Dossiê: Capas de Discos — Parte 2

Uma breve história sobre a evolução das capas de discos.


Confira a Parte 1 aqui.

Os Anos 70: a Golden Era das Capas de Discos

Os anos 70 são considerados por muitos especialistas como a década mais rica da música, e essa riqueza podia ser vista nas capas dos discos que eram lançados. As drogas ditavam o ritmo frenético de uma década em que a música era o retrato de uma geração e logo, precisava ser retratada como tal.

Além da ascensão de uma liberdade artística e criativa, houve muitos avanços técnicos nesta década. Ao longo dos anos 70, as capas de discos começaram a ser feitas em computadores, o que deu aos artistas opções infinitas de efeitos e estilos que não podiam nem sequer serem pensadas antes.

Talvez os anos 70 foram a década com mais capas de disco icônicas, por isso, vamos falar sobre as que mais se destacaram:

Bitches Brew

Bitches Brew (capa aberta) — Miles Davis, 1970

Se querem saber minha opinião — e eu vou falar mesmo assim — para mim (e também para muita gente) Bitches Brew é a capa de disco mais bonita da história da música. Por conta principalmente do significado por trás dela.

Bitches Brew de Miles Davis foi um marco não só no jazz, mas na música. Considerado um dos álbuns mais revolucionários do jazz e o precursor do fusion jazz, em virtude da veia política e crítica contida em seu som, Miles Davis inovou após um período em baixa, além de flertar com o rock no álbum, o que originou uma excelente química. Mas, quem conseguiria realizar a difícil missão de traduzir um disco tão poderoso para uma capa?

Mati Klarwein foi o criador da icônica capa de Bitches Brew, ao fazer um retrato de uma dicotomia profunda e surrealista. A capa retrata a ideia de dia vs noite e luz vs escuridão em vários elementos como as diferenças nas expressões das personagens opostas, mas que mantêm seus dedos entrelaçados uns nos da outra. Na capa, Klarwein queria sintetizar a vastidão do ser humano e o dualismo que mora em cada um de nós.

Assim como é o tema mais forte deste disco, e como era na carreira de Miles Davis na época, a capa de Bitches Brew enaltece a luta pelos direitos raciais, ao fazer referências ao Black Power e à contracultura, influenciada pelo clima político e experimental da década. Mati Klarwein conseguiu passar com a capa, um retrato forte e belo da música de Miles Davis em Bitches Brew.

Sticky Fingers

Sticky Fingers — Rolling Stones, 1971

E olha ele de novo aí: Andy Warhol foi o criador da capa de Sticky Fingers, décimo-primeiro álbum dos Rolling Stones. Mas o sucesso da capa não está na calça apertada ou no pênis em evidência, mas sim em seu designer.

Sticky Fingers veio com mais inovações no design da capa do que propriamente na imagem dela. Por ser o primeiro álbum da banda para a Atlantic Records, o orçamento maior permitiu aos Rolling Stones o luxo de implementar a ideia de um zíper de verdade na capa, que quando puxado, revelava a roupa íntima branca do artista.

Mas o design da capa teve um revés curioso, quando os varejistas se queixaram de que o zíper estava causando danos ao vinil, sendo este transferido ligeiramente para o centro do disco, onde os danos seriam minimizados. O álbum apresenta também o primeiro ao usar o tongue and lip design, desenhado por John Pasche.

Dark Side Of The Moon

Dark Side Of The Moon — Pink Floyd, 1971

Posso ter afirmado anteriormente que a capa de Sgt Peppers Lonely Heart’s Club Band foi a maior das capas de discos, devido ao tamanho investimento e inovação ao criá-la mas, sem dúvidas nenhuma, a capa de Dark Side Of The Moon é a mais icônica da história. O prisma atingido pelo feixe de luz reproduzindo um fenômeno físico e resultando nas cores do arco-íris, se tornou um sinônimo de Pink Floyd e uma das maiores referências visuais do mundo da música.

A capa de Dark Side Of The Moon foi feita pelo grupo britânico de design gráfico artístico Hipgnosis, que também foram responsáveis por outras capas do Pink Floyd, além os de outras bandas, como as capas de Dirty Deeds Done Dirt Cheap do AC/DC, a de Houses of the Holy do Led Zeppelin, a de Never Say Die! do Black Sabbath, entre outras.

