A lei do silêncio

ou um degradê de pretos

Ilustração de João Pinheiro (R. Arturo Martini — Jardim Marília (27/05/2015)) http://jpinheiro.com.br/index.php/project/diario-grafico/

Osvaldo ganhou um prêmio de xadrez na escola aos quinze anos. Não que isso faça diferença em seu futuro, mas fazia diferença pra ele. Tinha um complexo de ser inteligente, achava que era ótimo. Ou talvez fosse apenas medíocre como eu era e todos nós fôssemos ruins no xadrez. Osvaldo e Vanderlei eram amigos desde pequenos, desde os quatro anos de idade. As mães trabalhavam e os filhos ficavam na rua. Rua de gente boa, os vizinhos cuidavam dos meninos. Eu conheci os dois, que eram mais velhos, quando eu tinha meus quatro também. Quatro é um número de grande mudança na periferia de San Pedro. Depois dos quatro anos, todo mundo confia em deixar os filhos sozinhos sob os cuidados das vizinhas, ou sob os olhos. A maioria de nós ficava mesmo na rua, brincávamos de futebol com bola de meia, ou de bete. Bete é um jogo estranho, não sei como conhecíamos aquilo, mas era quase uma tradição dos meninos mais velhos, que aprenderam com os que eram mais velhos que eles. Em outros lugares, alguém me contou que também é chamado de bets, tacobol ou taco. Sempre achei bete o melhor jeito. Era como chamávamos naquela época.

Mas não quero me alongar em contar nossa infância, nem como conheci Osvaldo, nem como conheci Vanderlei. Nem como conheci o jogo. A história começa com Osvaldo e seu prêmio de xadrez e termina com o assalto do ônibus de Alto San Pedro, dez anos depois. Osvaldo sempre se gabou daquele prêmio e de como aquele prêmio assegurava sua inteligência superior contra nós. Era quase um mantra e assim foi a vida toda. Aos vinte e dois eu era ainda mecânico no setor de laminação da usina, Osvaldo era o um-sete-um do bairro e vivia de pequenos furtos e golpes no centro da cidade.

Éramos uma turma de rapazes que cresceram juntos e todos nos conhecíamos e nos respeitávamos mais do que respeitávamos aos outros. Era como um código de conduta. Osvaldo e Vanderlei, que praticava pequenos assaltos às residências de condomínios granfinos, eram da mesma turma que eu e eram os meninos mais velhos. Eu conhecia tudo o que eles fizeram e sabia de tudo o que eles faziam. Eles, por outro lado, também sabiam tudo sobre mim. Então, se nós sabíamos tudo o que fazíamos de errado, o melhor éramos ficar de bico fechado. Era a lei do silêncio. Nenhum de nós era santo, eu só não estava cometendo os mesmos ilícitos que eles. Fazíamos cada qual o seu jogo e, assim, levávamos a vida.

Eu, aos vinte e dois. Osvaldo e Vanderlei aos vinte e cinco. Aquele foi um dia comum do começo ao quase fim do dia. Acordei, tomei um café preto com um cigarro. Dei um beijo na minha velha mãe Alcinda, mãe de criação que me pegou depois que minha mãe foi embora. Sempre senti um respeito imenso por ela. Guerreira, mãe de santo, me cuidou a vida toda como se fosse cria dela. Eu não tinha irmãos e Alcinda não tinha filhos, fui criado como único num lugar onde único só se fosse o bilhete do coletivo. Depois daquele beijo carinhoso saí pela porta e peguei o ônibus pro Distrito Industrial de San Pedro. Onde a usina existia como um palácio, com seus dois alto-fornos gigantes que pareciam torres, e vários complexos espalhados por uma área quase impossível de imaginar. A usina, em questão de espaço, tinha um terreno que cobria mais espaço que o bairro onde eu vivia. Era um colosso.

Eu exagero as vezes, eu sei. É que sempre tive paixões por aquelas máquinas imensas, que faziam calor e barulho e produziam aço, às toneladas, no final. Aquilo era sinfonia. Fazia mais barulho que minha cabeça e, por resultado, abafava o excesso de complicações que eu criava dentro de mim.

Desmontei peças, apertei parafusos, troquei peças e suei como porco. Tirei quatro ou cinco pausas pra fumar um cigarro, pausas pequenas. E uma grande pra almoçar como um rei no restaurante da usina. Escrevi um pouco também.

Xadrez era pra Osvaldo o que a literatura era pra mim. Uma esperança infalível de sucesso.

Eu acredito que Osvaldo, naquele mesmo dia tenha acordado, tomado um café e também fumado um cigarro. A mãe de Osvaldo é mais nova que Alcinda, então acredito que já tinha ido trabalhar quando ele acordou. E ele não deve ter dado nenhum beijo na testa de sua mãe naquele dia. Ele e Vanderlei já vinham pensando naquele esquema, assaltar o ônibus mais cobiçado da cidade. O ônibus que, como nós diziamos, era o Expresso Cidade-Toda. Todo mundo, praticamente, podia pegar aquele ônibus. Ele percorria a cidade toda e quase todo mundo usava o Alto San Pedro em algum momento do dia. A passagem custava dois e setenta e cinco; e se calculássemos que pelo menos vinte mil pessoas andavam naquela coisa por dia, à tarde ele teria milhares de passagens pagas ali.

