mulher nenhuma vale dois anos de reclusão no inferno da penitenciária municipal

O ato de abrir as janelas às 8e30 da manhã

parece pavoroso quando você acorda e não sente seu corpo

a ressaca de vinho chileno — promoção de ontem —

e você sentindo que ela te odeia

que ela não vai ficar outra semana contigo

talvez ela esteja sonhando com seus outros carneirinhos

e você só consegue traí-la

com teus poemas ruins

você abre a janela e vê os ônibus engarrafando o trânsito às 8e45 da manhã

e você pensa no vinho e você pensa

que ela outra vez saiu e se divertiu a noite inteira

sem você

você não é nada, você é o café levado na cama

o sexo das 9e15 da manhã

você é algo que ela mantém

como um amante seguro, uma jarra de carinho instantâneo

como um amor miojo

e nos seus porres, nas suas inseguranças, nos seus pavores

ela te abraça e diz:

— eu sou sua namoradinha, ela deixa quase escapar

um

eu te amo

mas você não acredita

mas ela te doma

mas ela te aperta

mas ela te morde

mas ela

ela…

você não tem vontade, sua vontade foi embora há dois anos atrás naquela garrafa de Seagers Gin

sua vontade foi naquele chifre que você levou lá atrás

sua vontade é afogar-se

em conhaque

sua vontade é não acordar outra vez

sua vontade é não abrir a janela de ressaca

nunca mais

sua vontade é juntar suas roupas e ir embora

sua vontade é matar todos os outros caras com quem

ela sai

sua vontade é calcular a pena

do homicídio

de seis a vinte anos, mas você é réu primário

mas você é alcoólatra

mas você é doente mental

então, talvez,

com bom comportamento

são dois anos, um terço da pena mínima

se você realmente quisesse,

você poderia

mas você não quer.

mulher nenhuma vale

dois anos de reclusão

no inferno da penitenciária municipal

Foto: Johnny Cash em Folsom Prison.

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