Como chegamos até aqui?

Panic on the streets of London 
Panic on the streets of Birmingham 
I wonder to myself / Could life ever be sane again?

A resposta crua é: Foi uma obra coletiva.

Os prédios dos ministérios em chamas, em pleno 2017, não representam a queda da Bastilha dos trópicos e muito menos a vitória da “revolta popular” contra o establishment. O pânico das ruas é comemorado pelo inculto, é comemorado pelo descrente, mas principalmente é comemorado pelo manipulador das marionetes. O caos em Brasília representa, de fato, a falência do modelo político que criamos ao longo do tempo. Não precisamos voltar ao tempo de Cabral, o original, para analisar o sistema político brasileiro, basta analisar os acontecimentos da Nova República, ou Redemocratização. Com o fim da Ditadura Militar em 1985, passamos a viver um outro tipo de montanha russa social. Se no período do coturno, não tínhamos nenhuma garantia de Liberdade individual, durante os Governos Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer nos anulamos perigosamente.

A base da pirâmide passou a sonhar com o Salvador da Pátria a cada eleição. O empresariado organizado passou bancar o status quo a cada eleição. O funcionalismo passou a defender seus privilégios a cada eleição. Os partidos políticos passaram a dominar a arte da dissimulação a cada eleição. E os pagadores de Impostos passaram a rejeitar o processo eleitoral a cada eleição. O resultado disso é fim do modelo político baseado na simbiose do Estado provedor universal, do Corporativismo e do Paternalismo como testemunhamos ontem em Brasília.

A base da pirâmide por não ser ideológica, até então elegeu quem foi mais convincente na promessa de resolução de conflitos e aqui falo essencialmente dos conflitos básicos (os de curto prazo): Desemprego, Inflação e Justiça — esta última, no caso brasileiro, é entendida mais popularmente por Impunidade (a falta de Justiça). Garantir trabalho é garantir salário que é garantir sobrevivência, portanto ter a “solução” mais simples e de fácil compreensão para o povo tornou-se um modelo certeiro de obtenção de votos entre 1986–2014. No caso das vitórias de Collor e de Lula, vale destacar que a própria dinâmica dos fracassos dos antecessores contra a inflação (os Planos Cruzado I e II de Sarney) e contra o Desemprego (FHC) ajudaram muito mais do que as soluções propostas durante a campanha pelos candidatos vitoriosos. De qualquer modo a alta capacidade de empatia popular, aliado ao esgotamento imediato da economia, abre espaço para os Salvadores da Pátria, entretanto no longo prazo estes se mostraram desprovidos de soluções permanentes e aí reside um questionamento da validade deste modelo para 2018. O Salvador da Pátria sairá mais uma vez vitorioso nos braços do povo? Tenho as minhas dúvidas.

o empresariado organizado, ao longo do tempo, passou a se relacionar de maneira cada vez mais incrustada no Estado brasileiro, a fim de manter benesses estatais e proteção contra a concorrência e barreiras de entrada. Sarney promoveu o primeiro estelionato eleitoral da Redemocratização com o Plano Cruzado, baixando a alta inflação — alimentada pelo mecanismo de indexação criado na ditadura militar -, durante o período eleitoral, para depois de 6 meses, explodir na hiperinflação que duraria até 1994. Este período deixou o setor produtivo como um todo bem fragilizado, por não ter horizonte de investimento com o processo de hiperinflação, mas assim mesmo Sarney fechou a economia brasileira as importações e blindou as grandes empresas brasileiras sob o pretexto da preservação do nível de emprego. Collor iniciou o processo de abertura da economia, mas fez uma atrocidade até hoje nada compreendida no campo econômico e piorou ainda mais a crítica hiperinflação.