Na época, o Pink Floyd passava por uma fase de não aceitação das grandes gravadoras por causa da singularidade do som da banda, o que gerou composições mais profundas e obscuras para o álbum que estava por vir. A banda abordava temas complexos em suas músicas, e o Hignosis conseguiu sintetizar essa complexidade com perfeição.

Dark Side Of The Rainbow

O feixe de luz ao atingir o prisma, se divide em uma porção de cores. Com isso, a capa de Dark Side Of The Moon dizia ao público que a sua música, embora parecesse mais um trabalho do rock progressivo da banda, na verdade continha muito mais informações do que poderia julgar uma primeira impressão. Há também a teoria de que o prisma triangular não foi escolhido à toa, visto que a forma do triângulo dentro da linguagem de signos representa sentimentos como a ganância e a cobiça, temas bem recorrentes no disco.

Alladin Sane

Alladin Sane — David Bowie, 1973

Considerada por muitos a Mona Lisa das capas de disco, a capa de Alladin Sane de David Bowie foi registrada pelo produtor de cinema e fotógrafo Brian Duffy, que colaborou com Bowie em outros projetos como em Ziggy Stardust, The Man Who Fell to Earth, Scary Monsters (and Super Creeps) e Lodger.

A capa de Alladin Sane que, segundo Bowie, é o disco em que “ Ziggy Stardust vai à América”, veio com um dos maiores símbolos do pop, apesar da simplicidade da imagem. O icônico raio desenhado no rosto de David Bowie foi ideia do próprio Brian Duffy ao achar uma solução para o pedido de Bowie, para que tivesse um raio na capa do seu disco. Como bem disse Chris Duffy, filho de Brian:

“Quando se está criando algo, você não sabe qual será a grandeza disso.
Meu pai não sabia que seria a imagem mais icônica do pop de todos os tempos. Para ele, era só mais uma sessão de fotos.”

Physical Graffiti

Physical Graffiti — Led Zeppelin, 1975

Em 1975, o Led Zeppelin lançou o álbum Physical Graffiti no auge da expressividade da banda. Desde blues ao hard rock, passando pelas cítaras indianas, o álbum consegue passear com destreza por vários estilos. Como desde de seu primeiro álbum, cada capa de disco do Led Zeppelin era um marco para a banda, isso fez com que os designers que cuidavam não só da imagem da nova capa, mas também das montagens, da interatividade e do manuseio da arte do disco, fizessem em Physical Graffiti um trabalho minucioso e artístico que dialogava perfeitamente com a música proposta no disco.

A capa foi fotografada pelo designer Peter Corriston, que buscou um prédio simétrico de cinco andares como locação, bem ao estilo de cortiços típicos de Nova York, além da riqueza que possuía nos detalhes. O prédio futuramente também seria locação do clipe Waiting On A Friend dos Rolling Stones, em que Mick Jagger e Keith Richards aparecem em frente ao tal prédio. Mas, um dos pontos fortes da capa de Physical Graffiti está também em seu designer.

A parte de trás de Physical Graffiti

Dividido em uma fotografia do mesmo prédio de dia na parte da frente do disco, e de noite na parte de trás, Corriston teve a sacada de usar o efeito die-cut nas janelas do prédio, dando uma dimensão extra para a capa do disco. Nas imagens por trás das janelas podemos encontrar o astronauta Neil Armstrong, a atriz Judy Garland de “O Mágico de Oz”, membros do Led Zeppelin, o King Kong, Marilyn Monroe, entre outras imagens bastante representativas (olha a influência de Sgt Peppers aí). Com essa dinâmica da capa, podíamos “abrir as janelas” e observar os vizinhos da banda.

A Influência Estética do Punk no Fim dos Anos 70

London Calling — The Clash, 1979

Assim como na década anterior, a música no final dos anos 70 chegou ao seu auge político e rebelde graças a um novo estilo musical: o punk rock. Ao contrário da grande maioria das capas de funk ou disco music lançadas ao longo da década, as capas dos discos de punk se caracterizavam por um uso predominante do preto sobre o colorido, junto com um aspecto “mais sujo” e fuck the system que o movimento carregava. O punk se preocupava mais em ser controverso do que em ser belo.

Ramones — Ramones, 1976

Ao entrar nesse assunto, não podemos deixar de falar de Jamie Reid, o maior designer do punk. O estilo único de Reid em usar cortes e colagens de pedaços de papel ficou marcado na história do punk. Reid trabalhou com grandes nomes do movimento, mas os seus trabalhos mais memoráveis foram com a banda Sex Pistols, tanto na capa de seu disco de estréia Never Mind The Bollocks, quanto na capa do single God Save The Queen, considerada a capa de disco mais controversa da história.

