quando desmancharam o carro do doutor, “ninguém viu” virou lema na boca do morro

Eric Moreira
Feb 23, 2017 · 5 min read
Rocinha, Rio de Janeiro. Ilus.: Paul Heaston

A casa ficava no alto da colina, de onde eu vivia, via a casa lá no topo. Era a única casa digna daquele bairro, diziam. Uma velha fazenda de mais de duzentos anos, vendida no prego e dividida pelos irmãos, depois pelos netos, depois pelos bisnetos. Até tornar-se apenas uma figura melancólica naquele bairro de pobreza ingrata. Lá vivia Santiago Coimbra, o velho pai de uma família extensa de comerciantes. Cada loja nova que abriam em San Pedro via-se de lá embaixo a festança que faziam entre os seus. Tratavam negócio como cigano, sempre uma mão por cima — e um pé atrás. A esposa de Santiago, Odete, era de feições delicadas. Uma branca de nariz fino, olhos cor de melaço, carregava seus cinquenta anos com muita graça. Santiago, por outro lado, tinha o nariz grande e torcido, a boca já murcha e as rugas comendo os olhos e as papadas.

Juntos, tinham quatro filhas e um filho. Lívia, tinha o cabelo negro ondulado e espalhando-se pelas costas. Tinha, também, os olhos de melaço da mãe. Mas o nariz torcido do pai. Era a mais velha dos irmãos. E já nos seus trinta e poucos, tinha no bolso duas lojas no centro de San Pedro. Jasmim, a segunda filha na ordem dos irmãos, não tinha beleza nem graça. Não carregava nenhuma lembrança da mãe, apenas os traços feios do pai. Augusto, o terceiro filho do casal, eram também feio feito o pai. Não havia nenhum galanteio, nada que lhe fizesse ser visto pelas garotas. Se o colocassem à venda numa feira de maridos, seu único ponto positivo seria as lojas que gerenciava — e as que herdaria.

As outras duas meninas eram jovens. Tinha sido agraciadas pela genética da mãe, narizes bonitinhos, bocas cheias e os olhos felinos, mas sem o melaço que era característico de Odete. Eram uma família grande e reservada, pouco se viam na rua. Com exceção das meninas que volta e meia andavam de braços dados com outras meninas pela rua, ou com os meninos da cidade. Pedreira era um bairro pobre e aquela família excêntrica era um ponto fora da curva no meio daquela pobreza. Eram como judeus exilados, refugiados de um povo distante. Quietos, discretos demais para serem como nós, que falávamos alto e cuspíamos no chão.

As duas filhas mais velhas já estavam casadas, Lívia era casada com um jovem advogado de finanças, andava em um carro sport, preto. Com os vidros escurecidos, como uma celebridade evitando ser reconhecido. Tentava ser simpático, mas não tinha qualquer habilidade de comunicação fora do seu limitado círculo social de indivíduos classe A. Bêbado, certa vez, furou o pneu descendo o caminho da casa dos Coimbra. Como um burro, guinchava de raiva com a tentativa frustrada de arrancar os parafusos da roda dianteira. Agarrava-se à chave de roda e fazia tanta força que parecia que podia explodir as veias pelas orelhas.

No bar do Bocão, os bêbados e os vagabundos assistiam, divertindo-se com a desconcertante falta de capacidade do advogado. Riam e gozavam daquela ironia do mundo em favor dos pobres. É tão comum, pra nós, sermos nós os gozados pelos advogados, pelos médicos, pelos empresários. Que naquele dia, como um coro de hienas, rimos do sujeito sujando-se todo e empapando o terno de terra e graxa e restos de óleo. Com as mãos pretas, tentando arrancar um parafuso que deus agarrou com os dentes, como uma justiça divina ou um carma a ser pago.

- Que vocês tão olhando? — ele gritava, irritado e embolando as palavras no meio do esforço, embriagues e constrangimento.

- Nada, dizia o Bocão, estamos apenas apreciando a noite.

E Bocão, um negro mais alto que o batente da porta, punha-se a rir outra vez.

- Nunca viram um pneu furado? Seu bando de macacos, só sabem rir. Só fazem graça da vida alheia. Seus fodidos.

Bocão, rindo das ofensas de menino mimado, punha-se a fumar um cigarro enquanto servia outros que chegavam para assistir o espetáculo, bebendo cerveja e rindo como condenados. Cansado de tanta vergonha, o advogado sacou a carteira e balançou uma nota de cinquenta reais.

- Tão vendo essa merda? Pago cinquenta reais pra quem tirar essa porra de pneu no meu lugar. Pago cinquenta reais. É dinheiro, eu sei que vocês querem, eu sei que vocês são todos uns mortos de fome que só movem um músculo se for pra ganhar alguma coisa. Quem vai querer?

Bocão debruçou o pano de secar os pratos sobre a mesa e foi andando até o carro. Tomou de uma vez só a chave de roda das mãos pequenas e esfoladas do advogado e desparafusou todos os parafusos em menos de cinco minutos. Subiu o macaco hightec do carro importado e tirou a roda do lugar.

- Viu? Sabia que vocês fariam se eu oferecesse dinheiro. Seus macacos mercenários.

Eu estava sentado numa das mesas do lado de fora, e como não prestava atenção no advogado até a hora que ele sacou cinquenta reais do bolso, perguntei ao Bocão o que ele tinha feito de errado. Já que um pneu não é coisa que dê tanto trabalho assim.

- De errado? Nada, só precisava girar a chave pro lado certo.

Não me aguentei e desatei a rir. Bocão pegou os cinquenta reais e voltou pro bar.

- Ei! Ainda falta colocar o step…

Gritava o advogado.

- Você ofereceu cinquenta reais pra quem tirasse o pneu. Colocar o outro não tá incluso no meu serviço não. Se tu quiser, que te vire, porque quadrado tu não é.

Bocão passou por mim e me serviu outra cerveja. Desconcertado e humilhado, o advogado discou e tentou ligar várias vezes para a casa dos Coimbra naquela noite. Mas em noite de festa, ninguém atende ao telefone. Ninguém se dá conta de que existe um telefone a tocar. Ele ficou ali por uma, duas, três horas. Até que por fim, ligou para um táxi e deixou o carro no lugar. “Sem uma roda, duvido que tirem esse carro daqui”, foi o que ele deve ter pensado.

Pois é, Dr. Advogado. Uma coisa que eu aprendi na minha vida é que ser pobre estimula a nossa criatividade. Depois das três horas da manhã, o Bocão fechou o bar e a rua ficou morta como num filme B de terror. Não sabemos como, mas de manhã o carro era praticamente só o chassi. Arrancaram as rodas, desarmaram o alarme, arrancaram o som embutido e original de fábrica, várias peças do motor, as portas da frente. A única coisa que deixaram foi o pneu furado, talvez como lembrança.

A polícia procurou, fez uma batida procurou qualquer vestígio. Perguntou os vizinhos. Fizeram várias anotações, mas o que ficou no papel foi o que ninguém contou:

“Ninguém viu nada não, dotô”.

Eric Moreira

Eric Moreira

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escritor. autor de "Último blues em San Pedro" pela Multifoco. bêbado convicto e pau-no-cu por vocação. amém!

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