Violência e Solidão, capítulo

Nessa mesma onda de violência — coisa que se não contei antes era porque achava desnecessário, mas agora é importante contar — duas semanas depois Maralice esfaqueou o marido dentro de casa. Desceu o sarrafo no criolo e deixou ele sangrando no chão. Depois do pau quebrado, chamaram a polícia. Sempre tem um vizinho que é caguete. Maralice nem quis explicar, foi logo mostrando o corpo para os homens e se entregou numa boa. No tribunal ela, contou que sofria violência e um dia, com a faca na mão, o marido disse que ia matá-la. Ela, por sua vez, pegou a faca da mão do marido e matou primeiro. Todo mundo disse que não foi assim que aconteceu.

No Congá ouvi dizer que o marido, Lourenço, era um cafajeste de marca maior. Andava comendo a vizinhança inteira, e Maralice morria de ciúmes do homem. Cansou um dia e matou quando o marido chegou em casa, bêbado. Na padaria do Pedrosa, disseram que ele era violento e que ela apanhava dia sim, dia não. Naquela noite, quando ele tentou quebrar o pau na mulher, ela revidou com aço. Deu quinze facadas e tomou o café forte como se nada tivesse acontecido. Um policial, que morava na rua de cima do Pedrosa, disse que ouviu na delegacia outra história. A mulher tinha um amante e queria largar o marido pra ficar com o outro. Lourenço ficou indignado e avançou pra cima da esposa. Dias depois ela esperou o marido chegar bêbado em casa e matou ele com requintes de crueldade. Inclusive, completou, isso podia render mais de dez anos de cadeia em cima dela.

O defensor público juntou as testemunhas. Todos disseram que o marido era realmente um homem violento e já tinham ouvido as brigas do casal várias vezes. No final, o juiz atribuiu legítima defesa para a mulher e Maralice voltou para casa. Nesse intervalo de tempo, os filhos ficaram com mãe. Quando ela voltou, foi festa e churrasco. Ouvi do meu quarto até a madrugada a comemoração. Podia ter ido, festa de vizinho não tem porteiro. Quem quiser ir, que vá. Mas não me senti bem de entrar sem ser convidado.

Além disso, houve também o caso do Baiano. Que arrebentou um tijolo na cabeça do irmão, numa briga de bar. Família é um conceito problemático. Comercial de margarina só mostra um lado. Quando todo mundo, de rabo cheio de comida, fica de bem com a vida. Mas por outro lado, todo mundo com os cornos cheios de cachaça, o pau quebra também. A briga deu início numa discussão entre as mulheres dos dois irmãos. Na hora de separar a confusão, irmão se estranhou com irmão e saíram no tapa. O samba nem vacilou, continuou tocando e os dois quebraram tudo do lado de fora do boteco. Quando o Baiano se viu livre do irmão, passou a mão num tijolo solto e arrebentou no côco do irmão mais velho, não recordo o nome.

O melado desceu espesso, vermelho. Sujou a camisa dos dois. Se engalfinharam no chão, mas depois conseguiram apartar a confusão. A polícia chegou e deu um sermão de padre. Os dois se cumprimentaram e a polícia foi embora. A ambulância levou o mais velho para levar uns pontos no pronto socorro. Baiano voltou pro boteco. Bebeu até ficar choroso e terminou a noite em prantos por ter machucado o irmão. Todo mundo consolou e eu vi o marmanjo chorar até a esposa carregá-lo para casa. Duas semanas depois, os dois bebiam em casa em festa, de novo. Às vezes, a realidade bate mais duro que a ficção. Tem dias que fico pensando que fantasia mesmo é a vida fora daqui. A literatura não dá conta de contar tudo como acontece.

E, por ultimo, quando eu mesmo estou no olho do furacão. Eram seis horas da noite, no Congá, quando começamos a jogar truco a valer. Jogavamos somente trocados, pouca grana. Ninguém tinha muito o que gastar, mas gastávamos mesmo assim. Bebi alguns conhaques e fumava cigarro atrás de cigarro, com vontade de ganhar alguma coisa. Não importa que seja mixaria, pra quem não anda tendo nem um vintém, qualquer cinco reais é alguma coisa. Depois de vários conhaques, alguns tecos em um pino de vinte reais que eu tinha pego de um traficante conhecido, ia ficando belicoso. Na mesa éramos Jorjão, Pedro, Lauro e eu. Jorjão era preto e valente, do tamanho de uma máquina de lavar de 10kg. Pedro era um branquelo baixinho e Lauro um preto alto e magro. As duplas estavam combinadas entre eu e Pedro, contra os outros dois. “Vamo ver se vocês jogam mesmo” dizia Jorjão. E jogávamos sempre combinando jogadas, como se faz num bom jogo de truco.

