E O QUE ME RESTOU FORAM APENAS 90 REAIS

A história de como perdi o que poderia ser o amor da minha vida


Tudo começou em um Outubro de primavera, eu, um cara livre e com um grande futuro pela frente. Nada me prendia, nada me parava e assim que era.

Mas como num golpe do destino, ou por uma indicação de um amigo aparece o sorriso que faria a minha vida mudar e meu mundo se transformar de maneiras que jamais imaginei. E derrepente como uma rasteira muito bem dada lá estava eu de novo passando por toda aquela magia de se conhecer e se apaixonar por alguém aos pouquinhos.

Devagar ela foi entrando na minha vida, ganhando meu coração e quando menos percebi já tinha total domínio por aquela área que sempre julguei governada com austeridade por meus princípios e convicções: meu coração. Entenda, sempre me julguei no controle de tudo, sempre repetia a mim mesmo a frase de que nunca iria casar, de que o mundo era muito grande e de que me juntar a alguém limitaria minhas possibilidades. Mal sabia eu que meu mundo estava prestes a ficar tão pequeno que caberia em apenas uma pessoa.

E como era bom! Era bom de mais amar alguém de verdade, e admirar cada detalhe daquela existência que me trazia cada vez mais fundo a conhecer sua essência se aproveitando da minha curiosidade sempre austera.

Para o bem ou para o mal,eu trouxe ela pra minha vida, pra perto de mim e tudo que circunda meu mundo. Meus amigos, minha família e minha casa logo a receberam de portas abertas, afinal ela me fazia bem, porque não?

E como me fazia bem, é impossível descrever o sentimento que reinava dentro de mim, era um amor tão tenro, um amor maduro diferente dos tempos de adolescência em que a paixão e hormônios ardiam em fúria sempre pensando que aquele amor seria o último. Não, esse amor era verdadeiro, sólido, assim como Shakespeare uma vez citou em de seus sonetos:

De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.

Partindo dessa premissa meu coração estava entregue, rendido, e pronto pra esquecer minhas convicções e dedicar minha vida, minha energia e todo o meu ser a alguém além de mim. E como dediquei, e como fui feliz!

O primeiro “eu te amo” sai vacilante, com medo de não ser correspondido, mas sai como uma energia tão grande que me deixa leve, livre e feliz por estar de verdade amando alguém.

Encontrei minha menina, e como era bom ter uma parceira na vida. Uma pessoa só pra mim eu pensava, alguém que me entende, que está do meu lado e que me trazia o lado bom, luminoso e feliz da vida. Mesmo quando tudo ao redor desmoronava.

E o tempo foi passando e a cumplicidade crescendo, um conhecendo o outro, um ajudando o outro a crescer e nunca imaginei que o amor poderia ser tão engrandecedor e tão ensurdecedor em certos momentos. Tão ensurdecedor que não me deixou escutar os sinais claros que estavam sendo proferidos a mim.

O sentimento que eu nutria me mantinha vivo, inspirado, forte pra encarar qualquer tempestade e como um capitão valente enfrentei mares revoltos e vivenciei muitas aventuras ao lado dela, vivenciei tudo o que um amor de verdade poderia proporcionar, experimentei ser apaixonado verdadeiramente por um um sorriso. Mas não só um sorriso, eram cinco deles, os quais só eu identificava. Vivenciei me apaixonar por cada defeito e ao mesmo tempo sofrer por essa paixão. Cada momento, cada sentimento, cada sorriso, pra sempre guardado agora dentro de um baú escondidinho em algum canto da casa.

Eu joguei o jogo, e sabia dos riscos, sabia que tudo isso poderia acontecer e desbravei esse caminho que nunca explorei antes. Pelo menos por alguns momentos soube o que era amar e ser amado, o mais alto luxo que um ser humano pode ter. Mas nem tudo são rosas e ninguém é perfeito e por algum erro meu, ou talvez por um alinhamento incomum de planetas o coração dela já não batia mais tão forte por mim. Eu percebi, mas resolvi lutar para resgatar aquela faísca que poderia voltar a se tornar a lareira que esquentava nossas almas em sintonia. E eu tinha fé, sempre tive fé.

Em algum momento, em algum ponto do espaço e tempo em que não sei identificar o brilho foi embora e eu já não era mais a pessoa que ela admirava, acho que mudei demais. Não sei. Mas nada mais era como antes e eu sentia isso, só esperava pelo inevitável e rezava para que o coração aguentasse o golpe quando chegasse a hora.

O tempo foi passando e já não era o mesmo amor, era cumplicidade, era carinho, era admiração. Mas não era fogo, não era paixão, não era desejo, ingredientes vitais e presentes nos casais mais novos e mais antigos. Já não existia mais o desejo de agradar como antes, de ambos os lados e o brilho que antes eu via no olhar já se apagara. E a possibilidade de ter a minha velhinha ao meu lado, de cabelos branquinhos cuidando das suas plantinhas como ela sempre amou cuidar já era fraca, sem luz no fim do túnel, turva como o sol numa neblina matutina. Até que em um momento se tornou negra, opaca e vazia assim como o espaço que antes era meu no coração dela.

Vou sentir falta das noites levando ela pra casa, quando ela dormia no banco do carona de tão exausta. Sentirei falta de pegar na mão quente dela quando viajávamos de carro, como num gesto de “tô contigo pra tudo nessa vida.” vou sentir falta dos cinco sorrisos dela, e de acordar dando milhões de beijos carinhosos pra fazer o dia dela começar feliz, de dormir do jeito que só nós dormíamos, o único casal que dormia de rostos colados um no outro. Sentirei tanta falta de cozinhar com ela, de brincar com o cachorro dela, de buscar ela na faculdade, de ver ela cuidando das plantinhas dela e imaginar de como ela cuidaria do nosso jardim.

Vou sentir falta de ver aquele olhar que antes brilhava por mim.

E o que me restou foram 90 reais, que ela me devia de uns cafés no starbucks e uma balada que fomos juntos.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.