Por que sua TV não conversa?
(perguntas que meus filhos me fazem)
Estávamos assistindo a um documentário e meu filho menor se mexe, contorce. Eu pergunto o que ele tem, já esperando o indício de uma nova virose ou dor de barriga.
– Por que o moço não fala com a gente?– ele se refere ao narrador do programa.
– Estão mostrando uma época antiga da História. – eu digo.
– Mas a Dora sempre me pergunta coisas… esse moço não fala comigo…
Bem, pra ser sincera, um canal de história antiga dificilmente vai falar com uma criança de 4 anos. Então é justa a queixa dele. Não dá para ele entender e se interessar. O único fato que chamou sua atenção foi a existência de pessoas mais velhas do que sua avó. Há muito ainda para meu filho aprender. Por exemplo, ele ainda não entendeu a diferença entre amanhã e ontem. Invariavelmente ele diz que ontem ele vai no parque. Tento corrigir, mas ele fica bravo e diz que ele quer SIM ir no parque ontem! E o caso se encerra.
Estou divagando.
Por que a TV não fala com adultos. Essa é a questão.
Então. Seria uma boa?
E aqueles programas de comédia, do tipo Stand-Up? É uma forma de conversar? Não, acho que não. E como dizia o Ariano Suassuna, é muito palavrão de pouca qualidade. “Eu sei bem mais e sortido”, ele completava.
Lembrei agora e acho que você já se lembrou também. Há o famoso “boa-noite” que os telejornais dizem e que os espectadores costumam responder. Vi uma pesquisa em algum lugar afirmando que a maioria das pessoas responde. “Boa-noite”, a TV diz. “Boa-noite”, respondemos.
Mas antes de contar a meu filho, eu resolvi assistir os desenhos com ele.
Notei que os desenhos dele falam mesmo com ele. Não apenas pedindo para “contar junto”, ou “somar”, ou “encontrar algo”, mas realmente trazendo um conhecimento novo, uma história que aumenta o universo dele.
O que assistimos na TV que enriquece nosso universo?
É uma pergunta retórica, mas vocês podem responder sim.
Em um almoço com minha irmã e um ex-namorado dela, surgiu essa questão. E o ex-namorado logo disse que a TV era um amontoado de porcaria sem sentido, que ele adoraria assistir algo que, por exemplo, ensinasse literatura ou matemática. Mas isso existe, eu disse e comentei que eu mesma já havia aprendido algumas falas de alemão assim.
O ex-namorado não acreditou. Quis saber o canal, e quando soube ser na “TV Cultura”, ele bufou um “só passa chatice”.
Meu filho não acha chatice quando a menina na TV o ensina uma sequência lógica. Mas claramente iríamos dormir se a TV nos mostrasse uma função logarítmica. Ou não?
Ariano Suassuna tem outras máximas ótimas. Quando perguntaram a ele por que o povo gostava de tanta porcaria na música, na TV e de forma geral na cultura, ele respondeu “dizem que cachorro gosta de osso. Osso! Deem um filé para ver se ele não come. O povo come osso porque é só isso o que dão a ele”.
Eu amo Suassuna.
Desculpe, divagação. (mas ele que me espere no além-vida)
Enfim, é isso não é? A TV poderia, sim, falar com a gente, com os adultos, bem mais do que “bom-dia” ou “boa-noite” ou aquela infindável programação merrecas da manhã e da tarde na TV aberta. Quem precisa fofocar por quatro horas seguidas? Ou ver celebridades pop discutindo argumentos acéfalos em política e economia? E quem precisa de tanta desgraça, acompanhar perseguições policiais, analisar o local em que a bala se alojou no crânio da vítima? O que essa TV aí falaria com a gente? Eu, sinceramente, não gostaria de escutar.
O que gostaríamos de escutar?
Não sei quanto a você, mas eu amo documentários. Gosto dos de literatura, do espaço, de história. Eu aprendo com eles. É uma forma de me enriquecer e entreter. Colocando dessa forma, temo que me faça parecer presunçosa. Mas, pense, você não gosta de nada, nada, nada educativo que a TV possa oferecer? Um bom filme sobre uma personalidade, ou sobre um fato do passado, também nos ensina algo sobre história e entretém.
A TV fala o que acha que a gente gostaria de escutar. Mas ela não pergunta nossa opinião, não como os desenhos de meu filho.
E a TV paga, você me pergunta? (sim, eu sou telepata).
A TV paga nos oferece uma grade maior. Há como escolher e selecionar exatamente o que se quer assistir. Daí, somos nós quem falamos com a TV?
Vamos parar com isso. Não existe isso de a TV falar com a gente. Somos adultos e sabemos bem disso. Eu pego o controle, aperto On e vou trocando os canais até achar algo que me faça rir.
Isso não é de todo mau.
Oscar Wilde tem uma frase que diz “É o que você lê quando não tem que fazê-lo que determinará o que você será quando não puder evitar”, ou, em miúdos, “você é o que você come”.
Por que o conhecimento é um fardo quando ele é tão interessante? Assim como meu filho de 4 anos não entende noções de tempo, nós adultos não entendemos como seguir adiante? Qual é o nosso limite? Meu filho logo irá entender que “amanhã” ele pode ir ao parque. Ele vai dar o passo seguinte.
A escolha sempre repousa em nós mesmos. Assistir isso, ver aquilo, é nossa escolha. Ariano diz que só nos jogam osso, mas e se não for bem assim? E se nós estivermos roendo osso apenas para não ter de levantar e sair do lugar e procurar por algo melhor? Ou fazer algo melhor?
Antes de jogar pedra na TV, na literatura, na música, na cultura (e daí pode seguir adiante substituindo pela palavra que mais lhe agradar), por que não indagamos a nós mesmos: O que queremos? Onde procuramos? O que fazemos?
Acho que a TV um dia vai sim falar com a gente. É a tecnologia, não? Minha avó nunca aprendeu a conversar pelo telefone. A tecnologia vai sempre nos surpreender. Mas imagine, um dia, foi o telefone quem se surpreendeu ao ver que alguém o criava.
Vamos, então, surpreender. Vamos descobrir e criar o que realmente queremos.
Boa-noite!