A Fantasia da Apropriação Cultural

Nesse Carnaval, não se preocupe. A polícia do adereço não vai te prender.

Divulgação: Bloco Domésticas de Luxo

Em 2016 a página Interseccionalizando fez no Facebook uma postagem sobre o Carnaval e as fantasias comumente usadas nessa época. Longe de ser proibitivo, o post convidava a uma reflexão sobre a possibilidade de se abrir mão de objetos que, para alguns grupos étnicos ou religiosos, possuem significados mais complexos do ser que um simples ornamento. De lá para cá, um factóide sobre o uso de turbantes e a proximidade com o novo período de Carnaval reacenderam a polêmica sobre apropriação cultural, mas, apesar de muito falar-se sobre o assunto, conceitos fundamentais para o debate, ao que parece, permanecem turvos.

Impossível debater antes de aprender

Falar em apropriação cultural nas redes sociais significa provocar, de imediato, mais reação que reflexão. O fato é que pessoas brancas, sobretudo de classes mais abastadas, não estão acostumadas a verem seus hábitos questionados e toda ação no sentido de investigar privilégios é inevitavelmente recebida com enorme backlash. Backlash é o tensionamento das relações sociais que ocorre a cada vez que a sociedade tenta se reconfigurar. É um conjunto de ações que visam conservar o status quo e limitar o avanço de posturas progressistas.

Entre as formas mais comuns de backlash estão a ridicularização, a depreciação e a violência. Mas, entre os que riem e transformam o assunto em piada, os que acham que o debate é falta do que fazer, os que esperneam como se estivessem diante da mais aviltante proibição—quando estão, meramente, diante de um ponto de interrogação— há em comum a falta de informação e a falta de escuta. Vamos tentar, portanto, ajudar a resolver o primeiro dos problemas, o da informação, desembaraçando conceitos que nem sempre ficam claros.

E aí, o que é cultura?

Cultura é um termo bastante amplo, e refere-se às práticas, crenças, idéias, valores, tradições, rituais, linguagem, discurso, objetos materiais, e performances que dão personalidade a um determinado grupo social. A cultura é objeto de estudo de diversos campos de conhecimento tais como Sociologia, Antropologia, Teoria Cultural e Psicologia Social. Nenhuma dessas áreas é dona de um conceito último e inequívoco do que é cultura e mesmo dentro de cada uma delas há pensamentos divergentes ou que sofreram mudanças através da história.

Ao longo dos tempos a idéia de cultura foi deixando de lado a noção de acúmulo de conhecimento e passou a se ligar ao mundo das idéias, no qual uma série de significados simbólicos são transmitidos e podem fazer, por exemplo, com que um mesmo objeto, dependendo do contexto social onde ele está inserido, tenha vários entendimentos diferentes, de acordo com as visões de mundo dos sujeitos.

Mais recentemente, com as contribuições de estudiosos chamados pós-colonialistas e da teoria social de Bourdieu, começou-se a desfazer o mito do multiculturalismo, uma visão um tanto limitada, segundo a qual culturas diversas se encontram, se misturam e se influenciam mutuamente como num grande caldeirão cultural. Passou-se, finalmente, a entender que a produção e a assimilação da cultura não se dá de modo homogêneo para todos os indivíduos nem todos os grupos sociais. Ao contrário, a cultura está sujeita a relações de poder, desigualdade e dominação nas quais um grupo elege o que é a boa cultura, valorizando-a, e a má cultura, que é, então, apagada ou confinada a um status inferior.

Fonte: Bourdieu e a Educação- Atta Mídia

Isso é mais perceptível em países colonizados, nos quais a cultura dominante, a do colonizador branco europeu, foi considerada evoluída e civilizada, ao passo em que as culturas nativas viraram sinônimo de primitivo. A consequência para indivíduos é a extrema diferença em capital cultural, ou seja, alguns ganham ao pertencer ao grupo cuja cultura é valorizada enquanto muitos perdem porque os saberes e símbolos do seu grupo não são considerados algo que tenha valor. Num contexto escolar, por exemplo, vemos claramente quais conhecimentos são privilegiados: crianças cujos pais tem o hábito de ler, ir a museus, ouvir um amplo repertório musical tem as ferramentas para se destacarem, enquanto o saber de uma criança vinda de uma tribo (transmitir oralmente as histórias de seus antepassados, fazer pinturas corporais ou criar objetos) resultam em marginalização. Portanto, a dinâmica de contato de uma cultura com a outra vai ser marcada por essa desigualdade.

Identidade, Alteridade e Apropriação

Tem gente que diz não acreditar no termo apropriação cultural, visto que cultura não é propriedade. Mas, em estudos culturais, a gente nem fala de apropriar-se em um sentido tão literal assim. Apropriar-se tem muito mais a ver com o forma como construímos identidade e alteridade, ou seja, o modo como definimos aquilo que nos é próprio e singular e diferenciamos, por oposição, daquilo que é o outro.

O entendimento fica mais fácil se a gente desvincula o conceito de apropriação desse sentido de roubo cultural e entende simplesmente como tornar parte da nossa identidade algo que é do outro. E é isso que a cultura ocidental fez com as culturas ditas subalternas porque, como vimos antes, quem domina tem o poder de escolher o que é a boa cultura, o que fica dentro e o que permanece fora.