God Save The Queen (single) — Sex Pistols, 1977

O single God Save The Queen foi lançado durante as comemorações dos vinte e cinco anos de ascensão da Rainha Elizabeth II ao trono da Grã-Bretanha. Tanto a música quanto a sua capa, que estampa um retrato da Rainha com os olhos e bocas tapados pela colagem de Reid, foram consideradas um ataque contra a rainha, a política e até mesmo ao hino inglês, ao cantar que na Inglaterra “there’s no future”.

A capa de Reid sintetizou toda a crítica satírica e sem escrúpulos dos Sex Pistols contra o sistema monárquico decadente e vigente na Inglaterra. Em uma década em que música e política estiveram muito difundidas, o punk foi o maior ápice da contestação do sistema na história da música, e isso não foi diferente nas capas de seus discos. Dois anos depois, no último ano da década, uma capa de disco trouxe um conceito nunca antes visto.

Logo depois da ascensão do punk em 1977, um novo estilo musical apareceu nos últimos meses da década, o pós-punk. O pós-punk ainda mantinha suas raízes no punk, mas se caracterizava por um som mais introvertido, complexo e experimental, além de ter o uso de elementos do synthpop como uma de suas marcas registradas. Em 1979, o Joy Division, maior banda expoente do estilo, lança o seu conceituado álbum de estréia Unknown Pleasures.

Unknown Pleasures — Joy Division, 1979

O disco causou um alvoroço de público e crítica na época graças ao som depressivo e as letras intimistas da banda. A capa de Unknown Pleasures chegou a ser tornar mais conhecida do que o próprio Joy Division, além de expressar perfeitamente a profundidade presente no álbum.

E a imagem presente na capa de Unknown Pleasures, é a da constelação Vulpecula.

Isso mesmo! Ao contrário do que muita gente pensa, a capa de Unknown Pleasures não é uma cordilheira de montanhas, nem uma série de ondas, mas sim uma sucessão de pulsos vindos da tal constelação. O pulsar em questão foi o primeiro a ser descoberto e chama-se PSR B1919+21.

A ideia de usá-lo como capa do novo disco da banda foi do baterista Stephen Morris, depois de ter visto a imagem numa enciclopédia de astronomia de Cambridge. Talvez o mais curioso de toda essa história, é que uma das capas mais famosas não foi feita por um artista, mas sim por uma constelação. A nova linguagem que a capa de Unknown Pleasures trouxe, fez com que a arte nas capas de discos ganhassem um sopro de vida para a próxima década.

A Marca do Artista nos Anos 80

Os anos 80 para as capas de discos foi interessante. Numa década marcada por um boom econômico e estímulos ao consumismo crescente, assim como nos anos 50, o foco passou a ser o artista ou sua marca registrada, mas o cuidado com a arte permaneceu. O artista não aparecia na capa simplesmente, mas te garanto que ele chegava fazendo alguma pose foda. Como exemplo, veja esses dois clássicos da década e a semelhança entre as poses das duas artistas:

She’s So Unusual — Cyndi Lauper, 1983
Island Life — Grace Jones, 1985

She’s So Unusual de Cindy Lauper e Island Life de Grace Jones foram capas com retratos artísticos das cantoras. Com a importância da mulher maior do que nunca até então no mundo da música, Cindy Lauper deu às mais jovens a noção de liberdade dos padrões impostos, e Grace Jones mostrou que o corpo feminino pode ser como for, mas sempre será belo. Na década de 80, os artistas investiam bastante para serem também reverenciados pelas capas de seus discos.

Assim como a importância da imagem da própria banda em si, as logomarcas das bandas começaram a ganhar seu valor e apelo comercial, logo também sendo valorizadas nas capas. A marca registrada da banda nas capas de seus discos, ganhou muita força no gênero metal. Maior exemplo disso é o morto-vivo Eddie, mascote presente na maioria das capas dos discos do Iron Maiden.