Rodadas e mais rodadas. E meu senso de justiça foi ficando alterado pelo conhaque e cocaína combinados. Fiquei paranoico com as mãos do ladrão de galinha, Jorjão. Ele estava roubando, com certeza estava. Sempre com as manilhas. As melhores cartas. Aquele filho da puta tava me roubando. Eu não tinha cinco reais, e ele ainda estava dando um jeito de me roubar. Injustiça. Fui ficando irritado com aquilo. Não sabia se ele estava roubando, mesmo. Mas bati na mesa e chamei de ladrão. Ele, que era de um pretume que fazia inveja em todo mundo, ficou roxo. Raivoso ele se levantou e gritou de volta:

- Ninguém me chama de ladrão, não. Moleque. Ou tu tira essa merda que tu disse, ou vou te quebrar o pescoço aqui mesmo. Tá ouvindo?

- Não tiro merda nenhuma. Teu filho da puta. Ladrão de carta.

Ele jogou o baralho no chão e veio com o punho pra cima. Eu capotei pra trás das cadeiras e defendi o topo da cabeça. Enquanto ele recuperava o equilibrio bêbado do primeiro soco, joguei uma cadeira me madeira pra dentro das costas e ele quase não sentiu. Com a mão agarrou meu tornozelo e me jogou no chão, com força de um cavalo de raça pura.

Senti que ia vomitar. Acertei a nuca no assoalho do bar. Cheirava a desinfetante Pinho Sol. Primeiro veio a sola do pé, depois o gosto de borracha velha. Jorjão chutou minha barriga, minhas costas, minhas costelas. Achei que ia morrer com os coices daquela mula violenta e forte. Vomitei conhaque e torresmo. Espalhou no chão igual lavagem de porco.

Pedro e Lauro seguraram o valente. Levaram ele pra fora do bar. Ele se deixou acalmar e não esquentou mais com a minha — pouca — resistência. Fiquei no chão. Ri daquela desgraça toda. Sentia o corpo inteiro como se tivesse sido atropelado por um caminhão. Mas quem tinha atropelado mesmo era o caminhoneiro. Jorjão pesava 110 quilos, no mínimo. Era um Muhammad Ali brasileiro, forte negro e destruidor. Duas moças me acudiram com dó daquela covardia. Não sabiam que eu tinha começado a confusão. Ficaram falando comigo sobre como aquilo era terrível, mas que ia ficar tudo bem.

Uma delas, com certa facilidade que até me assustou, me carregou pra casa. Fui o caminho todo escorando nos ombros daquela mulher. Era um mulherão e era forte mesmo. Jorjão tomou antipatia comigo. Não voltou a jogar truco na nossa mesa e cruza a rua sempre que me vê. No caminho, a mulher falou algumas coisas. O nome que ela tinha me dado era Brigitte. Nome de puta, eu pensei. Nunca ia me dizer o nome de verdade. Mas ela foi comigo até em casa e se despediu na porta, enquanto eu lutava pra entrar em casa.

Lá dentro, acendi o ultimo cigarro que tinha. Sentia tudo doendo tanto que parecia que tinha quebrado vários ossos. Fiquei preocupado com as costelas e examinei-as no espelho. Nada parecia quebrado, mas eu sentia que podia estar.

Abri o espelho do banheiro e peguei antisseptico e um pano limpo na gaveta. Molhei o pano e esfreguei no rosto e nos cortes que doíam mais. O cigarro acabou rápido demais aquela noite. Fiquei sentindo dor e não tinha nenhum pra fumar. Joguei o pino de cocaína no lixo e fiquei sentindo ódio daquilo. Debaixo da cama tinha ainda um quarto de conhaque na garrafa. Bebi no gargalo aquele resto e lutei pra não vomitar. Precisava ficar embriagado, se quisesse dormir.

Fiquei olhando o teto e ri daquilo tudo. Cantei Sittin’ on the dock of the Bay, do Otis Redding. Aquilo tudo era uma brincadeira de mal gosto. Sentia tudo doer, mas o melhor era dormir. Dormi pensando naquela Brigitte que me levou em casa. O que ela estava fazendo naquele momento? Socorrendo outro coitado espancado num bar? Talvez. Parecia maternal, era uma mulher e tanto, também. Eu só não sabia o quanto.

Eric Moreira, capítulo de “Outra Vez, San Pedro”.

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