Das flores que desabrocham na boca da gente

Jo Jankowski (créditos)

Trinta e tantas primaveras — quem diz “Trinta e tantos invernos”, é quem sofre de disfunções sexuais, eu gosto mesmo é do gozo da primavera, botões em flor e todo o desabrochar da vida — e eu não consigo me lembrar de mais nada senão de um grande ápice de sexo & fúria de uma única noite. Escrever é uma forma de gozar duas vezes, eu digo. Meu pai dizia que escrever é duplicar o porre, você se embriaga uma vez quando vive e outra quando escreve sobre o que viveu. E San Pedro não dá a mínima, é uma cidade infeliz que proporciona felicidades como raios de sol numa escuridão fodida de cem anos seguidos.

Meu pai foi o maior jornalista desse moquifo e eu acabei virando o pior jornalista de todos. Ainda assim, ganho meu prêmio. Mesmo que um prêmio por ser o melhor naquilo que não é bom. Meu pai era um exemplo, eu não sou exemplo de nada. Sou um perfeito exemplar, talvez, da degeneração do espírito humano na modernidade. Coisa de acadêmico, entende? Abri um disco antigo dos Rolling Stones. Senti aquele cheiro de disco velho. Beggars Banquet é um pau cheio de tesão, uma boceta molhada, coisa que me excita até o último pelo.

Bebi três cervejas com dois jornalistas formados e corri em direção ao metrô. Eu ainda não tinha me formado, eu ainda vivia com a minha mãe. Eu ainda não tinha me livrado da sombra do meu pai, o maior jornalista de todos, e eu era só um menino tentando seguir os passos do bêbado mais conhecido de San Pedro. O último trem passa sempre às 11:05. Depois, só às 04:05. O primeiro, o pai de todos os bêbados. A carruagem das quatro da manhã. Corri pela R. Fonseca e pela Moraes, cortando caminhos. Nem assim. O trem partiu sem mim. Chutei a primeira lixeira que vi e acendi um Arizona, um cigarro barato que não existe mais. Tentei ligar para casa, pra avisar a mamãe que não consegui voltar. “O trem passou, minha mãe. Não posso ir pra casa até às quatro”.

Uma pena. Pena uma ova, tirei o papel do bolso e disquei o número dela. Uma belezinha de um metro e sessenta e cinco, morena, conhecida de um ou dois ou vários rolês. Mas, não existe tesão a primeira vista comigo. Meu tesão mora na língua, vai ver, é por isso que virei escritor. Gosto de gente que fala e gosto de gente que me seduz pela conversa. Sempre disse que me apaixono pelas formas modernas de sereia, seduzem a gente com a boca, mas não cantando. Elas até dançam — e dançam muito — mas tudo o que seduz é o que se projeta de forma encantadora de seus lábios.

Entendo como velhos marinheiros bêbados se encantavam com essas lendas. Eu sou velho e ainda acredito.

- Alô?

Ela disse, no telefone.

- Alice, é você? É o Lourenço.

- Quê isso, gato? São onze horas da noite. Por que tá ligando a essa hora?

Eu me segurei pra não rir, precisava não rir.

- Perdi o trem, meu bem — disse, cantando um samba imaginário — não tenho lugar pra ficar. Pensei que, talvez, cê quisesse dar um passeio ou fazer qualquer coisa, quem sabe?

Ela respirava no telefone, e isso me conduzia num tesão juvenil fodido. Eu já disse, eu sou escritor e piro mais na imaginação do que posso. Além disso, meu sangue latino não nega, babo de excitação quando isso acontece.

- Ok, por que não? Passa em algum lugar, compra alguma coisa pra gente beber e vem. Cê pode dormir no sofá.

Sofá? Deus é pai, mas não é padrinho. Xangô que me ampare nessas horas, pensei. Corri dois, três, quatro, cinco botecos. Procurando vinho e não achei em nenhum deles, garrafas de vinho estão em extinção. Conhaque! Normalmente ninguém gosta de conhaque no rolê, mas eu gosto. Gosto muito. Levei a garrafa a tira-colo, andei até ao apartamento dela. Entrando no prédio, uma senhora segurou a porta, sacou a minha felicidade e disse um “Boa noite” contente lembrando dos tempos de namorada, do velho marido, que eu não conheço, mas imagino que tenha tido.

Subi as escadas e estanquei na porta. O coração vazava pela boca, essas coisas acontecem quando a gente é jovem. Depois, quando a gente é velho, acabam. Mas, as vezes, e muito por acaso, elas acontecem. A gente se sente vivo pra caralho, é verdade. Lá dentro eu ouvia a música soando como um orgasmo aos sussurros.

Ela abriu a porta, o corpo suado. Olhos mais firmes que gato quando caça. A boca que salta pra fora. A carne que queima. Meus olhos vêem mais do que eu gostaria, ser escritor faz saltar os detalhes, mas sobressair as sensações. Não é a toa que todo escritor tem uma propensão ao erotismo. Eu, mesmo, tenho desejos irreprodutíveis na escrita. Tenho que guardar e guardo como objetos de valor. E todos os desejos que realizo, o faço como um glutão. Devoro e ainda chupo os dedos.

Tesão é assim, talvez o tesão latino. Acredito mesmo que exista uma diferença no tesão ao sul do equador, na América. Ou sou um exemplar perverso da sexualidade. Tanto faz, porque o que importa é que me dei de cara com aquela figura espectacular. Salpicada de suor no batente da porta. E meu coração, tomado de assalto por uma disritmia feroz. Tesão é força motriz.

- Vai ficar parado aí, quem nem burro no sol? Entra.

Ela disse, mas não prestei atenção no que dizia, mas na boca que mexia. Bocas seduzem mais do que todo o resto. Embora todo o resto seja puro fogo e eu, quando assim, sou gasolina. Incêndio pouco é bobagem e a gente apaga com a língua. O conhaque, vale lembrar, ao contrário do que acontece normalmente com as bebidas em geral, aumenta o vigor. E coloca todo cabra de pé. Mas confesso que a força da vontade daquela mulher, era capaz de me deitar — não só na cama, mas no chão e em qualquer outro lugar.

E foi exatamente o que ela fez. Ou que eu fiz, talvez, não sei. Há uma dimensão de loucura num desejo tão forte. Quando me dei por mim, era bicho lambendo entre as coxas dela. Coisa que me enche a boca d’água, agora que penso. Eu, as vezes, acho que falo melhor com as mãos e, naquela hora, creio que minhas mãos disseram tudo. Pegaram, seguraram, apertaram e correram aquele corpo.

Entre uma transa de Caetano e uma transa entre bichos há sempre um cigarro de intervalo, um beijo molhado que rasga a satisfação em outro impulso de sexo e fúria. Hoje, digo que dou risada, mas gostaria mesmo e o desejo corre o corpo como eletricidade. Sexo e fúria são a prova de Deus e o Diabo arranhando as minhas costas.

Daí que penso mais nas primaveras da vida. Flores que desabrocham na boca da gente.

Eric Moreira