Será que posar pra foto na hora da capa é uma atitude não muito metal? Não se sabe, mas duas das maiores capas do gênero evidenciam ainda mais essa tendência:

British Steel — Judas Priest, 1980
Master of Puppets — Metallica, 1986

As capas de Britsh Steel do Judas Priest e Master of Puppets do Metallica são as mais icônicas do metal, e tem a logo das bandas em destaque junto com a mensagem forte que cada capa veicula. O nome da banda em evidência unido a uma imagem que remetesse a um som forte deixou claro que: se tem Judas Priest ou Metallica no nome, o som vai ser um metal da melhor qualidade.

Até o fim da década, a tendência de por o artista ou banda em evidência era vista até nos estilos musicais mais marginalizados. No fim da década, surgiu em Los Angeles o movimento gangsta rap, segmento do rap que ficou caracterizado pela sonoridade e estilo violento, e pelas suas letras polêmicas. O gangsta rap trazia o dia-a-dia dos guetos mais violentos para as rádios de todo o país, assim como faziam o mesmo nas capas dos seus álbuns. Exemplo maior disso foi o que NWA fez em Straight Outta Compton, em que os rappers são fotografados em contra-plongé, enquanto Eazy-E aponta uma arma na direção da foto. A capa de Straight Outta Compton é considerada a mais icônica do rap.

Straight Outta Compton — NWA, 1988

Na época, apesar do marketing ter sua influencia até mesmo nas capas dos discos, os anos 80 se mantiveram primorosos com vários lançamentos e capas que ficaram para a História.

Anos 90: A Última Grande Era das Capas de Disco

Os anos 90 pode ser considerado como a última década relevante das capas de discos. Capas simbólicas, nonsense, polêmicas surgiram num momento de grande efervescência antecipando o milênio que estava por vir. Foram os momentos finais antes da chegada dela. Sim, da internet.

Nevermind

Antes de falar sobre as capas em geral dos discos da década, prefiro começar pela capa de disco mais icônica dos anos 90. A capa de Nevermind do Nirvana talvez seja a capa mais popular desde Dark Side of The Moon, em que a imagem do bebê na piscina é imediatamente relacionado a banda de Seattle em qualquer canto do mundo. O bebê na capa é Spencer Elden, que teve sua imagem escolhida em uma sessão de fotos do fotógrafo Kirk Weddie e que rendera 200 dólares aos seus pais. Hoje, na casa dos vinte anos, Elden fala sobre a capa:

“É estranho pensar que tanta gente já me viu pelado — me sinto como a maior estrela pornô do mundo!”

O bebê na piscina nadando atrás do dinheiro é uma crítica aos valores que a sociedade passa a nossa juventude, mensagem essa explorada no disco como no hino do rock “Smells Like Teen Spirit” e em todos os outros trabalhos das bandas do movimento grunge, o qual expressava a rebeldia do jovem da década de 90 contra as gerações fracassadas pelo american way of life.

Mas numa visão ampla, podemos concluir que o traço mais marcante nas capas de discos dos anos 90 é a diversidade. Nesta época, as barreiras da música se expandiram como nunca e muitos estilos diferentes dominavam o rádio. Se os anos 70 foi uma década de muitas capas históricas, os anos 90 foi uma década de movimentos musicais históricos.

Britpop

Definitely Maybe — Oasis, 1994

Na década de 90, ocorreu a maior invasão britânica no mundo da música desde a ascensão dos Beatles. Os americanos voltaram a consumir tudo o que vinha da terra da Rainha e isso fez com que a Inglaterra se tornasse o epicentro mundial da música pela última vez, dominando as rádios do mundo todo.

O movimento intitulado Britpop, contou com bandas incríveis, sendo encabeçada pela maior banda britânica desde muito tempo (e que segundo os próprios, a melhor banda de todos os tempos), o Oasis. Seu álbum de estréia, Definitely Maybe, além de ser um dos maiores fenômenos da história no que diz respeito a primeiro lançamento, também deixou claro o porquê do termo “invasão” britânica no mundo da música.

O movimento trouxe a cultura inglesa para o mercado global, enquanto as capas dos discos remetiam e vendiam o estilo inglês. Além de capas de bandas de destaque dentro do Britpop, como Blur e outras do Oasis (a capa Morning Glory, segundo álbum da banda, é muito parecida com a sua antecessora), podemos observar o mesmo britain lifestyle na capa do álbum Urban Hymns, do The Verve, que contém a música que marcou época, “Bittersweet Symphony”.

