Carteirinha gamer e a mutilação dos afetos

Erick Lúdico
Nov 2 · 7 min read

Sinto uma grande raiva por quem divulgou a ideia de que gostar mais ou menos de videogames depende de um “currículo” de jogos zerados, e sobretudo completados em 100%, elevando um número em um perfil que pode ser compartilhado. Ao mesmo tempo, trazer esse tipo de pensamento para a superfície nos ajuda a entender um pouco da nossa carência atual como indivíduos, o desespero de agarrar em qualquer coisa para nos dar uma sensação de pertencimento, partindo para a elevação do ego, existindo aquele espacinho para oprimir quem é considerado inferior e não faz parte do grupo.

Não vou entrar nessa parte da toxicidade, mas sim em como nós estamos nos construindo como indivíduos, onde a construção de nossas identidades está misturada em interagir com as pessoas, imprevisíveis por natureza, e produtos de consumos, que visam satisfazer nossas necessidades desde sua ideia na mente de um inventor.

Imagem meramente ilustrativa do The Witness

O ponto de partida é a extrema necessidade que nós temos de acompanhar tudo: os lançamentos da Netflix, o que estão falando do jogo Death Stranding, se o clipe novo da Anitta flopou ou não, aliás, o filme do Coringa é um masterpiece da sétima arte ou serve para alimentar uma cultura incel? Em cada grupo existe uma demanda de saber o que está acontecendo, de preferência ter uma opinião sobre tudo. Não é só o trabalhador autônomo, o freelancer para ser mais chique, que precisa dar conta de encargos que nem são da sua especialização, que em estruturas mais organizadas estão nas mãos de outros profissionais. A pessoa precisa se aprofundar nas vantagens e desvantagens da reforma da previdência, se a composição química do óleo é compatível com as refinarias da Venezuela, se vale a pena investir na taxa Selic porque você pode estar perdendo rendimento. Ainda tem o fator daqueles que podem brotar em uma rede social para questionar, inclusive uma dúvida honesta.

Você sempre está perdendo, como se a proximidade da morte já não fosse suficiente, tudo agora funciona como inflação, tudo se desvaloriza. Joguei o novo grande lançamento, gastei meus 250 reais, platinei o jogo inteiro, mas logo tem um novo lançamento e poxa, vou ficar por fora da conversa. A gente precisa se manter sempre atualizado para se manter aí na atividade. Para poder falar do The Witcher que sai na Netflix em dezembro, com certeza tem gente que vai querer ler TODOS os livros, ou pelo menos, procurar conhecer um pouco mais em vídeos de Youtube.

As pessoas já possuem suas demandas, de trabalho, de estudo, o que precisam fazer para chegar a tal objetivo. Mas as demandas estão presentes em aspectos que deveriam ser mais leves, nós precisamos a cada momento reforçar nossa identidade cultural, para sermos notados, termos assunto. Ninguém é obrigado a pegar a mensagem de um filme de primeira, ou ter que assistir duas vezes porque você PRECISA ver como a fotografia realça os dilemas do personagem. Existe aquela velha frase, você não gostou porque não jogou/assistiu/leu/ouviu direito, aí você se submete a fazer algo que não gosta para tentar enxergar alguma coisa para se sentir parte de alguma coisa.

Além da autonomia no trabalho, ter um currículo de 50 anos de experiência com 20 anos, você precisa ser esse super-herói outros aspectos da sua vida. Parece que nada nunca é o suficiente. Você precisa urgentemente mudar sua alimentação, independente do quanto você pode gastar em comida, regular a hora de sono, independente da sua jornada, não ter nenhuma luz azul no lugar onde você dorme, independente se você pode bloquear a luz do lado de fora. Reforçar a dopamina, ocitocina, endorfina, meditar recitando o sutra do diamante para conter o mau humor que é uma obra do Satanás e não porque você não está feliz com o jeito que vive. Você precisa tacar o foda-se para tudo, não pode ligar para os outros, se a vida não te oferece portas, seja o marceneiro da sua vida, construa sua porta. Mas tem tanta coisa que tenho que ser, marceneiro também?

Por que comecei falando sobre o tal do currículo gamer? Porque isso mexeu demais comigo nesse ponto, pois sempre tive em mente que tinha que saber falar de qualquer jogo, mesmo que não tivesse jogado. Esse modo de pensar me fazia jogar os títulos mais obscuros de emuladores, querer ter todos os consoles, ter conhecimentos das diversas histórias e as jogabilidades possíveis, usos de estilo artístico, construir uma referência de “gamer”. Mas, assim, sempre fui bom de falar de videogames, mas nunca era o suficiente, sempre me sinto inseguro em compartilhar opiniões, ao ponto de ter tido um canal no Youtube com 6 mil inscritos e apagar de uma hora para outra.

