A indiferença do gato

Outra vez o telefone, o telefone sempre interrompe alguma leitura. — Olha poeta, vamos tomar uma cerveja, olha, marcamos semana passada. — Sim, eu digo, marcamos, mas eu não estou na cidade. Viajei. — Viajou pra onde? — Pro mato, rapaz. Estou na roça, escondido de gente como vocês. Obrigado pelo convite, mas recuso. — Eles sempre me importunam. Volto outra vez ao livro, mas já não sei onde parei a leitura. O telefone sempre me interrompe. Pior é quando escrevo, e o telefone toca, e o telefone quando interrompe a escrita parece outra vez o inferno de se viver com os outros. Os outros são sempre um saco, sejamos sinceros. Me disseram que um tempo isolado me faria bem, então eu vim me isolar no mato. — A natureza é maravilhosa, vai te inspirar um bocado. — Mas, nem com o álcool, o verde do pasto e as vacas mujindo e os galos cantando me fazem escrever outro poema. Os gatos, talvez. No entanto, mesmo os gatos, rendem um ou dois ou três poemas e então são só os gatos.

Comprei um cachimbo e fico alisando a barba enquanto fumo olhando o nada. Quem vê de fora até imagina uma cena romântica, o escritor contemplando o horizonte, mas eu imagino que talvez o melhor fosse juntar minhas bolsas e voltar ao lugar que eu conheço e correr entre os carros das seis horas da noite, no horário do congestionamento e comprar um conhaque no bar do Baixinho e beber com meia dúzia de homens com espíritos tão megalomaníacos quanto Napoleão. Digo, eu também sou megalomaníaco, talvez até mais. Provavelmente todo mundo se dá mais importância que deveria, somos a câmera subjetiva de nossa própria vida. A morte reduz tudo num corte seco e montagem paralela.

Esqueço o livro e preparo uma jarra de caipirinha. O sol de final de inverno já queima minha pele de índio e a seca já começa a despertar os primeiros incêndios nos pastos. O ar fica pesado com o cheiro de queimadas e a fumaça densa defuma a barba, o cabelo e a roupa do corpo e a roupa do varal e tudo fica com um cheiro meio queimado, coisa de roça. Vocês devem pensar: que vida maravilhosa. Mas eu nunca aplaudi o sol, eu olho o sol de sertão chegando e sei que o próximo verão vai ser daqueles de acordar suando às seis da manhã. Nota importante: meus cigarros estão acabando. Aqui tem coisas que são como ouro: conhaque e cigarro, tem um valor muito maior do que eu imaginava.

Determinadas coisas, como os gatos se aninhando no sofá ou no meu colo, enquanto eu escrevo. Isso sim tem um nível de beleza que me toca, eu já disse, entre o verde do horizonte e os gatos, prefiro escrever sobre os gatos. Com seu espírito de imperadores de grandes impérios e caixinhas de areia, gatos são como espíritos evoluídos. Não dão importância a nada, se você não olhar eles não olham de volta, tampouco. Nota importante, outra vez: a comida dos gatos anda quase no fim. Não que isso faça diferença, eles caçam. Sobre a beleza de coisas inúteis: um gato comendo um tiê-bicudo. É uma visão sublime, com uma profunda sensação de terrível, quando uma beleza devora outro objeto de beleza, é como ver uma grande montanha ou um grande abismo, há sempre uma forma de espanto.

As penas espalhadas pelo chão e o som crocante da mandíbula do gato quebrando os ossos do pássaro. Cortázar saberia fazer um conto sobre isso, mas eu não sou Cortázar. Muito que pelo contrário, não consigo falar sobre coisas pequenas, elas me paralisam. Fixo meu olhar no pássaro, agora morto. E na indiferença do gato que, sem saber, devora um pássaro quase em extinção.