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Abrir o olho, levantar, tomar banho. Mal sinto o cheiro do café e já tenho que começar a trabalhar.

Sempre acordo com o galo cantando. Mas hoje tive um pesadelo muito ruim e fiquei acordado quase a noite toda. Agora vou começar a trabalhar sem comer mesmo. Não vai ser a primeira vez.

Desço da Senzala pela rua de barro. Passo na frente do ‘Ile Olorun’ pra agradecer meu pai “Oxossi” por mais um dia. A gente não pode fazer isso na praça perto da Casa Grande. Sigo meu caminho em direção à Casa. Deve ter chovido de noite. A rua está lamacenta e escorregadia. O Sr. João costuma passar pelas ruas com paralelepípedos e nós passamos por trás da Casa Grande. Nao tenho medo dele. Um dia vou fazer como o meu pai: Vou parar o carro imperial! Mas vingarei o meu pai e pendurarei a cabeça desse gordo fedorento na entrada da senzala.

“Bom dia Sinhô”

Nenhuma resposta como sempre. Deveria ter deixado meu chapéu pra baixo… Onde eu parei? Esquece.

Procuro papel pra enrolar um cigarro. Cultivamos fumo de alta qualidade aqui. Dizem que o Sr. João agora esta vendendo pra gente lá do estrangeiro. Gente da Índia. Eles disseram que não é a mesma coisa que índio. Nao sei que gente é essa...

Cadê o maldito papel?! ……

O fumo daqui é tratado dia e noite. Nós revezamos o serviço, assim a produção e o tratamento das plantações não pára. Mas você sabe, onde tem muito escravo junto as coisas ficam difíceis. Eu queria pegar a Joana e ir pra um lugar bem longe daqui. Fazer minha própria plantação. Já aprendi bastante sobre fumo.

Aqui porra! Agora sim!

Esse cheiro do fósforo é muito ruim. Espero que ninguém perceba. Nós escravos não somos permitidos a usar fósforo. A gente pega brasa do braseiro mesmo. Mas esse aqui eu encontrei na praça. Deve ter caído do bolso de um desses idiotas que trabalham pro Sr. Barriga podre.

O meu trabalho é de cuidar dos cavalos. Mas gostaria de ser Desenhista.
Sempre que posso, desenho no chão de barro. Os animais, as paisagens, pessoas. Quando eu deito no palheiro pra descansar e olho para o céu, as nuvens fazem desenhos bem legais. Vejo desenhos nas coisas. Não sei explicar.

Ah que sede. Logo terei que comer algo. Minha barriga ta roncando. E todos esses pensamentos sobre a vida. Acho que sou um pensador.

Bom dia!

Meu Deus que susto! ninguém nunca me dá bom dia. Tenho cara de susto com certeza. Tento manter a normalidade. Ainda perplexo.

— “Bom dia!” — Respondo. Era um branco. Não se vestia como os brancos daqui. Deve ser de outro lugar.
— O senhor poderia me ajudar por um segundo?
— Senhor? Já viu preto ser senhor? Eu não sou senhor de nada. Sou apenas um escravo.
Quem é esse louco? Pelos trajes não aparenta riqueza, apesar de ser branco e ter sapatos limpos. Esse senhor baixo e gordo com certeza tem uma vida boa. Ele tem uma pedra preta retangular muito brilhante na mão.
— Mas pode me ajudar? — Insiste o estranho.
— O que voce quer? — Lá vem. Espero que ele tenha alguma comida. Também.
— Minha carruagem atolou ali e preciso da sua ajuda.

O português que esse cara fala e muito diferente de tudo que eu já escutei na vida. Acenei que “sim” com a cabeça e fomos andando.

O senhor olhava fixamente para essa pedra preta na mão. Onde tava brilhando, tinham alguns desenhos. Muito estranho. Eu não consigo parar de olhar pra isso. Parece que os desenhos estão se mechendo sozinhos. O que tinha nesse cigarro?

Perguntei a ele:

— O que é isso na sua mão?
— Ahh… Eu uso isso pra falar com as pessoas. Também consigo saber onde estou e que dia é hoje. Consigo ler um livro ou comprar coisas. De onde eu venho todo mundo tem um desses. Mas algumas funções, quase todas, não estão funcionando aqui. Naturalmente.
— Oi?!
— A gente chama de smartphone. “Gadgets”.
— Gege, Geges… ?
— Isso…
— Que “malepergunte”, de onde o senhor vem? — Medo desse cara.
— Eu venho de… O importante é o que eu vim fazer aqui. Qual é o seu nome?
— Os nêgo aqui me chama de Zé.
— Prazer, Zé. As pessoas me chamam de Loyd. Chegamos. Essa é a minha carruagem.

Continua…

Rio de Janeiro 20 de Abril de 1788.

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