Comecei a ler livros, de verdade, em 2015 com a série The Witcher. Comecei a fazer mestrado e passei a ler mais livros, desde sobre jogos até autores conceituados. Por ser acadêmico, pesquisador, tenho que saber citar o Schiller, falar que o anime Serial Experiments Lain é muito Jean Baudrillard, forçando o nome dele com sotaque francês. Passei a gostar mais de cinema, entender pouco mais da linguagem, tive que construir um “currículo” para falar de filmes, de preferência os cults, tipo dizer que Solaris é melhor que 2001: Uma Odisseia no Espaço. Soma-se isso a época de adolescente que gostava mais de metal, e tinha que conhecer a porcaria dos álbuns que baixava em site russo, música por música. Cada música de 10mb do álbum Aégis do Theatre Of Tragedy era 1 hora esperando, sendo que gosto só de 3 músicas e nem lembro se ouvi o restante do álbum. Mas tenho que mesmo dizer para as pessoas “olha, o Theatre Of Tragedy é um dos expoentes do metal gótico, porque teve um álbum em 95 que eu nem ouvi e bla bla bla”. Mas sabe o que é pior? É que carrego esses conhecimentos, que não são inúteis na verdade, mas em nenhum momento falei para alguém, ou melhor, podia falar do Tristania que tem um dos álbuns que mais gosto da vida, que realmente ouvi, que realmente eu amo. É engraçado perceber que tenho certa vergonha de falar dessas coisas, muito disso porque é algo pessoal e que nada agregaria ao tempo de outra pessoa.

Quando pensei nessa segunda metade do título: a mutilação dos afetos; seria uma forma de descrever que a gente se preocupa tanto em consumir as coisas, saber opinar sobre tudo, construir uma identidade cultural, mas isso serve para nos aproximar das pessoas? Para dialogar ou arranjar treta no Twitter? Nos sentido fodões, intelectuais ou academicuzões por dizer que leu o Gramsci e poder falar mal da Ayn Raid por ter lido os três volumes da Revolta de Atlas? Será mesmo que nos aproximamos dos meios que a gente interage, será que um filme nos tocaria mais se não pensássemos no próximo a assistir, isso vale para se divertir com um jogo, relaxar com uma boa música, entender um pouco mais sobre a história do Chile, não só para “lacrar” em cima do bolsominion, mas nos entender como América do Sul.

Existe um negócio chamado Hedonomia, que tem a ver com nossa relação com produtos, atendendo nossas necessidades, desde segurança até o ponto mais alto que é individualidade, que é basicamente a gente perceber algo foi feito para nós, como uma peça de um quebra cabeça se encaixando. Estamos construindo a todo momento nossa identidade, ela é mutável, por meio das nossas relações com o mundo, natureza, pessoas, objetos etc. Mas parece que cada peça se encaixa de um jeito meio capenga, nós nos enchemos de pedaços, ficamos pesados e andamos preocupados com a possibilidades de as peças caírem, porque foram mal encaixadas, achando de forma ilusória que partes de nós estão caindo. Nós sentimos um peso em nossas costas, ao mesmo que sempre estamos perdendo, e tudo perde o valor, nos vemos esvaziados sem entender a nossa essência como pessoa. Acho que as 2 pessoas que estão lendo isso tem ciência que é melhor preenchermos nossa vida de afeto, experiências inusitadas sem precisar postar no Instagram, comparado a reforçar números de carteirinhas gamers, ser mais ou menos nerd, cinéfilo, cult, politizado etc.

Desculpa tomar o tempo de quem quer que esteja lendo. Talvez nesses dias eu tenha descoberto o meu sonho, objetivo, meta, algo do tipo. Simplesmente é SENTIR que tenho amigos, de ver pessoas com mais frequência, encontrar com elas nos fins de semana e falar sobre tudo, sem medo de achar que estou falando merda, conversar sobre tudo sem ter medo e ansiedade a respeito da imagem que passo. Todas as outras coisas que almejei, trabalhar falando de joguinhos, ser pesquisador, foi em torno disso, ter o costume de conversar com pessoas de forma despreocupada. Tudo que fiz, saber de jogos, filmes, livros, política, de ter estudado, feito uma faculdade e agora um mestrado, é para conseguir isso. E é incrível como tudo isso é nada, no momento que você vê que esses anos todos não te levariam ao que desejou, mas não sabia que desejava, ou achava que não era tão importante. Incrível perceber o que te faz feliz de verdade são situações que duram instantes e você interrompe porque não fazem parte de um “plano de vida”, da construção da identidade que você quer compartilhar. Enfim, tudo isso pode ser a demonstrar do baixo desenvolvimento da minha inteligência emocional, mas é melhor que mais uma vez ficar guardando as coisas.

    Erick Lúdico

    Designer e mestrando em Comunicação focado em jogos. Lutando para viver num mundo em que seja mais difícil defender Lords Of Shadow que direitos humanos 🤷‍♂️

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