Mas Osvaldo tomou um café ralo e fumou um último cigarro da noite anterior antes de sair. Ele não viu sua mãe, não se despediu dela, nem deixou um bilhete dizendo que ia demorar.

Vanderlei, eu acho, deve ter acordado numa ressaca, como sempre acordava e contado o dinheiro que ainda tinha na carteira. Não tinha mãe, que morreu cedo num desabamento quando eu era pequeno demais pra lembrar. O pai, que era dos melhores pedreiros e alcoólatras que San Pedro já viu, morreu quando ele era adolescente. Viveu com os irmãos mais velhos até conseguir se sustentar sozinho no velho barraco do pai com os pequenos roubos que fazia.

Eu trabalhei. Suei e trabalhei. Eu não julgo os rapazes porque também não fui santo nessa vida e acredito que uma hora vou pagar os meus pecados também. Deus deve estar me vendo lá de cima e julgando qual a minha pena, é assim que imagino Deus, como um velho juiz cansado demais pra cobrar tudo na hora. Os meus pecados ele deixou pro final, pro sofrimento prolongado. Vanderlei e Osvaldo ele cobrou rápido, num corte seco de guilhotina. Depois do trabalho peguei o Alto San Pedro, como sempre fazia. Naquele horário não andava muito cheio como de costume, mas já havia rodado o dia inteiro, desde que eu havia acordado e agora ia para a última viagem, até trocar o motorista e cobrador. Era o ponto alto da grana no ônibus.

Atravessamos a cidade do Distrito Industrial à velha Pedreira. Que era onde eu descia, havia uma trilha no mato e um escadão logo à frente onde subíamos para nosso recanto sagrado e isolado das benesses de San Pedro Velha, onde moravam os granfinos.

Senti uma freiada brusca. O ônibus estancou numa violência bruta de motor e pneus fedendo a queimado. Ouvi uma gritaria lá fora e uma agitação dentro do ônibus. Eu sentava sempre no fundo. Como sempre fui na escola. O fundo é o meu lugar, assim as pessoas não me olham, eu pensava. Dois homens subiram na parte da frente, pararam no cobrador e roubaram o dinheiro do caixa. Rapidamente pularam a catraca e foram recolhendo todos os objetos de valor dos passageiros do ônibus, como filme de hollywood em que os ladrões contam os segundos pra roubar tudo o que dá e fugirem num carro importado. Roubaram todo mundo. Quando se deram por mim, no fundo do ônibus, ouvi a voz de Osvaldo e ele engasgou falando.

- Deu sorte, Zé.

Eles desceram rápido pela porta de trás e saíram correndo pela trilha do mato. Fiquei constrangido, sabia que eram eles e sabia que eles não me roubaram porque nos conhecíamos há muito tempo. Senti vergonha das outras pessoas que me olharam com raiva e sabiam que eu não tinha sido roubado. Me colocaram no mesmo lugar que eles e eu me senti pela primeira vez, desde que éramos moleques, como um membro da “gangue”. Abaixei a cabeça, ri um pouco, mais de nervoso do que por qualquer outro motivo. E desci do ônibus. Acendi um cigarro enquanto andava.

Subi um caminho três vezes maior porque o assalto foi ainda longe do escadão onde eu subia.

Pensei em mim. Pensei em roubar também. Pensei que talvez fossem atrás de mim como cúmplice do assalto. Não sabia o que pensar, então, pensei em várias coisas, inclusive pensei que Vanderlei e Osvaldo talvez viessem atrás de mim, pra que eu não dedurasse ninguém. Fiquei com um misto de nervoso e ansiedade. Mas cheguei em casa. Dei outro beijo na mãe Alcinda e tomei um café morno que ela passou à tarde. Senti o cheiro do cabelo dela lavado e senti aquele prazer de ter sido criado por aquela mulher maravilhosa. Senti medo, lembrei das brincadeiras de criança, do polícia-bandido que brincávamos com pedaços de pau fingindo de armas e me dei conta de que não existia aquela dualidade. Éramos um degradê de pretos. Ninguém tinha virado polícia, mas alguns viraram bandidos. O resto… como eu e outros amigos nossos, tinhamos apenas aceitado a condição de trabalhar forçado, mas sem chicote.

As notícias correram a cidade. Eles ficaram escondidos num esconderijo muito velho no mato que brincávamos de selva. Como se fôssemos desbravadores das florestas africanas. Pensávamos em leões, rinocerontes e gorilas gigantes. Éramos crianças. E eu percebi que eles não cresceram tanto, se esconderam no lugar onde nos escondíamos quando éramos meninos. Foram brincar de selva. Dois dias depois encontraram os dois mortos lá. Munições de pistola calibre 40, a mesma usada pelos policiais. Senti vontade de chorar, de contar ao mundo o meu sofrimento que era o sofrimento dos meus irmãos.

Mas é a velha lei… aquela que só o silêncio garante o que vive.

Eric Moreira