Melo ou Marchezan? Não com o meu voto

Porto Alegre irá as urnas, ao final de outubro, para eleger em segundo turno o próximo prefeito da cidade. Sebastião Melo (PMDB) e Nelson Marchezan (PSDB) são as alternativas colocadas. Dois candidatos do mesmo espectro político e que representam partidos que governam juntos a atual gestão. A esquerda ficou fora da disputa, em um inquestionável revés eleitoral. Agora, neste momento de escolha, o eleitorado e a militância de esquerda na cidade encontra-se em um dilema: como votar?

Talvez a pergunta mais adequada para se fazer neste momento seria outra. Como recuperar o protagonismo social da esquerda na cidade e organizar a resistência contra as ameaças de retrocesso que virão? A esta pergunta não existe uma só resposta e seguramente demandará ainda um relativo tempo para que estas alternativas se construam. Sua urgência é por demais evidente, face o alto custo social que irão gerar as medidas regressivas anunciadas e conduzidas pela coalizão de forças conservadoras que atualmente estão a frente dos governos federal, estadual e municipal.

Ainda que questões desta natureza estejam postas e serão decisivas nos próximos meses e anos, um episódio importante deste processo se definirá com a eleição do futuro prefeito e como deverá se comportar a esquerda nesta questão é um componente importante. Para a esquerda que já não investe na disputa institucional — principalmente grupos e indivíduos ligados a diferentes formas de anarquismos — este debate não está colocado. Mas para um amplo espectro da esquerda que segue travando a disputa por estes meios, como se posicionar, de forma coletiva ou na individualidade do voto, o problema está colocado.

Pouco após a definição das urnas, as duas candidaturas da esquerda com melhor desempenho eleitoral, já manifestaram suas posições. Tanto Raul Pont (PT), quanto Luciana Genro (PSOL), declararam não apoiar nenhum candidato no segundo turno. Os partidos que compuseram suas candidaturas, e principalmente as suas bases sociais, tendem majoritariamente a seguir a mesma posição, não participando diretamente na disputa.

Não votar em nenhum dos dois candidatos parece ser a escolha maís óbvia a ser tomada por qualquer um que esteja identificado com o campo da esquerda e na resistência ao golpe. Um ato, que seguramente carrega consigo contradições e dilemas, mas que neste momento se coloca como a escolha mais coerente.

Escolher entre candidatos do PMDB e do PSDB é apenas uma escolha por gradações diferentes de um mesmo projeto político. Ambos os partidos foram promotores do golpe, assim como integrantes das gestões Temer, Sartori e Fortunati. Na prática a escolha será para saber quem terá a “caneta na mão” para levar um número maior de CCs, pois, seguramente, o partido derrotado estará compondo o futuro governo eleito.

Alguns amigo/as de esquerda tentam justificar o voto em Melo apelando para o fato de sua candidatura ser supostamente menos reacionária que a de Marchezan. Essa avaliação é meramente subjetiva, terreno difícil de conter elementos comprobatórios factíveis, tendo pouco amparo na materialidade da vida. A presença de uma vice do PDT, ainda que relevante, pouco garante. Nunca é demais lembrar o comportamento da bancada deste partido na votação do impeachment e como o senador gaúcho do PDT, Lazier Martins, votou. A aliança do PMDB com o PDT na cidade, ainda que mantenha certas aparências democráticas, efetivamente tem promovido uma série de privatizações de espaços públicos e uma lógica cerceadora da vida cultural da cidade. Patrimonialismos, loteamento desenfreado de cargos e cooptação de lideranças comunitárias tem sido o modo de governo.

Votar em Melo seria emprestar um voto de aprovação a uma gestão desastrosa para a cidade, sem haver nenhum aceno de mudanças. Neste terreno, objetivamente, a candidatura de Melo, até o momento, não fez NENHUM aceno para a esquerda da cidade, repito, NENHUM compromisso foi firmado por essa candidatura. Um exemplo: poderiam declarar publicamente que não farão privatizações de empresas e espaços públicos. Sem haver nenhuma contrapartida da candidatura do PMDB, o apoio de indivíduos da esquerda transforma-se em uma mera adesão acrítica, em nada contribuindo para a reorganização da esquerda e da resistência democrática ao golpe.

Eleitores de esquerda votarem em Marchezan são mais raros, ainda que existentes. O caráter privatista permeado por um discurso que flerta com a extrema-direita, tem inviabilizado uma adesão maior do eleitorado progressista da cidade ao candidato do PSDB. A ideia do “quanto pior, melhor”, de ter um prefeito mais claramente reacionário poderia facilitar uma maior resistência popular, historicamente, não se comprova. Pelo contrário, fortalece os setores vinculados a direita, aumenta o processo de repressão e supressão da cidadania, ferindo mortalmente a capacidade de organização dos setores mais atingidos pelas políticas conservadoras.

Votar em um tucano ou no pemedebista é ajudar o vencedor a ganhar uma maior legitimidade das urnas. Votar nulo ou branco, ou ainda se abster, neste momento, é um ato de resistência. Tornar visível esta escolha, explicitando os motivos que nos levam a não votar em nenhuma das duas alternativas é um começo da politização deste não-voto, é um ato de desobediência civil dentro das normas, mas que expõe uma fração da nossa resistência. Um crescimento expressivo ou ainda uma vitória dos votos nulos e abstenções, dará um simbolo de ilegitimidade maior para o golpista vencedor.