Margaret Atwood : O Conto da Aia, a Marcha das Mulheres, direitos de pessoas trans e mais

Embora O Conto da Aia tenha sido originalmente publicado em 1985, as vendas do romance distópico dispararam desde a eleição de Donald Trump como presidente — e por uma boa razão.

Ilustração: Raymond Wong

A obra, assustadoramente visionária, se passa em uma teocracia patriarcal chamada Gileade. As mulheres em Gileade tiveram todos os seus direitos suprimidos e as poucas ainda férteis foram forçadas à escravidão sexual para gerarem os filhos da classe dominante. Nessa sociedade sombria, sacerdotes, freiras, feministas, rebeldes e todos que não se conformam às normas tradicionais de gênero ou sexo são severamente punidos, seja sendo banidos para as colônias ou enforcados em público. Por menos plausível que a história possa parecer, a autora insiste que seus exemplos tem origem eventos históricos reais. E mais, mesmo antes de Trump ter sido eleito em novembro passado, Margaret Atwood disse ao jornal britânico The Guardian que, diante do clima desenfreadamente misógino, racista, homofóbico e transfóbico em torno da campanha de Trump, seu romance estava “se desdobrando à frente de seus próprios olhos.”

A “ficção especulativa” de Atwood, como ela mesma se refere ao tema de suas obras, ganhou diversos prêmios literários. O Conto da Aia, em particular, tem sido tema de inúmeras teses acadêmicas e foi até banido de uma escola secundária no Texas por ser “sexualmente explícito e ofensivo para cristãos”. E, embora o livro tenha sido adaptado para o cinema em 1990, para uma ópera, um balé e uma história quadrinhos a ser lançada em agosto, foi a adaptação para a série de TV, no ar desde abril de 2017, que consolidou definitivamente a obra da autora tanto na cultura popular quanto no zeitgeist político.

Contando com Elisabeth Moss, de Mad Men, no papel da narradora e protagonista Offred; Samira Wiley, de Orange Is The New Black, como Moira, melhor amiga de Offred de um tempo anterior à transformação forçosa de ambas em aias; e Alexis Bledel, de Gilmore Girls, como Ofglen, uma aia da qual Offred se torna próxima e a qual, mais tarde, é cruelmente punida por inconformidade de gênero, a série lança — como fazem todas as boas distopias — um espelho diante dos problemas de nossa sociedade e faz soar o alarme para que possamos acordar e nos mover, antes que seja tarde demais.

Elizabeth Warkentin encontrou-se com Margaret Atwood — que prestou consultoria para a produção da série — para conversar sobre suas considerações sobre essa mais recente adaptação de seu livro, sua inspiração para a história e por que O Conto da Aia é mais relevante do que nunca na era Trump.

Photo: Getty Images

Elizabeth Warkentin: Como você está se sentindo a respeito dessa adaptação televisiva?

Margaret Atwood: Estou me sentindo bem estranha porque, quando começamos a trabalhar na adaptação, Trump não havia sido eleito. Mas, desde que ele foi eleito, ocorreu um aumento enorme no interesse do público. Dá para traçar um gráfico. Subiu vertiginosamente. Havia um meme, na época da eleição, em que as pessoas diziam: “Não torne a ficção de Margaret Atwood realidade”, mas na Marcha das Mulheres …

EW: Você foi à Marcha?

MA: [risos] Sim, em Toronto. Até coloquei um chapéu rosa. Eu não fiz um chapéu, preciso confessar que não tricotei um, mas usei um. Na marcha estavam carregando cartazes que diziam: “Tornem Margaret Atwood apenas ficção novamente”, “O Conto da Aia não é um manual de instruções.” Foi muito poderoso.

EW: Voltando para quando você escreveu o livro, você pode falar sobre o que o inspirou? De onde você tirou suas idéias?

MA: A inspiração veio de três fontes diferentes. Primeiro, o puritanismo americano do século XVII. Por isso eu situei a história em Harvard, que começou como um seminário teológico —havia esse pano de fundo conveniente. Desse modo, cada edifício do livro tem seu correspondente na realidade, exceto o que eles usaram para a casa do Comandante, que desde então foi derrubada. Todos eles, estão todos lá. Harvard não achou muito divertido no início, mas, eventualmente, eles aceitaram. Também tinha o lado interessante de colocar um regime totalitário não apenas num antigo seminário teológico, mas em um lugar que, no presente, é considerado um bastião da democracia liberal. Tudo pode ser readaptado. E foi. Tudo pode acontecer. Eu, na minha idade, jamais acreditei que aquilo não poderia acontecer aqui e agora, porque qualquer coisa pode acontecer em qualquer lugar, dependendo das circunstâncias.
Então, essa era uma fonte. A outra era a minha extensa leitura de ficção científica e distopias, a maior parte das quais, naquela época— como 1984 — tinha protagonistas masculinos. Eu pensei que seria interessante olhar para tal sociedade do ponto de vista de uma protagonista feminina.
E a terceira coisa foi o que, desde aquela época, já se via nos jornais, e que eu cuidadosamente recortei e pode ser encontrado no arquivo de clippings do Conto de Aia na Biblioteca Thomas Fisher Rather, da Universidade de Toronto. Pessoas irritadas com o feminismo, o que essas pessoas fariam se tivessem poder. E eu realmente acredito que essas pessoas fariam tais coisas se fosse dado poder a elas.

Como eu não ia colocar nada no livro que não houvesse de fato acontecido, fiz muita pesquisa. Coisas como poligamia, leis de asilo político, leis sobre mulheres e todo esse tipo de coisa, mas também o que as pessoas diziam que fariam se tivessem poder. Está tudo lá. Naquela época as pessoas diziam: “Ah tá, isso nunca vai acontecer.” Eu jamais afirmei: “Isso nunca vai acontecer”. As reações ao livro, nos anos 80, quando eu estava escrevendo, foram produto de um tempo de retrocesso e resistência ao feminismo dos anos 70.

EW: Você pode falar sobre por que você decidiu situar a história nos Estados Unidos em vez do Canadá, onde você cresceu e onde mora atualmente?

MA: O Canadá não é, como vimos recentemente, uma conquista fácil para um regime totalitário. Primeiro, porque é muito diversificado, então você não consegue colocar todo mundo na mesma sintonia. Você não conseguiria ter um número suficiente de pessoas apoiando esse tipo de coisa. Seria preciso uma população de pelo menos um terço de fiéis de verdade. Ou de oportunistas. Eu devo dizer que a oposição seria muito forte em Quebec. O Canadá é, historicamente, o lugar para onde se escapa. Então, é por isso que é pra lá que as pessoas fogem n’O Conto da Aia. Mesmo nesse momento as pessoas estão fugindo, seguindo um padrão histórico.
Você sabe, tem coisas que a gente não inventa. Quero dizer, se alguém inventa, as pessoas pensam: nossa, que pessoa torta e obscura. Ao passo em que eu sou uma pessoa alegre e feliz. Então, está tudo na história. Tudo já aconteceu de uma forma ou de outra.

EW: Como as personagens chegaram até você? Como você desenvolveu a personagem Offred?

MA: Pois bem, algumas pessoas me perguntam: por que Offred não é mais resistente? Por que ela não é assim, por que não é assado? Eu fiz minha pesquisa. Me perguntam por que eles não tinham mais protestos. Bem, regimes totalitários e autoritários executam manifestantes. Te dou como exemplo a Praça da Paz Celestial. A Primavera Árabe. Te dou a Alemanha nazista, onde protestos foram sufocados de maneira implacável e brutal. Aí eu te convido a se juntar a um grupo de resistência chamado Rosa Branca. Você sabe o que aconteceu com os membros da Rosa Branca? Eles foram pendurados em ganchos de carne, basicamente. Sobre a cena do padre pendurado na parede, eu te dou o Diálogo das Carmelitas. Então, de uma hora para outra, resistir não é mais uma opção. Teria que haver, em vez disso, um movimento secreto, como tem sido historicamente. Haveria uma “ferrovia subterrânea” (uma rede de esconderijos usados por negros escravizados nos Estados Unidos com o objetivo de escapar para a liberdade no Canadá). Os Quakers estariam envolvidos, como eles estavam época da escravidão. As mulheres não poderiam ler, assim como não era permitido aos escravos, era ilegal. Então, tirei meus exemplos de coisas reais que aconteceram. E um regime assim suprimiria outras religiões.

“ Hoje a intolerância é direcionada principalmente a pessoas transgênero. A razão de algumas pessoas se incomodarem tanto, eu te digo: é porque a transgeneridade desafia os papéis delas. Se existem indivíduos que, no entendimento de alguns, podem mudar de ser homem para mulher ou mulher para homem, o que isso as torna? Onde é que fica sua autoridade? Quando as coisas são incertas, isso deixa algumas pessoas muito inseguras.”

EW: Há uma cena, no início da série, que prenuncia algo que será revelado mais tarde. Nela Ofglen pergunta a Offred se ela gostaria de caminhar ao longo do rio, no caminho de volta para casa depois de seus afazeres. Ofglen quer ver o Muro onde as autoridades exibem os corpos dos que foram executados. Quando eles chegam ao Muro, Ofglen é atraída pelo cadáver pendurado de alguém que era LGBTQ. Você pode falar sobre essa cena e como você acha que ela se encaixa em eventos atuais e na cultura contemporânea?