FHC por sua vez resolveu o problema da hiperinflação e realizou importantes processos de privatização, no primeiro mandato, mas no segundo rifou a geração de empregos que batia os dois dígitos de Desemprego, ficando marcado como um período de greves setoriais constantes. FHC teve a oportunidade de ter feito a reestruturação completa da economia, abrindo a economia e pulverizando os players, mas optou por um modelo que perpetuou a falta de concorrência nos mercados. Lula, foi bem pragmático no primeiro mandato por força da desconfiança do mercado e com o boom das commodities viu o capital estrangeiro retornar ao país de maneira crescente. Com isso, no segundo mandato, mudou por completo sua abordagem da economia e passou a gastar cada vez mais em grandes projetos de infraestrutura com a criação do PAC, tal qual já havíamos feito erroneamente durante o “milagre econômico” dos anos 70. Passou também a impulsionar o crédito público para grandes empresas selecionadas via BNDES com juros subsidiados, criou políticas de conteúdo nacional para indústrias não competitivas, uma espécie de retrofit da fracassada política de reserva de mercado dos anos 80, e para pessoa física impulsionou o crédito via empréstimo consignado, criou o programa de transferência de renda Bolsa Família e foi amplamente generoso na rede de seguridade com os aumentos reais dos benefícios vinculados ao salário mínimo, sem o respectivo aumento da produtividade média do trabalho e na ampliação do tempo de recebimento do seguro-desemprego para até 18 meses (que seria drasticamente reduzido até 6 meses, logo após as eleições de 2014, no melhor estilo Sarney de estelionato eleitoral).

Entre 2006 e 2014 montamos um modelo econômico míope sustentado no apetite constante por crédito, quando as pessoas não possuem mais capacidade para pegar novos empréstimos, pois seus orçamentos familiares já estão bem comprometidos, não existe tração para dar sequência ao consumo e aí tudo para. O consumo das famílias parou de demandar crédito e bens ao mesmo tempo e o mercado de emprego passou a ser pressionado. Do mesmo modo que esse modelo impulsiona rapidamente uma economia, ele rui com a mesma velocidade, gerando quebradeira generalizada. Resumo: Essa fartura de crédito criou uma bolha de oferta que estouraria entre 2012–2014, dependendo da sobrevida estatal dada a cada setor produtivo, aliado ao crescente endividamento da população. No final de 2014, já era sabido pelo próprio Governo Federal que o fluxo de desembolso anual do Bolsa Família (investimento), seria metade do que pagaríamos anualmente para equalizar os juros subsidiados do BNDES para as grandes empresas até 2050 (desinvestimento). Em 2015, o Desemprego voltaria a casa dos dois dígitos, situação que perdura até hoje.

Os gastos públicos em obras cosméticas (estádios da Copa do Mundo subutilizados e complexos esportivos para as Olimpíadas abandonados), em obras sem fim (Transposição do São Francisco e usinas hidrelétricas na região norte) ou em projetos de caráter duvidoso em termos de viabilidade financeira (Pré-sal), aliado a grave crise internacional de 2008 que interrompeu o fluxo de capital externo, fez com que o PAC fosse abandonado por completo pelo Governo Federal, em pleno ano eleitoral de 2014, apenas sete anos após o seu lançamento.

O funcionalismo só cresceu ao longo do tempo, de Sarney a Dilma, tendo hoje mais de 100 mil funcionários, somente na categoria comissionados (sem concurso público ou indicados políticos) somente na esfera federal. Para se ter uma ideia do tamanho dos comissionados federais, o maior banco privado do país possui 100 mil pessoas distribuídas por todo território nacional! Quando ampliamos o impacto dos comissionados nas esferas estaduais e municipais, constatamos o tamanho real do problema, pois vemos diariamente vários estados quebrados, o mais notório é o governo carioca, além dos municípios normalmente deficitários que precisam fechar suas contas com repasses federais e assim ficam atrelados a política da boa vizinhança junto ao Governo Federal. A isso inclua a pressão previdenciária e ao fim do bônus demográfico e em 2060 teremos uma população aposentada maior do que a população na ativa, colapsando por inteiro o sistema previdenciário. Quando se fala em restringir os privilégios do funcionalismo público, como a limitação de benefícios e fim da estabilidade como já ocorre para os trabalhadores do setor privado, é simplesmente por que o futuro desenhado não prevê recursos suficientes para honra-los. Não existem Direitos garantidos no longo prazo, sem contrapartida de financiamento sustentável.

Direitos não são presentes dados pelo Governo! Direitos tem como contrapartida Deveres!

Achar que os Impostos não têm fim, é achar que o bolso da população que paga há décadas pelos erros das políticas econômicas, que paga há décadas pelas proteções estatais aos amigos do rei, que paga há décadas pelos privilégios de poucos é simplesmente um saco sem fundo!

