Todo boteco é uma revolução em si

Escuto o papo do bêbado do lado com o conhaque atravessado na garganta. Um moleque, digo, um moleque universitário, como eu também já fui — mas deixei de ser, por uma questão de ordem, como dizem nas assembleias. Ele acredita que salvará o proletariado, com seu discurso de partido vendido. Eu também acreditei, eu também fiz isso, eu também já estive aqui e disse as mesmas coisas que ele agora diz. Bocão, o dono do bar, me olha de rabo de olho. Eu sacudo a cabeça, negativamente, e ele deixa correr o assunto. O garoto emocionado faz o discurso, bêbado como um gambá, como eu vou ficar daqui a pouco.

— O problema são esses pobres capitalistas, acham que são ricos, mas são assalariados.

Bocão enxuga o copo com o pano de prato, cospe na pia e me olha outra vez.

— O problema é essa classe média … — o assunto segue.

Bocão encosta do meu lado. Continua enxugando o mesmo copo há dez minutos.

— Eu te aturei quando era assim, mas porque você bebe. Pelo menos, você bebe. Esse cara tomou duas cervejas e já tá assim. Não bebe mais nada, não come torresmo, não pede uma água. Parou de gastar dinheiro e passou a ser só um pau no cu.

O cara do lado dele ficava entediado. Provavelmente, um desses que depois de corneados encostam no bar e bebem. Não queria saber de política, queria qualquer mensagem de amor, ou sobre superação. E o garoto alugando os ouvidos dele com motes políticos da mais nova discussão universitária — a mesma lenga-lenga de quarenta anos atrás — e Bocão, que não fez universidade, nem quis fazer, ficando de saco cheio.

— Mas, de acordo com Lênin… — Bocão interrompeu.

— Se tu continuar aporrinhando o saco vou te botar pra fora. Quer alguma coisa pra beber?

— Não, já bebi. Tô conversando com o companheiro aq — Bocão interrompeu de novo.

— Companheiro o caralho. O Júlio acabou de perder a esposa. Câncer. Tu só tá sendo um pau no cu alugando o ouvido dele com política. Mete o pé daqui. Conheço a tua laia, gosta de falar. Leu três livros na vida e gosta de posar de garanhão analista político. Vaza.

Tomei o resto da minha cerveja, intervi.

— Bocão, não precisa ser grosso com o moleque. Ele tá empolgado, acha que vai mudar o mundo. Todo mundo acha que vai mudar o mundo. Uns com política, outros com …— mostrei o copo de conhaque, ainda pela metade.

— Tá vendo aquele cara ali? — Bocão apontou pra mim — Era igualzinho você. Só que bebia de verdade. Por isso eu aceito ele aqui. Olha ele o que virou. Quer ser um fodido assim? É isso que viram os comunistas que caem na real, eles se fodem. Essa porra de sistema fodeu tudo. Comeu todas as oportunidades. Somos escravos mesmo, mas foda-se, sabe porquê? Tenho uma Smart TV da LG. Saio daqui às quatro e meia, deito e assisto todos os filmes que eu quero ver. Quando era moleque pagava uma grana pra ir no cinema, ia três vezes por semana. Assistia os mesmos filmes várias vezes até sair de cartaz. Meus amigos entraram na universidade, viraram comunistas, sabe onde eles tão agora? Tudo morto. Morreram de desgosto quando a união soviética acabou. Então… ou você cala a boca e larga de ser pau no cu, ou mete o pé. Não quero nostalgia aqui. Se você perguntar, na sexta feira, metade desse bar já foi do partido comunista, todo mundo sacou que a porra toda acabou. Só você que não, moleque. A universidade de vocês quer reinventar a roda. Minha geração tentou, a geração anterior, também tentou. Essa porra não acaba. A gente vai morrer e o capitalismo vai estar se reinventando, porra. Então bebe, que a frustração vai embora.

O garoto ficou calado e ficou vermelho, depois ficou roxo, depois verde, depois azul. Sentia raiva. Xingou Bocão de coxinha, conservador, burguês, pobre-capitalista e saiu. Bocão veio até mim.

— Se você tivesse feito isso, eu teria quebrado seus dente.

— Bocão, antes de comunista, sempre fui alcoólatra. Você é maior que Lênin pra mim.

Ele riu, serviu outro conhaque. Acendi um cigarro e Júlio olhou pra nós, com os olhos cheios d’água, bêbado como o cão, sem saber o que tinha acontecido.