O palhaço acena e abandona o show, pela metade

Opera do Malandro — Dir: Ruy Guerra (1985)

No bar do Bocão, às dez horas da noite. Entro sem cumprimentar ninguém, um único aceno para o gordo atrás do balcão. Ele entende, ele não pergunta o que foi, mas ele sabe. Sabe que voltei porque cavei a minha fossa outra vez, sempre que chego bêbado antes da meia-noite, ele sabe que chego sujo e fedendo à merda, depois de cavar meus sofrimentos de homem burro. Diaz senta-se do meu lado, com a cerveja barata e o cheiro de gordura e cachaça exalando pelo corpo. Ele não pergunta, mas puxa os óculos até a ponta do nariz, pagando de psicanalista maluco. Eu não me importo, bêbado como um porco, amanhã esquece tudo o que eu disser.

— São dez horas da noite e passei o dia inteiro bebendo vinho. É a primeira vez em muito tempo que tento curar o porre sem ter dormido, no alto da noite, tentando reorganizar a cabeça. — Ele acena que sim com a cabeça, enquanto me ouve falar.

— Cheguei a conclusão de que sou um palhaço, apaixonado sempre pelas piores filhas da puta do mundo, e condenado a me foder como um cão. — Bocão me serve uma garrafa de vinho, ele sabe melhor do que eu o que eu gostaria de beber. Essa noite, não vai me servir nenhum conhaque, com certeza. Sabe que nesse humor terrível, meu temperamento acaba e vou acabar virando um pau no cu depois do segundo copo.

Bocão serve o vinho na taça e bate no meu ombro, sem dizer nada. Homens velhos respeitam os sofrimentos dos outros. Sabem que não adianta falar nada, sabem que o silêncio e os ouvidos são as únicas coisas que realmente confortam um desesperado bêbado com vontade de chorar. Dor de corno é a coisa mais comum nas mesas dos bares mais sujos da cidade. Bocão tem esse bar há mais de vinte anos, ele sabe disso.

— Vou beber outro vinho agora que cheguei e inevitavelmente me passa pela cabeça que deve ser o último. Me sinto derrotado, tossindo e sentindo falta de ar por causa desse inverno desgraçado, mas ainda acendo meu cigarro.

Diaz vagueia com os olhos pelo bar, distraído. Já não entende porra nenhuma do que eu digo, ele é um filho da puta, mas tem bom coração. Se não estivesse bêbado, eu não sentaria e deitaria minhas reclamações de homem ferido sobre ele. É um cara que sofreu muito mais do que eu sofri e me assusta a capacidade de se manter em pé, depois de tudo isso.

— Meu reflexo no espelho diz que tô indo longe demais nessa pira autodestrutiva, de querer me rasgar de tanto beber, de tanto fumar e de amar as mulheres mais loucas desse circo que virou a minha vida.

Nesse momento eu entendo o que ele procura nas paredes do bar. Com o dedo esticado aponta uma mancha antiga na parede. Molha a garganta com outro gole de pinga e mastiga um torresmo duro, daqueles que estalam como se você estivesse mastigando pedra sabor gordura.

- Amar as putas é o mais destrutivo… — ele diz no dialeto que só quando nós estamos bêbados conseguimos compartilhar. — Aquilo foi uma garrafa de cerveja que quase acertou a minha nuca em… 1999? É… acho que sim. Amar as putas é o mais destrutivo, sabe por quê?

Ele fixa os olhos dentro do copo e procura as palavras certas.

— Porque elas não dão a mínima.

Bocão faz uma mesura, como quem é forçado a concordar. Diaz agora parece como um filósofo, olhando aquela mancha, num processo íntimo de contemplação e lembrança. Depois se perde, esquece o assunto e perde o fio da meada.

— Aí, Bocão… O Eric parece um profeta com essa barba — Bocão ri, os amigos e conhecidos em outras mesas riem também — é o profeta dos corações partidos.

Eu termino a taça, trago outra vez o cigarro. O temperamento corre limpo outra vez. Bocão é o mais sábio de todos, Diaz é como um aprendiz, e eu sou como o palhaço que acena e abandona educadamente o circo ao meu redor, no caminho pra casa.