Então, nem é preciso se reforçar a concepção de que a cultura circula e não pertence a um único grupo; basta reconhecer que os encontros entre diferentes culturas são marcados por diferenças estruturais de poder. Sim, existem elementos de um grupo que serão assimilados pelo outro e existe a possibilidade de fusão e enriquecimento para ambos os lados, mas o fato é que somente um grupo tem o poder de eleger o que é bacana, o que é feio, o que é motivo de aceitação ou de exclusão social.

Cuidado com a pizza, o sushi e a abobrinha

Para falar sobre a desigualdade na interação entre culturas de modo construtivo é preciso, portanto, parar de disseminar desinformação. Como já deu para perceber, quando alguns grupos demandam respeito com seus símbolos, eles não o fazem somente por achar que aquilo lhes pertence, mas porque sabem que o uso indiscriminado pelo outro acentua o desequilíbrio dessa relação.

Fazer a distinção entre o que é aprovado ou estigmatizado pela cultura dominante requer somente observação . Falar inglês, alisar o cabelo, comer pizza e sushi, usar bota de cowboy e colar de havaiana jamais serão motivo de contenda no debate sobre cultura simplesmente porque esses hábitos e objetos não passaram por contextos históricos de discriminação e opressão. Em contraponto, mulheres mulçumanas são atacadas e privadas do direito de usarem seus hijabs; candomblecistas são apedrejados ao usar turbantes, povos indígenas são massacrados dentro e fora de suas reservas enquanto suas cerâmicas decoram casas de bom gosto.

Em todo caso, se porventura a informação e a observação não forem suficientes para nos dar pista de como identificar um objeto que seja símbolo de resistência cultural, basta exercitar o que falamos anteriormente: a escuta. Até recentemente era quase impossível ouvir, no espaço público, a voz de grupos oprimidos pleiteando seus direitos e ressignificando símbolos através de um viés político. Mas eis que essas vozes agora chegam, por via das mídias sociais, em tentativas de resgatar o respeito há muito subtraído de sua cultura. E tudo que temos que fazer é nos abrir para essa escuta sem birra e reatividade, sem delimitar o que o outro tem que dizer ou qual o modo correto de se expressar.

Quando, por exemplo, pessoas negras reivindicam o turbante como símbolo de luta, além do escárnio e da desconsideração exercidos pelos reativos, elas se deparam com a condescendência de quem lhes tenta explanar aqueles mesmos símbolos por um ponto de vista estático, engessado. Esse tipo de ausência de escuta faz com que nos deparemos com longas explicações sobre a origem do turbante na Pérsia e seu uso através das civilizações, ponto de vista que desconsidera completamente o fato de que significados são dinâmicos e mudam no tempo e no espaço.

Tambores do Olokun- Fonte: Mídia Ninja

O jeito mais simples de percebermos essas mudanças é fazendo um paralelo com a linguagem: quando alguém fala “rival” entende-se “competidor”e não “pessoa que mora do lado de lá do rio e com a qual se disputa a água de beber”. Então, quando o movimento negro brasileiro fala de turbante, ele está falando de um objeto ressignificado, imbuído de um contexto político e histórico, algo que no aqui e no agora representa uma luta anti-racista. Ou, quando outros grupos falam de seus cocares, hijabs, keffiyehs, o assunto de verdade não são esses objetos, mas racismo, genocídio, islamofobia e outras opressões estruturais que eles simbolizam.

Fantasia ou devaneio?

Todo esse texto, até aqui, foi um convite à reflexão, processo que só ocorre quando abandonamos as reações imediatas— aquelas através das quais o backlash se manifesta— e buscamos conhecimento.

Agora que já falamos sobre desigualdade de capital cultural e fizemos a distinção entre objetos que foram ou não ressignificados como símbolos de resistência, falta falar de uma última palavra: fantasia.

No post original falava-se de fantasia como sinônimo de vestimenta alegórica. Porém, quando o assunto é apropriação cultural, a grande fantasia é outra e tem sentido de invenção, ficção, devaneio, coisa sem ligação com a realidade. Pois bem, nesse sentido último, a grande fantasia da classe média branca brasileira é a de que repensar o uso de determinados objetos equivale a uma polícia de costumes.

Na realidade, sabemos muito bem, se essas pessoas quiserem usar elementos símbolo de outras culturas, elas continuarão a ter, como nos últimos séculos, toda a liberdade de fazê-lo. Ninguém vai impedi-las, pois os grupos oprimidos continuam a ser subjugados. A imensa maioria das culturas dominadas não está na internet fiscalizando enfeites de cabeça ou lutando para ser protagonista em local de fala, mas nas periferias lutando por seu direito à vida.

Então, se não quiserem abrir mão da sua fantasia-roupa, abandonem, pelo menos, a fantasia-devaneio que transforma, nos ouvidos pouco acostumados à reflexão e autocrítica, questionamento em proibição. E assim, despidos de reações descabidas e munidos de mais informação e escuta, talvez alguns entendam: não dá para mudar o mundo se nos recusamos a mudar a nós mesmos. Por aqui, a gente continua com a fantasia_ agora no sentido de sonho e imaginação— de que essa mudança é possível sim.

Leitura Sugerida: