O Racismo brasileiro: da negação e dos acumuladores

O reality “A Fazenda” se tornou manchete por um incidente extremamente desagradável: a ex-miss São Paulo Sabrina Paiva foi chamada de macaca por um funcionário terceirizado da TV Record que atuava como operador de câmera. A injúria foi proferida pouco antes dos participantes entrarem no ar ao vivo com o apresentador Marcos Mion. A emissora já tomou todas as providências cabíveis, admitindo o caso e demitindo o infeliz. Mais um “caso isolado”, ou como dizem, mais uma ocorrência do que não existe mais no Brasil.
Neste caso fomos contemplados por justiça, uma vez que a TV Record não se omitiu na apuração do caso e identificação do criminoso. Ocorre que no ato da fala alguns tentaram contemporizar, como pode ser visto na matéria do Terra. Isso não é um ato isolado. Qual negro ou pardo não sentiu que não-negros — mesmo amigos muito próximos, não contemporizam ou colocam panos quentes em situações semelhantes? Algo como se o indivíduo não quisesse arrumar confusão ou mesmo “trair a própria raça”. “Deixa isso pra lá, você é maior que isso”. Pois é.
Lembro que tempos atrás um sujeito ficou irritadíssimo com uma publicação no meu perfil no Facebook em que eu discorria sobre o racismo no Brasil (talvez ele tenha se irritado com minha afirmação de que a Direita pouco faz a respeito, isso quando não passa pano. Aliás, mantenho tudo o que disse). É muito conveniente e prático varrer a sujeira para debaixo do tapete, mas chega sempre o momento em que o lixo se acumula nos cômodos e o odor e bagunça se tornam indisfarçáveis.
O Brasil é isso. Vocês certamente já viram programas de tv fazendo reportagens sobre pessoas com problemas psicológicos diversos que acumulam objetos em casa, incluindo lixo. Normalmente leva algum tempo para o caso se tornar um problema, geralmente um vizinho do acumulador chama a polícia, a prefeitura ou alguma equipe de jornalismo para denunciar aquilo. A impressão é que o processo de intervenção e limpeza é tão degradante quanto a própria sujeira — mas ele é necessário, do contrário se perpetua o criadouro de ratos e baratas. Pode acontecer também do proprietário ficar doente ou morrer em decorrência de tudo que está em sua volta.
Retirar aquele entulho é obrigação moral de quem é são. O mesmo se dá com o racismo. Não basta só lamentar pontualmente ou fingir que não existe, como se faz entre setores políticos importantes no Brasil que embora discordem preferem não lidar com todo este entulho. Já vi pessoas brancas que nem de longe são racistas diminuindo a gravidade para talvez evitar crispação social ou mesmo evitar o fomento do radicalismo destes movimentos (que normalmente são ligados a esquerda). Não sabem que uma pneumonia maltratada pode se transformar em infecção generalizada que talvez leve o paciente a óbito?
Parem com esta coisa ridícula de replicar a fala do Morgan Freeman dizendo que o melhor é não falar sobre o racismo. Isso só alimentará ainda mais o sentimento de injustiça e revolta que muitos negros sentem. Se muitos abraçam a retórica radical oferecida por movimentos extremistas a culpa é de vocês, os covardes que se omitem para fingir que está tudo bem. De forma fria e racional quase todos preferem seguir os passos do Martin Luther King Jr, mas quem se debruçar sobre a história verá que ele era muito questionado por negros insatisfeitos com a candura do pastor. Os séculos de escravidão, segregação, violência e negação da própria condição humana aproximou muitos do radicalismo dos Panteras Negras, da Nação do Islã e outros tantos que já não queriam saber de conciliação e sim de obter a paz de forma violenta. O extremismo é errado? Sim. Mas quem tem ódio e rancor não pensa.