MA: Claro. Traição de gênero. É por isso que Ofglen é perseguida na série de TV. E, no presente, existem pessoas escrevendo coisas assim. Elas estão fazendo isso nesse exato momento! É principalmente direcionado a pessoas transgênero e não se usa a palavra “traição”, mas o fato é que existem pessoas que simplesmente não toleram isso. Você viu o que a administração Trump tem feito para revogar os direitos das pessoas trans. E, se você quer uma opinião sobre a razão de algumas pessoas se incomodarem tanto, eu te digo: é porque isso [a transgeneridade] desafia os papéis delas. Se houver alguém que, no entendimento dessas pessoas, pode mudar de ser homem para mulher ou mulher para homem, o que isso as torna? Onde é que fica sua autoridade? Quando as coisas são incertas, isso deixa algumas pessoas muito inseguras.

TV: Você vê Gilead como uma metáfora para outros lugares, outros tempos?

MA: Bem, sim, outros espaços e tempos são a minha matéria-prima. Então, é claro que eu busquei tudo que eu pudesse encontrar sobre totalitarismo. Por exemplo, a Romênia de Ceauçescu, onde ele tentou implementar o parto obrigatório com resultados horríveis, porque ele forçou o parto de mulheres que não tinham condições de sustentar seus bebês. E eu preciso mencionar isso, você sabe, porque é exatamente o que o regime Trump acabou de fazer ao cortar o financiamento de programas de saúde para mulheres grávidas. Gilead seria melhor do que isso. Ao menos lá elas receberiam alimentação adequada. Eu não estou brincando. Estão impondo o parto a mulheres que não conseguem sequer comer dignamente e que, em seguida, não conseguirão pagar as despesas médicas para terem seus bebês, então, o que vamos ter? Vamos ter muitas pessoas mortas. Eu acho que vai haver muito protesto em relação a isso. Certamente espero que haja. Pode aguardar. Alguém vai ter que começar um serviço online de contagem de corpos de mulheres que morreram porque não tiveram acesso a serviços de saúde ao parir.

EW: Uma vez que as mulheres em Gileade não tem direitos, elas não podem fazer trabalhos remunerados, possuir propriedade ou ter contas bancárias. Isso culmina em uma cena em particular, na qual o cartão de débito de Offred é recusado. O que você espera que telespectadores e leitores percebam nessa mensagem?

MA: Eu não sei se você lembra quando houve aquele grande vazamento do Wikileaks sobre as ferramentas de espionagem virtual da CIA. Eles podem cortar nosso crédito em um piscar de olhos. Nós não teríamos dinheiro. Eu não acho que chegamos a isso, mas nunca se sabe. Mas sim, as ferramentas eles tem. E sim, eles podem nos cortar. E tem gente dizendo que deveria ser tudo digital. Que deveríamos nos livrar do papel-moeda. Não, não deveríamos. Não, não deveríamos! [risos] Não! Eu acho que, na série, eles fizeram muito bem essa cena de Offred e Moira indo tomar um café e o cartão não funciona … É apenas isso que alguém teria que fazer para conduzir as mulheres de volta aos lares. É só isso, basta tornar impossível que elas tenham algum dinheiro por conta própria.

TV: O que você espera que os telespectadores tirem da série ou do seu livro, ou de ambos?

MA: Bem, com algo assim, eu apenas espero que eles pensem a respeito. E digam: “Em que tipo de mundo eu quero viver?” E, se eu não quero viver em um determinado tipo de mundo, eu devo tomar alguma posição sobre qualquer medida que se instaure e que pareça apontar para aquele tipo de mundo.
Quando o livro apareceu pela primeira vez, ele foi recebido com três reações diversas em três diferentes mercados de língua inglesa. Primeiro, na Inglaterra, onde eles efetivamente disseram : “Um ótimo ‘causo’!” Eles disseram isso porque tiveram sua guerra civil religiosa lá no século 17 e não estavam prestes a ter uma outra. No Canadá, disseram, daquele jeito nervoso canadense, “Isso poderia acontecer aqui?” Os canadenses estão sempre se perguntando se algo pode acontecer aqui. E, bem, eles estão certos em se perguntar. Tivemos um primeiro-ministro que, há pouco tempo, até fez uma piada com isso. E então, nos Estados Unidos, já em 1985, as pessoas disseram: “Quanto tempo nos resta?”

EW: E agora?

MA: Agora as pessoas dizem: “Já está acontecendo.”

Texto publicado originalmente em http://www.teenvogue.com/story/margaret-atwood-the-handmaids-tale-interview

Tradução: Erica Prado