ANTEONTEM — cap II — poderia ter sido

Ontem eu tive três ataques antes de dormir. Havia duas semanas que eu não tinha nenhum, daí ontem eu tive três. Minha sorte foi que eu fiquei tão cansado que não demorei pra dormir. Eu costumo colocar o barulho da chuva pra tocar no notebook e às vezes funciona. Júlia me acha louco por isso. Bruno, meu ex-colega de quarto, sempre ria de mim, mas um dia experimentou e se tornou tão viciado quanto eu.

A entrevista é à tarde o que me daria tempo pra fazer tudo. Tomar banho, me arrumar, almoçar e todas essas tarefas comuns, mas óbvio que a realidade foi diferente. Acordei mais tarde. Enrolei na cama. Passei o dia inteiro nervoso evitando conversar com meus pais. Eles são meio distantes, embora a palavra soe um pouco forte. Minha mãe foi criada assim, de maneira mais pragmática, e tenho essa teoria de que quando ela começou a se divertir, a viver sua vida, e então, se engravidou. A partir daí ela associou qualquer diversão à alguma consequência pesada. E pra piorar, meu pai se viu na obrigação de se casar com ela, quando provavelmente nem tinha certeza se queria namorá-la. Se casaram sem amor e isso permaneceu até hoje. Uma reunião bem pragmática. Não somos muito abertos uns com os outros a não ser em momentos em que realmente são complicados. Intensos. Droga, eu tenho essa mania de viajar em pensamentos e parar seja o que eu estiver fazendo, literalmente. Eu estava calçando o tênis e simplesmente parei pensando sobre isso tudo.

Tudo pronto, hora de partir. Ando alguns minutos até o ponto de ônibus. Vi dois casais nesse pequeno espaço de tempo. Contra eles, existem centenas de pessoas andando aqui sozinhas, mas eu só consigo prestar atenção nesses dois casais. Já consigo pensar em um post para o Facebook. Algo como “Aff, todos casais resolveram sair de casa hoje”. — Outro vício: hipérboles — . Eu tenho andado bem carente. Aliás, eu sou carente, mas quando você fica tanto tempo sem conhecer pessoas, sem beijar pessoas, isso pode te afeta pra valer. Hormônios. Mas aqui agora, esperando o ônibus para o que pode ser o começo de uma nova fase, eu não consigo evitar pensar que agora realmente pode se iniciar essa tal nova fase. Não que eu seja bom em conhecer caras pessoalmente, sempre preferi a internet como meio de abordagem. Mas sair de casa, ter um trabalho, ter dinheiro, eu definitivamente vou sentir capaz de voltar para os negócios. Encontrar com novos caras.

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“Cê tá chorando, amor?” Edu esticou o pescoço olhando pra mim fingindo espanto e segurando um riso que explodiria a qualquer instante. Em seguida, me abraçou pra me confortar enquanto eu engolia o choro

“Ah, como não chorar com essa cena?” eu enxugava meus olhos com uma mão enquanto apontava a outra pra TV. “Eu acho bem pesado quando a mãe dele tem toda essa visão de como seria a vida deles se o filho fosse diferente. E aí, de repente, ela se toca que ela nunca vai ter aquela vida, que nunca vai viver aquelas coisas com o filho”

“ Você fala como seria a vida dela se ele tivesse seguido a vida que ela queria pra ele, né?” ele me interrompeu sendo sarcástico.

“Sim. Tudo bem, ela tá sofrendo por uma expectativa dela. Mas quem nunca pensou sobre isso. Sobre como seria a vida se fôssemos diferentes. No nosso caso, se fôssemos héteros por exemplo, e toda aquela questão de se casar, ter filhos e…”

Ele segurou a minha mão. Seus olhos nos meus, o que sempre me constrange.

“Mas nós podemos ter tudo isso, ué”.

Perdi todos os meus argumentos enquanto nos inclinamos para mais um beijo.

*

Meu rosto está úmido. A língua ainda dormente por eu ter acabado de voltar uma das minhas crises. Mas foi uma lembrança tão boa, meu peito discorda porque, bem, ele está ardendo em dor, em saudade, mas ainda assim, foi um dia bom, foi bom revivê-lo. Nem me importo em notar que tem uma senhora me observando de rabo de olho. Pelo tempo que tem, sei que perdi um ônibus e o próximo passa em dez minutos. Tento me manter no presente como a Maria sempre fala comigo nas sessões. Aperto as minhas mãos. Conto os meus dedos. Respiro fundo. Vou repetindo o processo.

Estou em frente à agência que a Júlia trabalha. Mando uma mensagem pra ela e entro no prédio. Uma moça bem simpática me recebe.

“Joaquim, não é? Meu nome é Marina, eu quem vou conversar com você hoje. O Roberto teve um imprevisto, mas depois vocês conversam pessoalmente.” Ela tinha um sorriso que me acalmou instantaneamente. Eu agi com naturalidade até ali o que já foi um ponto a meu favor. Apertei minhas mãos enquanto a seguia até uma sala de vidro. Avistei a Júlia na outra extremidade, lá no fundo, assim que me notou acenou loucamente. Eu dei um sorriso nervoso em resposta.

“Pode se sentar aqui, Joaquim.”

E então tivemos nossa conversa, o que resumidamente foi ela me contando sobre como funcionam as demandas. Como a agência funciona. Ela me perguntou das minhas experiências. Mencionou o quanto gostou do meu e-mail. E, por fim, perguntou se eu estava trabalhando em algum lugar no momento. Quando eu disse que não, ela pediu pra eu aproveitar meus últimos dias de folga.

Eu saio do prédio eufórico, já cogitando a playlist pra ouvir no caminho de volta pra casa. Mas, minha mente é muito rápida e com uma tendência ao negativismo que me corrói. Começo a pensar em todos os problemas que esse trabalho pode implicar. O percurso: casa e trabalho, por exemplo. De ontem pra hoje tive quatro crises ao total. Eu vou ter que pensar muito, e se eu perder prazos como perco ônibus? E se eu cometer algum erro que comprometa a própria agência? E se eu tiver uma crise no meio daquelas pessoas que parecem ser tão legais?

Minha visão fica turva. Meu corpo começa a adormecer. Sinto frio e ao mesmo tempo começo a suar. Me apoio no primeiro lugar que consigo e espero por todo aquele ataque nostálgico, mas tem algo diferente. Meu coração acelera e começo a preocupar. Não estou tendo um ataque nostálgico. Eu estou desmaiando.

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Esse é o segundo capítulo do livro Anteontem que é sobre o Joaquim e seus episódios de viagem no tempo dentro da sua cabeça. É uma ideia que tenho há algum tempo e resolvi colocá-la pra fora. Sintam-se à vontade em falar o que acharam. E em breve vou colocando a continuação. Espero que gostem.

Leia o primeiro capítulo.
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