Precisamos de luz

Erica Bombardi
Jul 25, 2017 · 3 min read

Escutei uma palestra em que três escritores debatiam vários tópicos. Um dos escritores fez uma pergunta: por que o vilão nunca vence? Se é justamente o vilão quem faz os mais mirabolantes planos, se é ele quem executa as maiores ideias para a dominação do mundo? Será que ele não poderia vencer alguma vez? Para justificar todo o empenho que ele teve?

Todos se calaram e mudaram de assunto.

Eu ainda penso nisso.

Quem é da minha geração sabe qual foi a sensação de se assistir ao episódio de Guerra das Estrelas em que Luke perde a mão, em que todos os planos dos rebeldes dão errado, em que o “mal” vence. O episódio é O império contra-ataca, lançado em 1980. A continuação, em que a reparação é feita, em que a justiça do “bem contra o mal” é reparada, foi ao ar apenas em 1983 muito brevemente, e em 1997 de uma forma mais extensa. Foram três anos esperando para que o bem triunfasse (eu apenas vi em 1997). Parece pouco. Sim, parece pouco. Mas a sensação, minha particular sensação, foi péssima. Uma angústia extrema.

Existe algo dentro de nós que exige, que precisa dessa reparação. Existe algo dentro de nós que exige a justiça.

Ao pensar na arte, pensamos em fazê-la de forma que seja livre. Mas, por vezes, muitas vezes, damos vazão a um sentimento que geralmente choca, que vai ao extremo do sentimento para mostrar seu avesso. Apresentar a monstruosidade para se pensar sobre a humanidade. Eu entendo.

Mas também entendo que precisamos do belo, do bom e da justiça.

Por isso vibramos em histórias em que o herói e a heroína vencem os obstáculos, em que é restabelecida a luz e a bondade. Vibramos com a luz. Talvez seja pelo fato de o herói responder a um trauma com uma ação, seja a luta, seja a fuga à luta. Mas o herói não se imobiliza, não se congela. O movimento dele, mesmo que diretamente não repare todos os problemas, é o bastante para iniciar o processo que conduz à vitória. A vitória do “bem” sobre o “mal” talvez apenas signifique que não devamos nos abster de uma ação, que não devamos ser indiferentes. Talvez, em contrapartida, a vitória do “mal” sobre o “bem” signifique não a vitória do “mal” sobre o “bem”, mas a indiferença, que é, ela sim, o avesso de qualquer humanidade. A indiferença é algo com o que não podemos lidar, um estado em que não podemos odiar nem amar. É a conflagração do não sentir, de não ser humano. Nem mesmo uma pedra é indiferente, ela reage e age no ambiente em que está. O conflito nos chacoalha, o pânico nos chacoalha, exigindo que saiamos do estado de indiferença. A vitória do “mal”, nas histórias, nos atinge com esse pavor maior, o da desumanidade.

Acho que me perdi por aqui.

Apenas acho que as histórias que contamos, principalmente para crianças e jovens, têm de ter valores de luz que prevaleçam.

Cecília Meireles diz em seus Cânticos que todas as coisas esperam pela luz mesmo sem saber se ela existe.

Eu espero pela luz. Você espera pela luz.

A luz existe. Nós temos de lembrar isso e nos lembrar disso.

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