Experiência estética, prosa-delírio

Cheguei às 6:30 em casa, dia de folga. Não sei como cheguei em casa, mas acordo assustado meio-dia e quarenta e cinco & olho minha carteira. Sumiram trinta reais que me restavam. “Me roubaram ontem à noite”, penso. No entanto, o mais provável é que eu tenha gasto com alguém, tenha pego um táxi ou simplesmente deixei cair da carteira pagando a conta. Tem três anos que não perco dinheiro no meio do porre, velhos hábitos não morrem. Jim me liga e diz que quer me mostrar um quadro, eu digo que ele venha depois das três, quando vou estar pronto pra servir uma cerveja e podemos beber juntos enquanto ele me mostra o novo Jagunço que ele pintou no meio do porre de cachaça.
Ele chegou às quatro, eu mesmo já havia me servido uma cerveja esperando a visita. Jim passa pela porta com um quadro imenso e coloca a favor da luz da janela da sala do apartamento. Acende um cigarro e fica olhando, com os olhos cheios d’água para o próprio quadro, sem dizer nada. Eu tranco a porta e vou andando — ainda não vi o quadro — e me coloco do lado dele. O quadro é uma maravilha do novo mundo, eu digo pra mim mesmo e acendo um cigarro. Fico olhando o quadro junto com Jim, ele é o pintor mais talentoso que eu conheço — não conheço muitos, mas isso basta, ele é maravilhoso. E meus olhos também se enchem de lágrimas e quando suspendemos o silêncio só o que dizemos é:
— A experiência estética em si. A ressureição do quadro.
Que foi um trecho da nossa última conversa sobre pintura & objeto de pesquisa do nosso antigo grupo de pesquisa em Estética na universidade. O fato estético, quando acontece, é como um beijo da mulher que a gente ama, como carinho de mãe, como beijar a boca de Cèzanne.
