direção, acredito que esperando a chegada de alguém.

Me esquivei por entre a multidão e parei perto da porta principal com uma visão aberta de tudo que estava acontecendo. Meu rosto acompanhou os dois cavalos amarelos que puxavam uma pequena carruagem escura e pomposa. A porta lateral da carruagem estampava um símbolo com três pequenas espadas dentro de um círculo azul, as quais eram acompanhadas de pequenas esferas vermelhas dentro de um emblema dourado forte. De dentro do pequeno carro desceram dois homens com idade próxima dos 20 anos. As pessoas que estavam próximas estendiam as mãos como se os dois jovens fossem os anfitriões em sua própria casa. Eles, por sua vez, iam de encontro às pessoas com sorrisos largos e braços abertos, cumprimentando todos e falando algo que, de onde eu estava, soava agradável.

Continuei parado do lado da porta só observando os movimentos. Quando percebi, os dois jovens estavam do meu lado e um deles estendeu a mão. Fiquei imóvel, não sabia o que podia fazer e nem o que responder. O jovem percebeu a minha preocupação e abriu um sorriso ao mesmo tempo que esticava seus braços, pronto para um abraço.

- Um abraço é o que nos une?

Disse o homem sorrindo para mim.

- Toma esse então — disse um velho que surgiu do meio da multidão e abraçou o jovem próximo de mim por trás.

Não tinha entendido direito o contexto da fala e meu pensamento ganhou uma linha mais racional quando vi sangue empapar o chão e uma faca cair entre os dois homens que estavam envolvidos naquele abraço. Ao mesmo tempo que o homem da frente fazia uma cara de dor, o de trás sussurrou raivosamente em seu ouvido:

- Toma esse abraço. Uma lembrança dos Pazzi.

Meus olhos se arregalaram e fecharam.