Os partidos políticos por sua vez, de 1985 a 2017 mostraram-se cada vez mais atrasados em relação a evolução da sociedade brasileira. O mundo de hoje é baseado na Transparência de dados públicos, é baseado na rapidez da disseminação da informação. A informação que a Sociedade consome e produz é em tempo real e numa via de mão dupla (horizontal), enquanto Brasília anda em tempo próprio, acreditando que a informação seja top-down (vertical). O tempo de comunicação vertical do século XX acabou! O partido que não entender isso, será varrido do mapa eleitoral em tempo recorde. A rede de conchavos políticos noturnos, no modelo Varguista onde se dá a população com uma mão, enquanto se tira com a outra, está sendo combatido e exposto a cada dia seja pelas instituições que investigam os atos de desvios, seja pela própria população que aprende a fiscalizar e manifestar a sua indignação. Não adianta votar algo na madrugada e esperar que não existam reações da população já no primeiro horário do dia seguinte. A arte da dissimulação dos partidos políticos que até então perpetuou os mesmos no poder, agora torna-se a força da sua própria derrocada. Políticos tradicionais estão sendo expostos com grande velocidade e com alta riqueza de fatos revelados, a exceção de quem possui o famoso ‘político de estimação’, a população está rechaçando os políticos envolvidos nos escândalos. O cenário para 2018, muda a cada semana em virtude dos acontecimentos. Quem insistir na promoção do caos dará com os burros n’água, uma vez que historicamente quem usa deste expediente de promoção da baderna, sempre perde as eleições. Lula ganhou quando adotou o discurso ‘paz e amor’ e Dilma foi pelo caminho da continuidade. Insistir na tática do Terror e vandalismo para mostrar fraqueza no lado adversário, abrirá um vácuo que será preenchido por um terceiro nome, certamente Despreparado, como ocorreu na vitória de Collor.

Insistir ainda no velho modelo é fomentar a saída de mais pessoas do processo eleitoral. A cada eleição o percentual de nulos, bancos e abstenções cresce. Isso se dá pela oferta ruim de candidatos, seja por serem os mesmos nomes envolvidos em escândalos ou por terem comprovada falta de capacidade de gestão. Candidatos ruins atraem apenas eleitores ruins. Candidatos ruins uma vez eleitos mostram-se fracos e mais propensos a criarem crises institucionais, caso claro de Collor, Dilma e Temer. O dois primeiros sofreram Impeachment e o último está na sobrevida à espera do acordo no Congresso nacional sobre quem assumirá via eleição indireta. Candidatos ruins são do tipo Despreparados. Não vejo como colocar de pé, mais uma vez em 2018, o modelo político esgotado do Estado provedor universal com o Corporativismo e o Paternalismo as custas da população.

Esse Brasil velho definitivamente chegou ao limite da sua capacidade.

A Sociedade que em 2013 exigiu o tal ‘Padrão Fifa’ nos serviços públicos e que em 2015, 2016 e 2017, continua a exigir a punição aos corruptos e corruptores, terminará essa fase de transformação/transição do mindset político nas eleições de 2018. O processo de depuração da política brasileira mostra-se traumático, mas ao mesmo tempo fortalecerá e pavimentará uma nova dinâmica de relação política entre o Cidadão, o poder público e a iniciativa privada baseado em clareza, resultado, eficiência e bom uso dos recursos públicos. As pessoas estão trocando promessas por Soluções. Se for o caso, faça até menos, mas faça direito. As pessoas querem que os serviços públicos fundamentais funcionem e que sejam bons de verdade. Neste sentido a cidade de São Paulo até julho/18 servirá de balizador para a validação desta nova dinâmica. Caminhamos em 2018 para três caminhos: (a) o mais do mesmo com o Salvador da Pátria, (b) o Despreparado que aparece fruto do vácuo ou (c) o novo perfil com foco no resultado, gestão e Soluções.

Mas o que eles não sabiam
Aliás o que ninguém sabia
Era o que estava acontecendo
Ou o que realmente acontecia / Pânico em SP

E agora, como sairemos daqui? A resposta começa com quem realmente sabe o que está acontecendo desde o início: Você, o Pagador de Impostos.