Brinquedos e a barreira de gênero.

Fotografia de Adrian McDonald

Recentemente a discussão acerca da relação entre brinquedos, gênero e sexualidade têm aumentado nas redes sociais e há um tempo tenho tentado estabelecer certo diálogo a respeito desse tema tão lançado às chamas da ignorância.

Antes de mais nada, preciso dizer que elegi a infância como campo de pesquisa de minha graduação e que tive o prazer de trabalhar com a primeira e tão importante fase da vida, a transição de um bebê para a infância. O que quer dizer que tive contato direto com os pequeninos na faixa de um a dois anos. Dediquei um ano de minha vida a observá-los brincar, aprender e a fornecer cuidados de saúde, alimentação e higiene.

No decorrer de um ano em meio à brincadeiras com bonecas, carrinhos, peças de montar, massinhas e atividades pedagógicas não encontrei qualquer sinal de que um menino com um boneca no colo está sofrendo imposições de uma sociedade corrompida — muito pelo contrário, um menino com uma boneca estava simplesmente sendo uma criança com uma boneca debaixo do braço de olho em outros vinte brinquedos espalhados pela sala, bem como uma menina com um martelinho não passa outra ideia além de ser uma criança batendo na parede ou no chão. Talvez estivessem sendo pais, mães, engenheiros ou engenheiras, motoristas de fórmula 1, cozinheiros ou cozinheiras. Talvez estivessem simplesmente brincando, sem se importar com o cor de rosa ou o azul. Digo talvez, pois não há limites conhecidos para a imaginação.

Brinquedos não são barreiras de gênero que por sua vez não define sexualidade. Há uma diferença enorme entre gênero e sexualidade que grande parte da sociedade insiste em desconhecer. Gênero, de forma muito resumida e superficial, é como nascemos, como nos identificamos. A sexualidade também de forma resumida, pois é algo amplo e abrangente que engloba muitos fatores e que dificilmente vai se encaixar em uma definição única e absoluta, é por qual gênero nos sentiremos atraídos sexualmente e/ou afetivamente. É como sentiremos e exploraremos nossa humanidade, é parte fundamental do ser não podendo ser escolhida ou forçada por meios externos.

Vivemos em sociedade, vivemos uma cultura. Nossos hábitos, gestos e gostos não são necessariamente pessoais. É difícil quando olhamos nossas vidas e percebemos que vivemos imposições culturais e a máscara da ignorância não pode prevalecer. Nossa cultura, infelizmente, preza pelo sistema de encaixotamento desde a infância. Entramos em lojas de brinquedos e encontramos sessões com placas enormes nos orientando a seguir o corredor dos meninos e o corredor das meninas. A placa rosa com borboletas, nos leva a bonecas, versões infantis de geladeiras, fogões e tábuas de passar. A placa azul com bonés e bolas nos leva à kits de construção, carrinhos e super heróis. Se uma criança do gênero feminino se interessa por um carrinho, somos condicionados a desaprovar. Ao fazer isso estamos simplesmente dizendo “você é uma mulher e deve aprender desde cedo a exercer atividades domésticas e a ser mãe” ou “você é um menino e não precisa saber o que é uma panela, você deve se concentrar em carros e em salvar o mundo”, quando na verdade, todos deveriam saber o que é ser pai, o que é ser mãe e a salvar o mundo.

Deixem as crianças em paz. Deixem que sejam livres para brincar, imaginar, se desenvolver. Cuidem para que sejam seres humanos felizes e esqueçam a ideia de que elas são seres incompletos. Uma criança está no mundo a menos tempo que um adulto, é verdade. Uma criança precisa ser cuidada, amada, educada e respeitada sem perder seu direito fundamental de viver. Assim como nós estamos sempre nos desenvolvendo, elas também estão. Se todos nós acreditamos em um mundo de mais respeito, comecemos por nós mesmos, adultos de hoje, destiladores de ódio. Crianças só querem ser crianças. É difícil viver em um mundo completamente novo e desconhecido e fica ainda mais complicado quando se tem nas costas o peso de transformar esse mesmo mundo enquanto presos em caixas rotuladas.

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