Urban Hymns — The Verve, 1997

Punk Rock

Além da música britânica, o punk rock teve seu grande momento nas rádios dos anos 90. Talvez pela primeira vez, o estilo revolto conseguiu chegar aos ouvidos da grande massa, coisa que nem o punk raiz de 1977 conseguiu com tanto êxito. As capas de punk dos anos 90 eram coloridas, “zueiras” e usavam e abusavam de grafites e cartoons, como sintetiza bem a capa de Dookie do Green Day, tido como uma das capas mais memoráveis do estilo, além de pertencer a um álbum que foi um divisor de águas no punk.

Dookie — Green Day, 1994

Pela primeira vez o punk tocava nas rádios, mas nem por isso ele perdeu sua essência. Bandas como Offspring, Rancid e NOFX ainda mantinham o discurso satírico em suas letras, bem como nas artes das bandas. Mas talvez a capa de disco que melhor interpretou essa filosofia dentro do gênero, foi a do álbum Enema of the State do Blink 182, que explodiu na cena em meio as boy bands que faziam sucesso na época e que o próprio Blink 182 tirava sarro em suas letras e videoclipes. Mas com certeza o mérito da capa vai em grande parte para Janine Lindemulder, a atriz pornô que fez o papel de enfermeira em Enema of the State.

Enema Of The State — Blink 182, 1999

Gangsta Rap

Considerado a década de ouro do rap, os anos 90 foi também a década que capas de álbuns do rap foram imortalizadas. O estilo ainda surfava no sucesso estrondoso do gangsta rap iniciado pelo NWA no final dos anos 80, e ganhou mais força ainda com a chegada de Tupac Shakur e Notorius BIG na cena, entre tantos outros que fizeram os anos 90 serem chamados de a Golden Era do Hip Hop.

Ready to Die — Notorious BIG, 1994

Mas apesar do teor pesado das músicas, os gangsta rappers sempre deixavam claro que o tom do seu discurso era produto do ambiente violento no qual o estilo surgiu, sintetizando que é o meio que corrompe o homem. Numa espécie de “humanização” do rapper, muitos usaram nas capas de seus discos, fotografias que remetiam à própria infância, a fim de mostrar também o outro lado: o lado puro, o lado ainda não corrompido pela vida no crime. Esse padrão ajuda a fazer uma ponte entre as origens e mostrar que apesar da fama, o rapper não abandona suas raízes. Exemplos de capas de discos como essas são as dos álbuns Ready to Die do Notorius BIG e Illmatic do Nas, este último considerado por muitos, o melhor disco de rap da década.

Illmatic — NAS, 1994

Grunge

Talvez o principal gênero musical dos anos 90, o grunge se destacou como um dos últimos movimentos do rock que foram contra o sistema. Mas, dessa vez a crítica era feita sob uma ótica mais voltada aos problemas pessoais do que aos problemas globais. Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains, entre outras bandas consagradas do gênero, conseguiram como poucas traduzir o sentimento de angústia da juventude diante do seu “fracasso” dado pelo julgamento dos padrões impostos pela sociedade na época.

Live Through This — Hole 1994

O grunge criticava os “valores socialmente aceitos”, como bem traduz a capa de Live Through This do Hole, ao mostrar uma recém-ganhadora de um concurso de beleza com um semblante de desespero, realçado pela maquiagem borrada, numa crítica ácida a indústria da beleza e aos padrões que ela impõe.


Não era grunge, mas uma banda que pode ser tratada como a mais ferrenha no contexto político e que reinou nas rodinhas de porrada mundo afora, o Rage Against Machine sempre foi certeiro nas críticas contra o sistema em suas letras, em seu som pesado, em suas atitudes revolucionárias, bem como nas capas de seus álbuns.

Rage Against The Machine — Rage Against The Machine, 1992

Apesar de sempre terem tratado com excelência as capas de seus álbuns, como podemos observar em Evil Empire e The Battle Of Los Angeles, o álbum de estréia da banda, Rage Against The Machine, é talvez a capa mais forte da década.

A capa mostra o monge budista vietnamita Thich Quang Duc, sentado na posição da flor de lótus, depois de ter ateado fogo em si mesmo. Thich protestava contra a opressão que os budistas sofriam do então Primeiro Ministro Ngô Dinh Diem. A fotografia foi tirada por Malcolm Browne e ganhou o Prêmio Pulitzer de Fotografia em 1962. Reza a lenda que após o fogo cessar, o corpo de Thich virou cinzas, menos seu coração, que permaneceu intacto. Dali pra frente, o Rage Against The Machine seria considerado uma das maiores bandas políticas da história.

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