Sobre aquários, Bala de Prata e saudade.

Desafio proposto no podcast Gente que Escreve 30- http://www.fabiombarreto.com/gqe/gente-que-escreve-030-easter-eggs/ -

Sentado na cama, mordendo nervosamente um doce, ele olhava para a luz do sol refletindo no aquário e iluminando o chão, os peixes coloridos atravessavam vez por outra o brilho que rasgava o aquário.

Odiava aquele aquário, a última coisa que ainda trazia lembranças dela. Toda vez que via aquela caixa de vidro no canto do quarto sentia saudade, do cheiro, da presença, da voz, de tudo o que ela representava na vida dele e aquele aquário era tudo o que restava.

Já tinha se livrado de todas as lembranças: fotos, cartas, mensagens de celular e até a calcinha dela que ele guardava com tanto amor, faltava o maldito aquário.

Aquário caro, peixes caros, lembrando do dia em que comprou mordia mais nervosamente o doce em sua boca, presente de aniversário para ela, se arrependeu algumas vezes, mas ao ver o sorriso e o brilho no olhar de sua mulher se sentiu bem, feliz, realizado, mas quando ela partiu não quis levar.

- Tem muito de você nele! Fica, faz bem pra você e combina com sua casa. Disse ela antes de partir mastigando o maldito doce, Bala de Prata, que ela tanto amava.

Então aquele era o dia em que ia deixar tudo para trás de vez, acordou cedo, tomou café na padaria da esquina, passou na birosca, comprou a Bala de Prata e voltou para casa, sentou na cama e estava ali apreciando o momento, transformando saudade em ódio e pronto para partir, vendeu o apartamento com praticamente tudo dentro um dia atrás, inclusive o maldito aquário.

Levantou, engoliu o que restava da bala em sua boca, se dirigiu até o aquário e despejou o resto das balas de uma vez só dentro do aquário, jogou o pacote no lixo e partiu, deixou para trás de vez, a Bala de Prata, os peixes, a casa e principalmente a ideia que restava em sua cabeça do que era ela.