Lázaro, o construtor de palácios sem reboco

Alexandre de Maio (creditos)

San Pedro anoitece sempre com essa brisa meio morta, coisa de filme de terror. O dia todo faz calor e a gente sua e no Distrito Industrial as máquinas produzem aquela longa linha de fumaça que dá pra ver de longe. As máquinas e seus dentes de ferro comendo tudo, digerindo e transformando em materiais de tudo quanto é jeito. Desempregado, me falta motivação pra tudo. Trabalho na feira; trabalho de servente de pedreiro; faço vários bicos durante a semana; mas bico não paga conta. No máximo, o que você consegue é prolongar o modo de sobreviver. San Pedro é a grande convulsão do mundo, produzindo os piores sonhos e terríveis pesadelos quando a noite avança devorando tudo com uma fome voraz.

Com as sacolas de compras, Rita sobe o morro desde o escadão até a rua dos miseráveis; lá você avista um conjunto de barracos construídos de pau-a-pique ou zinco, ou quaisquer materiais de entulho. Quando somos pobres, temos que ser criativos. O marido, Lázaro, foi pedreiro durante muito tempo e eu trabalhei com ele nos primeiros meses em que vim morar no bairro da Pedreira. Um homem magro, mas absolutamente forte; tinha as veias saltando dos braços e músculos que eu, mesmo jovem, não tinha. Era inverno, por volta de junho ou julho, e ele trabalhava em um muro de contenção no bairro de San Rafael. Todo dia de manhã passava em frente ao meu portão, acenava, e dizia:

- Bom dia, Julião. A labuta continua.

Nesse tempo, já era velho, eu estava desempregado outra vez e pensei em pedir um emprego como servente outra vez. Lázaro nunca me negaria um emprego, mas ele já tinha um novo servente e eu não gostaria de tomar o trabalho do rapaz, sendo que eu não trabalharia mais do que seis meses como servente, até encontrar outra ocupação. As contas iam apertando, a comida andava escassa e a chepa da feira não dava conta de duas alimentações diárias. Não podia almoçar e jantar, com medo de que faltasse comida. Todos os dias eu levantava cedo, ia para o portão e ficava lá, até o Lázaro passar; ficava assim, como um pobre que ocupa o tempo vendo os outros viverem, pra não ter que se preocupar com a própria vida que passa. Sentava com o copo de café numa mão e um cigarro na outra, o café ia sempre bem açucarado, pra evitar ficar com pouco açucar no sangue. E o cigarro, sempre enrolado à mão, de forma que o custo do vício não atrapalhasse muito a despesa de sobrevivência.

Muita gente ajudava, quando podia. Ernesto, o peixeiro da feira, me dava alguns peixes de vez em quando. Ele dizia: Peixe é complicado, se envelhece muito, não vende e eu jogo fora. Prefiro doar antes de apodrecer, que assim cumpro meu dever cristão. Pode ficar com esses dois, os outros levo e acho outro que precisa. Era sempre assim. Quando tinha peixe pra dar, me dava. Quando não tinha, se lamentava e dizia pra voltar na semana seguinte, que me dava até peixe fresco, se fosse o caso. Pobre tem um senso de compaixão que é maior que a vontade de lucro, aprendi na raça que fome ninguém te deixa passar, desde que você não seja orgulhoso. Orgulho não enche barriga, minha vó me disse quando eu era pequeno. E por isso aprendi que pedir não faz mal a ninguém. E foi pedindo que Lázaro chegou em mim naquele dia de manhã.

- Bom dia, Julião. Que deus te abençoe, menino. Venha cá, não te interessa me ajudar na obra lá de San Rafael, não? Meu servente foi embora ontem, e agora, vou trabalhar sozinho até terminar. Mas se você puder, olha, posso te pagar por dia.

Senti a barriga roncar. Dinheiro pode até não ser de comer, mas compra o que é; então eu me vesti e saí com Lázaro para a obra. Trabalhei com ele outros quase seis meses, em muro de contenção, em casa de gente rica, em casa de gente pobre, fizemos juntos até uma capela no bairro. Então fui contratado num mercado do centro. Erguer um muro de contenção é algo pesado, serviço de cabeça e de braço. Lázaro era um pedreiro que podia erguer qualquer palácio. Tinha experiência e conhecimento que podia dar e vender; e ainda sobrava. Acabou que foi também um muro de contenção que acidentou Lázaro e acabou matando o velho construtor de castelos. Num dia qualquer, como num mistério, o muro caiu com tudo em cima de Lázaro. Ele, que era o pedreiro capaz de construir palácios, morreu debaixo do próprio cimento.

Agora Rita subia, todos os dias depois do trabalho, aquele morro que vem do escadão. Desde o centro até a Pedreira. E vive num barraco mal acabado da rua dos miseráveis. Ela, que era esposa do pedreiro capaz de construir palácios, some cada dia mais, debaixo das rugas e dos cabelos brancos e cria suas duas filhas com dificuldade e força de lágrimas que ninguém mais vê; e as paredes da casa sem reboco esperam com ansiedade o dia em que Lázaro traria argamassa e cimento; e com a sua capacidade de construir palácios, terminaria o castelo que queria pra si.

Eric Moreira.