Dia das Mães

Helena Villas Bôas

Palavras são gastas aos milhares na tentativa de expressar algo sobre o que significa ser mãe. Sobre o que uma mãe significa para os filhos.
 Não amei meu filho assim que nasceu. Ao olhar para aquele bebezinho enrolado em panos, retirado friamente de dentro de mim (processo do qual não participei, anestesiada, com minhas mãos atadas, olhando para a cortina improvisada que separava meu corpo em dois), só consegui pensar: que branquinho! Diziam que era meu, mas eu não sentia. Não sentia aquela alegria imaginada, o dia mais feliz, o mais importante da vida inteira…
 Foi um vínculo construído. Na dedicação exclusiva, intensiva, dolorosa, insone, exaustiva. Nunca mais estar sozinha. Um outro ser que só é outro aos poucos. Uma ligação visceral, simbiose que devagar vai amenizando, afrouxando o cordão, laços que vão se tornando mais fluidos, afetivos, menos concretos.
 Um filho é como um terremoto ou tsunami que varre o mundo da gente. Daquilo que se era ou do que se pensava ser, pouca coisa sobra. Agora não sou mais só eu e a vontade de voar de asa delta já ficou para trás. Existe um filho e ele não pode correr o risco de ficar sem mãe.
 Nada antes me preparou para esse sentimento de que a minha própria vida já não era mais prioridade. Ou de que eu já não era a prioridade na minha vida. Antes eu do que ele. Ficou doente e tudo que eu mais desejava era poder sofrer no lugar dele, absorver todas as dificuldades, doar minha saúde, me sacrificar por ele.
 Logo percebi que não era possível educar. Caíram cedo as ilusões de moldar outro ser humano como eu acreditava dever ser. O caminho se mostrou mais desafiador: educar-me. Aprender como ser melhor. Como honrar aqueles olhinhos sempre atentos, me percebendo melhor do que eu me percebia, absorvendo como norte a ser seguido a minha maneira de ser e estar no mundo. Imitando o meu jeito de fazer as coisas.
 Filhos, espelhos fiéis! E nesses espelhos a grande oportunidade. Para quem aceitar a missão: rever-se. Reconhecer-se. Acolher-se. Transformar-se.
 Acredito que são eles que nos ensinam. Quanto antes abandonarmos a ideia do controle, antes ficará para para trás uma boa dose de preocupação. Acompanhando o ritmo deles, observando, adaptando-nos, escutando, olhando… Com coragem para firmar nossa posição de guardiões, responsáveis, mas sem violência. A violência afasta nossos filhos de nós, cria cicatrizes que podem permanecer inconscientes, mas estão lá, influenciando. 
 Por que falaríamos com nossos filhos como não falamos com um colega de trabalho? A intimidade, como dizem, às vezes é uma m*, é verdade. Mas o poder é muito mais nefasto nas relações.
 Amor, respeito, conversa. Paciência. Muita paciência! E se o sangue subir à cabeça e fizermos besteira… quem nunca? Pedidos de desculpas. Colo. Aconchego. Somos humanos, temos fraquezas e logo eles saberão disso.
 Crescem rápido. Não acho que precisamos lamentar o tempo passado. A cada fase, uma nova descoberta, um novo prazer. Hoje com o mais velho adolescente, curto a companhia de um quase igual. Sou desafiada por ideias divergentes, pelos tênues limites entre cuidar e sufocar. Descobrir como estar atenta e disponível, mas confiando na pessoa autônoma que ele está se tornando.
 Minha menina, um pouco mais nova, ainda preenche mais meus dias de afazeres, planos, atividades, estudos, brincadeiras. Ainda me enche mais de abraços e beijos e chamegos e “te amos”. Mas já antevejo os sinais da mulher que vai chegar. Que chegue.
 Que venham os anos e as mudanças. Desde que eles vieram povoar minha vida, a vida mesma se multiplicou, se engrandeceu, ficou mais rica. Vamos continuar crescendo juntos, nos conhecendo e reconhecendo, compartilhando amor, sorrisos e lágrimas, nos apoiando. Tenho certeza de que qualquer idade será deliciosa, até que tudo se inverta, eu fique bem velhinha e eles tragam os netinhos para ouvir as histórias de quando eram crianças e enchiam a casa de movimento, barulho, brigas e gargalhadas.